A movimentação da janela partidária evidenciou uma reconfiguração significativa no equilíbrio de forças da Câmara dos Deputados, com destaque para o crescimento expressivo do Partido Liberal (PL), impulsionado pela pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. A legenda, associada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, ultrapassou a marca de 100 parlamentares, consolidando-se como a maior bancada da Casa e ampliando sua influência no cenário político nacional às vésperas das eleições.
O avanço ocorreu durante o período da janela partidária, mecanismo que permite aos deputados trocar de legenda sem risco de punição. Segundo levantamento baseado em dados da Câmara e das próprias siglas, o PL saltou de 86 para 101 deputados, resultado de 22 novas filiações e 7 saídas. O crescimento se concentrou nos últimos dias do prazo e refletiu uma estratégia articulada de fortalecimento da legenda nos estados, com foco direto na disputa eleitoral.
A ascensão do PL foi favorecida, em grande parte, pela crise enfrentada pelo União Brasil, que perdeu espaço em meio a disputas internas e desgastes políticos. A federação formada com o Partido Progressistas acabou gerando conflitos regionais e dificuldades de alinhamento estratégico, o que abriu caminho para a migração de parlamentares em busca de maior estabilidade e protagonismo.
Além disso, o impacto político da pré-campanha de Flávio Bolsonaro teve papel central na reconfiguração. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, atribuiu o crescimento ao prestígio do bolsonarismo e à capacidade de articulação em torno do projeto eleitoral. Segundo ele, a legenda precisou, inclusive, negociar vagas e alianças para acomodar lideranças interessadas em integrar o grupo político.
Entre os nomes que migraram para o PL estão figuras de destaque vindas do União Brasil, como o deputado Alfredo Gaspar, de Alagoas, que busca viabilizar candidatura ao governo estadual. Também aderiram à legenda Dani Cunha, filha do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, a deputada Rosângela Moro, ligada ao senador Sergio Moro, e Rodrigo Valadares, que teve atuação relevante em debates legislativos recentes.
A intensa movimentação partidária revelou ainda episódios de instabilidade e decisões estratégicas em curto espaço de tempo. O deputado Padovani, do Paraná, protagonizou uma sequência de mudanças ao anunciar saída do União Brasil, ingressar no PL e, poucos dias depois, optar por migrar para o PP. O próprio parlamentar classificou o cenário como dinâmico, refletindo o ambiente de incerteza e negociação constante que marca o período pré-eleitoral.
O União Brasil, por sua vez, foi o partido que mais perdeu representantes durante a janela. A bancada, que contava com 59 deputados, deve cair para 44, resultado de 25 saídas e apenas 10 novas filiações. O desempenho negativo expõe as fragilidades internas da legenda e os desafios decorrentes da federação com o PP, que, embora tenha sido concebida para ampliar a força política do bloco, acabou intensificando disputas pelo controle regional.
Nos bastidores, lideranças do União relatam dificuldades para estabelecer uma posição nacional clara, especialmente diante da polarização entre os campos liderados por Lula e Bolsonaro. A tendência predominante é de neutralidade na disputa presidencial, com liberação dos filiados para apoiarem diferentes candidaturas. Essa falta de definição contribuiu para a debandada de parlamentares, muitos dos quais optaram por se alinhar diretamente ao projeto bolsonarista.
Outro fator que agravou a situação do União Brasil foi o desgaste associado ao caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Investigações e documentos revelaram relações entre o empresário e dirigentes da federação, incluindo o presidente do União, Antônio Rueda, e o presidente do PP, Ciro Nogueira. A repercussão do episódio impactou a imagem da legenda e aumentou a pressão sobre seus quadros.
O deputado Danilo Forte, que deixou o União Brasil, destacou que a reputação é um elemento central na política e que a associação a denúncias pode influenciar decisões partidárias. Segundo ele, parlamentares tendem a buscar ambientes mais seguros e alinhados às suas estratégias eleitorais, o que ajuda a explicar a migração em massa observada durante o período.
No Senado, o movimento também foi perceptível. O União Brasil viu sua bancada reduzir significativamente, passando de 8 integrantes para apenas 3. Permanecem na sigla nomes como Davi Alcolumbre, Professora Dorinha e Jayme Campos. Já o PL recebeu reforços importantes, incluindo Sergio Moro e Efraim Filho, que deixaram o União em busca de novas oportunidades políticas.
Apesar das perdas, Antonio Rueda minimizou o impacto e afirmou que o resultado está dentro das expectativas, projetando um saldo negativo menor ao final do processo. Ainda assim, reconheceu que a federação teve influência direta na reorganização das bases partidárias e no reposicionamento das lideranças.
Enquanto isso, o PP apresentou crescimento moderado, passando de 50 para 54 deputados, consolidando-se como uma das principais forças do centro político. O Partido Social Democrático manteve relativa estabilidade, com 47 parlamentares, demonstrando capacidade de equilíbrio em meio às mudanças.
O Partido da Social Democracia Brasileira tenta se reerguer após desempenho eleitoral fraco em 2022. A legenda deve alcançar 19 deputados, com a incorporação de novos quadros, como Juscelino Filho, ex-ministro das Comunicações. O presidente do partido, Aécio Neves, defende a retomada de um espaço político de centro, distante da polarização entre lulismo e bolsonarismo.
No campo governista, o Partido dos Trabalhadores mantém-se como a segunda maior bancada, embora com leve redução, passando de 67 para 66 deputados. A saída de Luizianne Lins para a Rede Sustentabilidade foi a principal alteração registrada até o momento.
O Partido Socialista Brasileiro apresentou crescimento, ampliando sua bancada de 16 para 20 deputados. O presidente da sigla, João Campos, destacou que o resultado representa um compromisso político com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com a governabilidade.
Apesar do avanço de partidos alinhados ao governo, o cenário indica que o Palácio do Planalto continuará dependente do apoio de siglas de centro para aprovar matérias no Congresso. A fragmentação partidária e a força crescente do PL reforçam a necessidade de negociação constante e articulação política.
A janela partidária, portanto, não apenas redesenhou a composição da Câmara, mas também antecipou tendências para o próximo ciclo eleitoral. O fortalecimento do PL, aliado à pré-campanha de Flávio Bolsonaro, sinaliza uma disputa acirrada pelo comando do país, enquanto partidos tradicionais enfrentam o desafio de se reposicionar em um ambiente cada vez mais polarizado e dinâmico.
Foto: Jonas Pereira/Agência Senado

