Pacientes, profissionais da saúde e representantes de movimentos sociais participaram neste domingo de mobilizações em diferentes cidades brasileiras para ampliar a conscientização sobre a fibromialgia e cobrar do poder público melhores condições de atendimento, diagnóstico e tratamento no Sistema Único de Saúde. Em Brasília, uma das principais atividades ocorreu no Parque da Cidade, onde foram oferecidas sessões de acupuntura, orientações sobre fisioterapia, atendimentos psicológicos, técnicas de liberação miofascial e rodas de conversa voltadas à conscientização sobre a síndrome.
A fibromialgia é uma condição crônica marcada principalmente por dores musculares e articulares difusas em várias regiões do corpo, frequentemente acompanhadas de fadiga intensa, alterações no sono, dificuldades cognitivas e impactos emocionais. Embora a doença não provoque deformações físicas aparentes nem inflamações visíveis em exames laboratoriais, especialistas destacam que ela pode comprometer fortemente a qualidade de vida dos pacientes e limitar atividades pessoais, profissionais e sociais.
Uma das organizadoras da mobilização em Brasília, a servidora pública Ana Dantas afirmou que o objetivo principal do movimento é dar visibilidade à doença e pressionar o Estado pela efetivação dos direitos já garantidos em lei. Segundo ela, a invisibilidade dos sintomas ainda gera preconceito e dificulta o reconhecimento social das limitações enfrentadas pelos pacientes.
Ana Dantas contou que recebeu o diagnóstico há pouco mais de um ano e relatou as dificuldades provocadas pela síndrome no cotidiano. Segundo ela, atividades simples passaram a exigir muito mais tempo e esforço físico, além das constantes dores, do cansaço excessivo e dos problemas de memória e concentração.
Nos últimos anos, pacientes com fibromialgia conquistaram maior reconhecimento institucional no Brasil. Uma lei federal aprovada em 2023 estabeleceu diretrizes para o atendimento dessas pessoas dentro do SUS, prevendo assistência multidisciplinar, incentivo à divulgação de informações sobre a síndrome e capacitação de profissionais da saúde. Apesar do avanço legal, pacientes e especialistas afirmam que o acesso ao diagnóstico especializado e ao tratamento adequado ainda enfrenta obstáculos em grande parte do país.
A legislação também passou a permitir que pessoas com fibromialgia tenham acesso a direitos semelhantes aos garantidos às Pessoas com Deficiência, desde que aprovadas em avaliação biopsicossocial. Entre os benefícios previstos estão auxílio por incapacidade temporária, aposentadoria por invalidez e acesso ao Benefício de Prestação Continuada.
Especialistas explicam que a fibromialgia afeta principalmente mulheres entre 30 e 60 anos, embora possa atingir pessoas de qualquer idade e gênero. As causas exatas ainda não são totalmente conhecidas, mas pesquisas indicam relação com alterações no funcionamento do sistema nervoso central, que passa a amplificar a percepção da dor. Fatores emocionais, predisposição genética, traumas físicos, ansiedade, depressão e estresse prolongado também aparecem associados ao desenvolvimento da síndrome.
Entre os sintomas mais frequentes estão dores persistentes por mais de três meses, rigidez muscular, sensibilidade ao toque, sensação constante de cansaço, sono não reparador e episódios conhecidos como “névoa mental”, caracterizados por dificuldades de memória e atenção. Alguns pacientes também apresentam dores de cabeça frequentes, problemas intestinais e maior sensibilidade a ruídos, luzes e mudanças de temperatura.
O diagnóstico da fibromialgia é clínico e depende da avaliação médica associada à exclusão de outras doenças com sintomas semelhantes. O tratamento costuma envolver combinação de medicamentos, acompanhamento psicológico, fisioterapia, exercícios físicos regulares e mudanças no estilo de vida. Caminhadas, alongamentos e hidroginástica estão entre as atividades mais recomendadas para controle dos sintomas.
A psicóloga Mariana Avelar destacou que o acolhimento emocional é parte essencial do tratamento, principalmente porque muitas pacientes desenvolvem baixa autoestima diante das limitações impostas pela doença. Segundo ela, a chamada psicoeducação ajuda as pessoas a compreenderem melhor a síndrome e desenvolverem estratégias para lidar com os impactos físicos e emocionais provocados pela condição.
A enfermeira Flávia Lacerda também criticou a burocracia enfrentada por pacientes na busca por benefícios sociais e afirmou que muitos profissionais de saúde ainda desconhecem a legislação específica sobre a fibromialgia. Para ela, apesar dos avanços legais conquistados nos últimos anos, ainda existe grande distância entre os direitos previstos na legislação e a realidade enfrentada diariamente pelos pacientes atendidos no sistema público de saúde brasileiro.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

