O anúncio, feito na semana passada, da filiação ao PSD de seis dos oito deputados estaduais do PSDB em São Paulo consolidou mais um capítulo do avanço comandado por Gilberto Kassab sobre o espaço político historicamente ocupado pelos tucanos. O movimento aprofundou a perda de quadros do partido fundado por Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso justamente em seu principal reduto eleitoral, provocando reação da direção partidária e de lideranças tradicionais da sigla.
Além de ampliar sua presença no Legislativo estadual, o PSD também avançou de forma significativa nas eleições municipais mais recentes. No pleito de dois mil e vinte e quatro, a legenda conquistou duzentas e sete prefeituras paulistas, enquanto o PSDB venceu em apenas vinte e uma cidades. O contraste é ainda maior quando comparado ao resultado de quatro anos antes, quando os tucanos haviam eleito prefeitos em cento e setenta e três municípios no estado.
Levantamento aponta que quarenta e cinco dos oitenta e três prefeitos e vice-prefeitos do PSDB que tentaram a reeleição no último pleito acabaram seguindo o mesmo caminho dos deputados estaduais e migraram para o PSD. A maior parte desses gestores comanda cidades de pequeno e médio porte, onde o peso da estrutura partidária e do acesso a recursos costuma ser decisivo para a sobrevivência política.
O PSD foi o partido que mais atraiu quadros tucanos nesse processo. Em segundo lugar aparece o Republicanos, legenda do governador Tarcísio de Freitas, que recebeu onze filiações, incluindo a do prefeito de Santos, Rogério Santos. Outras siglas, como PL, União Brasil, PP e MDB, também incorporaram nomes oriundos do PSDB. Apenas dez prefeitos e vice-prefeitos optaram por permanecer no partido.
Esse esvaziamento ocorre em um momento delicado para os tucanos, que perderam o controle do governo paulista após vinte e oito anos consecutivos no comando do estado. A derrota de Rodrigo Garcia para Tarcísio de Freitas marcou o fim de um ciclo iniciado nos anos noventa e expôs fraturas internas agravadas durante a gestão de João Doria, que rompeu com setores da velha guarda e protagonizou embates com Jair Bolsonaro durante a pandemia.
Atualmente comandado nacionalmente pelo deputado federal Aécio Neves, o PSDB reagiu à nova ofensiva de Kassab. Em nota pública, Aécio comparou a atuação do dirigente do PSD a “fundos abutres da economia”, acusando-o de atacar ativos fragilizados para comprá-los a preços baixos. “O PSDB não está à venda”, afirmou, ao sustentar que o partido pretende apresentar um projeto próprio para o país.
As razões para a sangria tucana são conhecidas nos bastidores políticos. O PSDB enfrenta há anos disputas internas pelo comando da legenda e uma crise de identidade após perder protagonismo na polarização com o PT, especialmente com a ascensão do bolsonarismo. Em dois mil e vinte e dois, o partido sequer lançou candidato à Presidência da República, optando por apoiar Simone Tebet, do MDB.
Também pesa a fragilidade financeira e estrutural da sigla. O PSDB ficou apenas na décima posição entre os partidos que mais receberam recursos do fundo eleitoral, critério definido pelo tamanho das bancadas federais. Uma nova derrota expressiva nas urnas municipais pode comprometer o acesso ao fundo partidário nos próximos anos, agravando ainda mais a dificuldade de reorganização.
Entre antigos gestores de grandes cidades paulistas, a debandada foi expressiva. O ex-prefeito de São José dos Campos, Felício Ramuth, tornou-se vice-governador na chapa de Tarcísio. Em Ribeirão Preto, Duarte Nogueira também deixou o PSDB e se filiou ao PSD. Já Orlando Morando, ex-prefeito de São Bernardo do Campo, pediu desfiliação e atualmente ocupa a Secretaria de Segurança Urbana na gestão de Ricardo Nunes, na capital.
Entre os que resistem está o ex-prefeito de Santo André, Paulo Serra, atual presidente estadual do PSDB. Ele ensaia uma candidatura ao governo paulista e rejeita a tese de que Kassab tenha absorvido o partido. “Não se absorve um conceito, ainda mais sendo base de apoio do PT no plano nacional”, afirmou, em referência ao alinhamento do PSD ao governo federal.
O PSD, que comanda três ministérios, consolidou-se como a legenda com maior número de prefeituras no país, apesar de sua estrutura relativamente jovem, criada em dois mil e onze. Em São Paulo, Kassab acumula a função de dirigente partidário com o cargo de secretário de Governo, responsável pela articulação com prefeitos e pela liberação de convênios, o que gera críticas de adversários. Ele nega qualquer prática de cooptação, mas segue ampliando sua influência ao atrair nomes consagrados da política nacional e regional.
Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil

