Plataformas de jogos online utilizadas diariamente por milhões de jovens brasileiros passaram a preocupar especialistas em segurança digital por também funcionarem como ambientes de aprendizado para práticas ilegais relacionadas a crimes cibernéticos. Aplicativos e comunidades virtuais como Discord e Roblox, frequentemente associados ao entretenimento e à socialização de adolescentes, podem servir como porta de entrada para golpes virtuais, invasões de contas, fraudes financeiras e esquemas de ocultação de dinheiro obtido ilegalmente.
O alerta é do delegado Sérgio Luiz Oliveira do Santos, pesquisador de cibersegurança do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife. Segundo ele, muitos jovens começam praticando pequenas infrações dentro dos próprios jogos, como trapaças, pirataria e roubo de itens virtuais, e acabam evoluindo para crimes digitais mais sofisticados.
De acordo com o delegado, a dinâmica costuma seguir um padrão semelhante. Inicialmente, o usuário tenta modificar jogos, explorar falhas ou obter vantagens ilegais sobre outros jogadores. Depois, passa a piratear conteúdos, comercializar acessos ilegais e buscar formas de monetizar essas práticas. Em seguida, surgem tentativas de ocultação dos valores obtidos, etapa que pode levar ao envolvimento com fraudes bancárias, golpes via PIX, boletos falsos e operações com criptomoedas.
Dentro dos jogos online existe hoje um mercado altamente lucrativo envolvendo acessórios virtuais, habilidades especiais e itens raros comercializados entre usuários. O analista Bruno Vilela, usuário da plataforma Discord, explica que muitos jogos oferecem elementos cosméticos conhecidos como skins, utilizados para modificar a aparência de armas e personagens. Alguns desses itens alcançam valores elevados no mercado paralelo digital.
Segundo ele, a tentativa de roubo desses objetos virtuais é relativamente comum entre jogadores. Muitos aprendem técnicas básicas de programação ou recorrem à invasão de contas para obter acesso indevido a itens raros e revendê-los posteriormente. O processo, de acordo com especialistas, pode funcionar como etapa inicial de aprendizado para crimes digitais mais elaborados.
O delegado Sérgio Luiz Oliveira do Santos afirma que o perfil predominante dos golpistas virtuais no Brasil é formado por homens jovens, geralmente entre 18 e 30 anos, pertencentes à classe média baixa e com forte familiaridade com o ambiente digital desde a infância. Apesar disso, ele ressalta que a maioria desses criminosos possui conhecimento técnico apenas intermediário ou básico em tecnologia.
Mesmo sem formação especializada, muitos utilizam ferramentas prontas adquiridas em fóruns clandestinos da internet. Entre elas estão kits de phishing, usados para criar mensagens falsas capazes de capturar dados bancários, além de painéis automatizados destinados à aplicação de golpes virtuais. Segundo investigadores, grande parte dos criminosos acaba deixando rastros digitais por erros operacionais, utilização de programas desatualizados ou falhas na ocultação do endereço de IP.
Os sinais da atividade criminosa também costumam aparecer nas redes sociais. De acordo com o delegado, muitos envolvidos passam a ostentar mudanças repentinas no padrão de vida, exibindo carros de luxo, viagens, festas e aquisições incompatíveis com a renda declarada. Fotos, vídeos, localização e marcações feitas nas plataformas digitais frequentemente acabam ajudando investigações policiais.
O mercado brasileiro de jogos online está entre os maiores do mundo. Dados do World Population Review apontam que o Discord registrou 51,6 milhões de contas no Brasil em 2026, número inferior apenas ao dos Estados Unidos. Já a Pesquisa Game Brasil de 2025 revelou que 36,5% dos brasileiros entre 16 e 30 anos jogam online regularmente e, entre eles, 82% consideram os games sua principal forma de entretenimento.
Pesquisadores avaliam que os jogos online deixaram de ser apenas espaços de diversão e passaram a desempenhar papel importante de socialização entre adolescentes e jovens adultos. Por isso, especialistas defendem maior atenção das famílias e do poder público sobre as interações realizadas nesses ambientes virtuais.
A chamada Lei Felca, oficialmente Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, criou regras mais rígidas para proteção de menores na internet, ampliando restrições e mecanismos de controle relacionados a conteúdos digitais e interações online. Ainda assim, especialistas consideram que o acompanhamento familiar continua sendo decisivo para reduzir riscos.
Segundo o delegado pernambucano, muitos pais desconhecem completamente as atividades realizadas pelos filhos dentro das plataformas de jogos e redes associadas. Para ele, a ausência de monitoramento facilita o aliciamento de adolescentes por grupos criminosos virtuais. O investigador ressalta que jovens não se tornam cibercriminosos de forma espontânea, mas acabam sendo gradualmente influenciados em ambientes digitais onde os limites entre trapaça, ilegalidade e crime organizado tornam-se cada vez mais difíceis de distinguir.
Foto: Divulgação Sega of Europe

