Um amplo estudo internacional aponta que uma parcela significativa das mortes por câncer registradas no Brasil poderia ser evitada com políticas públicas mais eficazes de prevenção, diagnóstico precoce e acesso oportuno ao tratamento. De acordo com a pesquisa, 46,6% dos óbitos provocados pela doença no país estão relacionados a fatores que podem ser enfrentados por meio de ações estruturadas de saúde pública e ampliação da assistência médica.
O levantamento estima que, entre os casos de câncer diagnosticados no Brasil em dois mil e vinte e dois, cerca de duzentos e cinquenta e três mil devem evoluir para óbito em até cinco anos após a detecção. Desse total, aproximadamente cento e nove mil mortes poderiam ser evitadas se houvesse redução dos fatores de risco, maior cobertura de exames de rastreamento e acesso adequado a tratamentos eficazes no sistema de saúde.
O estudo integra a edição de março da revista científica The Lancet, uma das publicações médicas mais reconhecidas do mundo. A pesquisa foi conduzida por doze autores, dos quais oito são vinculados à Agência Internacional para Pesquisa em Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde e sediada na França. O trabalho analisou dados de trinta e cinco tipos de câncer em cento e oitenta e cinco países, oferecendo uma visão global das desigualdades relacionadas à mortalidade pela doença.
Os pesquisadores dividiram as mortes evitáveis no Brasil em dois grandes grupos. O primeiro reúne cerca de sessenta e cinco mil óbitos classificados como preveníveis, nos quais a doença poderia não ter ocorrido caso houvesse controle adequado dos fatores de risco. O segundo grupo, com pouco mais de quarenta e quatro mil mortes, inclui casos que poderiam ser evitados por meio de diagnóstico precoce e tratamento adequado após o surgimento do câncer.
No cenário mundial, o percentual de mortes por câncer consideradas evitáveis é ainda maior. Segundo o estudo, quarenta e sete vírgula seis por cento dos óbitos registrados globalmente poderiam não ter ocorrido. Isso representa quase quatro milhões e meio de vidas entre os cerca de nove milhões e quatrocentas mil mortes causadas pela doença em todo o mundo.
Do total global de óbitos por câncer, aproximadamente um terço é considerado prevenível, enquanto catorze vírgula quatro por cento estão relacionados à ausência de diagnóstico precoce e de acesso efetivo ao tratamento. Esses números evidenciam o peso das políticas de prevenção e da organização dos sistemas de saúde na redução da mortalidade.
Ao analisar os fatores de risco associados às mortes preveníveis, os pesquisadores destacam cinco elementos principais: o tabagismo, o consumo de álcool, o excesso de peso, a exposição excessiva à radiação ultravioleta e infecções associadas a vírus e bactérias, como o HPV, os vírus das hepatites e a bactéria Helicobacter pylori.
A comparação entre países e regiões revela profundas desigualdades. Nações do norte da Europa apresentam alguns dos menores percentuais de mortes evitáveis, com índices próximos de trinta por cento. A Suécia aparece como o país com melhor desempenho, seguida por Noruega e Finlândia, o que indica sistemas de saúde mais eficientes em prevenção e tratamento.
No extremo oposto, países africanos concentram as maiores proporções de mortes evitáveis por câncer. Em locais como Serra Leoa, Gâmbia e Malaui, cerca de sete em cada dez óbitos poderiam ser evitados com políticas adequadas de saúde, o que evidencia a fragilidade dos sistemas de prevenção e tratamento nessas regiões.
Quando analisadas por grandes regiões, Austrália e Nova Zelândia apresentam percentual de mortes evitáveis em torno de trinta e cinco por cento, enquanto a América do Norte registra pouco mais de trinta e oito por cento. Já as regiões da África Oriental, Ocidental e Central superam sessenta por cento de óbitos evitáveis. A América do Sul aparece com índice de quarenta e três vírgula oito por cento, muito próximo ao observado no Brasil.
As desigualdades também se tornam evidentes quando os países são agrupados pelo Índice de Desenvolvimento Humano. Nos países com baixo IDH, seis em cada dez mortes por câncer poderiam ser evitadas. Em seguida aparecem os países de IDH alto, médio e muito alto, com redução progressiva desse percentual. O Brasil está classificado no grupo de IDH alto.
O estudo mostra ainda que o perfil dos tipos de câncer varia conforme o nível de desenvolvimento. Em países de baixo e médio IDH, o câncer de colo do útero lidera o ranking de mortes evitáveis. Já nos países de IDH alto e muito alto, esse tipo de câncer deixa de figurar entre os cinco principais, reflexo de políticas de vacinação e rastreamento mais consolidadas.
A disparidade fica clara ao comparar as taxas de mortalidade por câncer de colo do útero. Em países de IDH muito alto, são pouco mais de três mortes a cada cem mil mulheres, enquanto nos países de baixo IDH o índice sobe para mais de dezesseis por cem mil.
De acordo com o levantamento, cinquenta e nove vírgula um por cento das mortes evitáveis estão relacionadas aos cânceres de pulmão, fígado, estômago, colorretal e colo do útero. Entre os casos preveníveis, o câncer de pulmão lidera, com mais de um milhão de mortes associadas principalmente ao tabagismo.
Já entre os casos considerados tratáveis, o câncer de mama em mulheres aparece como o principal responsável por óbitos que poderiam ser evitados com diagnóstico precoce e acesso ao tratamento. Foram cerca de duzentas mil mortes nessa categoria, o que reforça a importância de ampliar o rastreamento e reduzir o tempo entre a suspeita e o início da terapia.
Os autores do estudo defendem a adoção de políticas públicas mais firmes para reduzir o consumo de tabaco e álcool, incluindo campanhas educativas e aumento de impostos sobre esses produtos. Também destacam a necessidade de enfrentar o avanço do excesso de peso, com medidas que regulam publicidade, rotulagem e tributação de alimentos e bebidas não saudáveis.
Outro ponto central é o fortalecimento da prevenção de infecções associadas ao câncer, especialmente por meio da vacinação contra o HPV. Além disso, os pesquisadores ressaltam metas da Organização Mundial da Saúde relacionadas ao diagnóstico do câncer de mama, como ampliar a detecção em estágios iniciais e reduzir o tempo para confirmação diagnóstica.
No Brasil, o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer realizam campanhas regulares de prevenção e diagnóstico precoce. Ainda assim, o estudo indica que a ampliação dessas ações e a redução das desigualdades no acesso ao tratamento são fundamentais para diminuir de forma consistente o número de mortes evitáveis por câncer no país.
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

