A Petrobras prevê atender mais de um terço da demanda brasileira por fertilizantes nitrogenados com a retomada de suas fábricas de produção próprias em diferentes estados do país. O anúncio foi feito durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados da Bahia, a Fafen, localizada em Camaçari, na região metropolitana de Salvador.
A unidade industrial voltou a operar em janeiro de 2026 após permanecer aproximadamente seis anos hibernada. Segundo a Petrobras, foram investidos R$ 100 milhões na retomada das atividades da planta, que possui capacidade para produzir 1,3 mil toneladas diárias de ureia, quantidade equivalente a cerca de 5% da demanda nacional do insumo.
Durante o evento, Lula esteve acompanhado da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, de ministros e do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues. A estatal informou que a retomada da fábrica também gerou impacto positivo na economia regional, com criação de 900 empregos diretos e outros 2,7 mil postos indiretos.
A reativação da unidade baiana faz parte de um plano mais amplo de recuperação da capacidade nacional de produção de fertilizantes. Além da Fafen da Bahia, a Petrobras também trabalha na retomada da Fafen de Laranjeiras, em Sergipe, e da Araucária Nitrogenados S.A., a Ansa, no Paraná.
Outra aposta da estatal é a construção da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III, conhecida como UFN-III, em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. A previsão é que a nova planta entre em operação em 2029, ampliando significativamente a capacidade produtiva brasileira.
Segundo Magda Chambriard, a combinação das quatro unidades permitirá que o Brasil produza aproximadamente 35% dos fertilizantes nitrogenados necessários para atender a agricultura nacional. Atualmente, o país depende fortemente das importações para abastecer o setor.
“Com a fábrica de Mato Grosso do Sul, com a fábrica do Paraná, com a fábrica de Sergipe e com a fábrica da Bahia, nós vamos produzir 35% dos fertilizantes nitrogenados que o Brasil precisa”, afirmou a presidente da Petrobras.
Os fertilizantes nitrogenados, especialmente a ureia, são considerados essenciais para a produção agrícola em larga escala. A fabricação desses produtos depende diretamente do gás natural, matéria-prima produzida pela própria Petrobras.
O Brasil é atualmente um dos maiores consumidores de fertilizantes do planeta. Segundo dados apresentados durante a visita presidencial, o país responde por aproximadamente 8% do consumo mundial desses insumos agrícolas e ocupa a quarta posição entre os maiores consumidores globais.
Apesar disso, o Brasil importa entre 85% e 90% dos fertilizantes utilizados no agronegócio nacional, cenário apontado pelo governo federal como uma vulnerabilidade estratégica para a segurança alimentar e econômica do país.
Durante discurso na Bahia, Lula defendeu a necessidade de ampliar a produção nacional para reduzir a dependência externa. Segundo o presidente, o país não pode continuar dependente de fertilizantes importados para sustentar sua produção agrícola.
“O Brasil é um país agrícola. O Brasil é o segundo maior produtor de alimentos. E o Brasil precisa de fertilizante. E o Brasil não pode ser importador de 90% do fertilizante que a nossa agricultura precisa. O Brasil precisa ser dono do seu nariz e produzir os fertilizantes”, declarou.
O presidente comparou a retomada das fábricas de fertilizantes ao processo de recuperação da indústria naval brasileira. Para Lula, o país abandonou setores considerados estratégicos nas últimas décadas ao priorizar importações em vez de fortalecer a produção interna.
Segundo ele, mesmo que produzir no Brasil possa representar custos mais elevados inicialmente, os ganhos em geração de empregos, formação tecnológica e desenvolvimento industrial compensariam os investimentos realizados.
“Produzir aqui poderia ser um pouco mais caro, é verdade. Mas a gente estaria trazendo para cá conhecimento tecnológico, a gente estaria trazendo para cá mão de obra qualificada, a gente estaria trazendo para cá pagamento de salário”, afirmou o presidente.
Lula também aproveitou a visita para criticar privatizações realizadas em governos anteriores, especialmente a venda da BR Distribuidora, antiga subsidiária da Petrobras responsável pela distribuição de combustíveis.
A empresa foi privatizada entre 2019 e 2021 e atualmente opera sob o nome Vibra Distribuidora. Segundo Lula, a venda retirou da Petrobras capacidade de influenciar diretamente os preços dos combustíveis comercializados nos postos.
“Você acha que eu me conformei algum dia com a venda da BR? Por que vender a BR? Ou seja, ao vender a BR, eles tiraram da Petrobras o direito de influir nos preços, na distribuição”, declarou.
O presidente também afirmou desejar que a Petrobras volte futuramente ao setor de distribuição de combustíveis. Segundo Lula, a estatal possui capacidade operacional e financeira para reconstruir uma rede nacional própria de distribuição.
Especialistas do setor avaliam que a retomada das fábricas de fertilizantes pode reduzir parte da vulnerabilidade brasileira diante das oscilações internacionais de preços e de crises geopolíticas que afetam o mercado global de insumos agrícolas.
A guerra entre Rússia e Ucrânia, por exemplo, provocou forte impacto no fornecimento mundial de fertilizantes nos últimos anos, elevando custos para produtores rurais brasileiros e pressionando os preços dos alimentos.
Além da segurança produtiva, o governo federal também aposta na expansão da indústria nacional de fertilizantes como instrumento para impulsionar a economia regional, ampliar empregos industriais e fortalecer a cadeia produtiva ligada ao agronegócio brasileiro.
Foto: SEAUD/PR

