O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o Brasil adotou postura paciente e equilibrada diante do tarifaço imposto pelos Estados Unidos, diferentemente da reação europeia, que classificou como abrupta. A declaração foi dada em entrevista à revista francesa Le Grand Continent durante visita do ministro a Paris para participar da reunião de ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do G7.
Segundo Durigan, o governo brasileiro evitou retaliar diretamente os Estados Unidos mesmo após a imposição de tarifas adicionais sobre produtos brasileiros. O ministro destacou que o Brasil chegou a enfrentar tarifas totais de 50%, resultado da combinação de um imposto global de 10% com sobretaxas adicionais aplicadas pelo governo norte-americano.
“O Brasil não retaliou os Estados Unidos. Mantivemos nossas posições firmes, rejeitando qualquer tipo de interferência”, afirmou o ministro na entrevista.
Durigan relembrou conversas entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o período de maior tensão comercial. Segundo ele, Lula argumentou que o Brasil possui déficit comercial com os norte-americanos em áreas como tecnologia, serviços e produtos farmacêuticos.
O ministro afirmou que, se o mesmo raciocínio utilizado pelos Estados Unidos fosse aplicado ao comércio bilateral, o Brasil teria motivos para impor tarifas sobre produtos americanos. Apesar disso, o governo brasileiro optou por não adotar medidas consideradas hostis.
Na avaliação de Durigan, a Europa reagiu rapidamente demais às medidas tarifárias americanas, tentando construir acordos imediatos com Washington. Segundo ele, essa postura pode ter agravado o cenário de instabilidade comercial.
O ministro também comentou especulações de que as tarifas impostas pelos Estados Unidos teriam objetivo político relacionado ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Para Durigan, houve tentativa de pressão internacional sobre o governo brasileiro, mas a estratégia não produziu efeitos sobre o funcionamento das instituições nacionais.
“O julgamento contra Bolsonaro prosseguiu mesmo com a imposição das tarifas”, afirmou.
Segundo o ministro, a continuidade do processo reforçou a autonomia do Judiciário brasileiro e transmitiu mensagem importante de previsibilidade jurídica ao mercado internacional. Durigan destacou que empresas globais buscam países com instituições estáveis e segurança jurídica para resolução de disputas.
Durante a entrevista, o ministro também voltou a defender o multilateralismo, tema frequentemente abordado pelo governo Lula em fóruns internacionais. Ele criticou mecanismos unilaterais adotados por diferentes países nos últimos anos e afirmou que o Brasil busca manter relações equilibradas com diversos parceiros internacionais.
Ao comentar as relações comerciais com a China e a Europa, Durigan declarou que o Brasil não pretende permitir que produtos manufaturados estrangeiros dominem o mercado nacional. Segundo ele, o país pretende avançar na industrialização de minerais críticos e agregar valor às exportações brasileiras.
O ministro afirmou que o Brasil busca evitar repetição do modelo histórico baseado apenas na exportação de matérias-primas, como minério de ferro, soja e cana-de-açúcar.
Durigan também avaliou que o Brasil ocupa posição estratégica no atual cenário internacional por investir em energia limpa e biocombustíveis. Segundo ele, as tensões provocadas pela guerra envolvendo o Irã e o risco de fechamento do Estreito de Ormuz aumentam a importância geopolítica dos países produtores de energia alternativa e combustíveis renováveis.
Foto: Washington Costa/MF

