Brasil e Alemanha firmaram em Hannover uma declaração conjunta de intenções para ampliar a cooperação científica e tecnológica em minerais críticos e estratégicos, tema considerado central para a transição energética, o desenvolvimento industrial e a soberania tecnológica. O acordo foi assinado durante visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país europeu e estabelece bases para ações conjuntas em pesquisa, inovação e processamento desses insumos.
O entendimento foi firmado entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil e o Ministério Federal da Pesquisa, Tecnologia e Espaço da Alemanha. A proposta é intensificar iniciativas ao longo de toda a cadeia produtiva de minerais considerados estratégicos para setores como baterias, painéis solares, turbinas e tecnologias emergentes.
Os chamados minerais críticos têm ganhado relevância internacional por sua aplicação em tecnologias modernas e pelos riscos associados à oferta concentrada em poucos fornecedores globais. O Brasil aparece nesse cenário como país com grandes reservas e potencial para ampliar participação nesse mercado.
Ao comentar o acordo, Lula destacou que o objetivo brasileiro é ir além da exportação de matéria-prima e atrair para o país etapas de maior valor agregado, como processamento industrial e desenvolvimento tecnológico. Segundo o presidente, a estratégia busca evitar que o país se limite ao papel tradicional de exportador de commodities.
O acordo prevê cooperação em pesquisa, desenvolvimento e inovação em áreas como exploração, extração e processamento de terras raras e outros minerais estratégicos. Também contempla ações voltadas ao fortalecimento de capacidades industriais e ao desenvolvimento sustentável das cadeias produtivas.
Entre os compromissos assumidos está o apoio à inovação, especialmente para pequenas e médias empresas, além do lançamento de projetos conjuntos, intercâmbio de cientistas, formação técnica em pós-graduação e criação de mecanismos de financiamento bilateral. Um novo programa de apoio direto a instituições e empresas dos dois países deverá ser elaborado em 2026.
A parceria é vista pelos dois governos como instrumento para ampliar competitividade industrial e reduzir vulnerabilidades em setores sensíveis à transição energética. Também foi apresentada como forma de fortalecer cooperação entre países com interesses convergentes em inovação e segurança de suprimentos.
Além do acordo sobre minerais críticos, Brasil e Alemanha adotaram outros 14 atos conjuntos durante a visita oficial. Entre eles, estão iniciativas para cooperação no combate a crimes ambientais, como desmatamento, mineração ilegal e tráfico de fauna e flora.
Outro eixo de colaboração envolve inteligência artificial, com foco em governo digital e aplicações industriais. Também houve assinatura de carta de intenções para ampliar recursos destinados ao Fundo de Combate às Mudanças Climáticas, coordenado pelo governo brasileiro e operacionalizado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
Pelo entendimento, o banco de desenvolvimento alemão KfW deverá aportar cerca de 500 milhões de euros para financiar projetos e estudos voltados à redução de emissões e adaptação climática no Brasil. O reforço é tratado como parte da agenda bilateral de sustentabilidade.
Também foram firmados documentos de cooperação em defesa, pesquisa oceânica, tecnologias quânticas, economia circular, pesquisa aeroespacial e apoio a micro e pequenas empresas. O conjunto dos acordos foi apresentado como sinal de aprofundamento da parceria estratégica entre os dois países.
Durante a visita, Lula foi recebido com honras militares e participou de reunião bilateral com o chanceler Friedrich Merz. A Alemanha considera o Brasil um dos poucos países com os quais mantém acordo de parceria estratégica, o mais alto nível de relação diplomática.
Merz afirmou que a aproximação ganha ainda mais relevância em cenário de mudanças na ordem internacional e destacou a intenção de fortalecer uma rede de parceiros com interesses comuns. A declaração foi interpretada como sinal de convergência em temas econômicos, tecnológicos e geopolíticos.
Além da agenda bilateral, Lula discursou na abertura da Hannover Messe, maior feira industrial do mundo, que neste ano tem o Brasil como destaque. O presidente também participou de encontro com empresários brasileiros e alemães, em que ressaltou oportunidades em biocombustíveis e na indústria verde.
Para especialistas, o acordo sobre minerais críticos amplia o posicionamento brasileiro em um setor estratégico para a economia global e reforça a disputa por cadeias produtivas ligadas à energia limpa e às tecnologias do futuro.
Foto: Ricardo Stuckert / PR

