O senador Flávio Bolsonaro afirmou nesta terça-feira que pediu diretamente ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que evitasse a aplicação de tarifas sobre empresas brasileiras. A declaração foi feita durante entrevista concedida à Rádio Itatiaia, em Belo Horizonte, após viagem realizada na semana passada a Washington.
Segundo o parlamentar, o encontro ocorreu na Casa Branca e incluiu discussões sobre relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos. Flávio relatou ter argumentado que a imposição de tarifas prejudicaria empresas brasileiras e afetaria setores estratégicos da economia nacional.
Durante a entrevista, o senador disse ter defendido o potencial do agronegócio brasileiro, da produção de etanol e da tecnologia nacional, incluindo o sistema de pagamentos instantâneos Pix. Ele afirmou que pediu aos norte-americanos que aguardassem um eventual novo governo de direita no Brasil para negociar temas comerciais em condições mais favoráveis para ambos os países.
De acordo com Flávio Bolsonaro, uma possível mudança política em Brasília a partir de 2027 poderia ampliar a cooperação bilateral em diversas áreas econômicas. O senador também ressaltou que o Brasil possui condições de negociar em pé de igualdade com os Estados Unidos devido à relevância de setores como agricultura, energia renovável e tecnologia financeira.
Além das questões comerciais, Flávio revelou que tratou com Trump sobre segurança pública e crime organizado. Segundo ele, um dos pedidos apresentados foi o enquadramento do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Dias após o encontro, o governo norte-americano anunciou a classificação das duas facções nessa categoria.
As declarações ocorreram após a divulgação do relatório final do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que concluiu a investigação comercial aberta contra o Brasil em julho de 2025. O órgão propôs a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros exportados para o mercado norte-americano, embora uma extensa lista de exceções tenha sido incluída na recomendação.
Entre os itens poupados da proposta de taxação estão carne bovina, café, aeronaves, peças aeronáuticas, terras raras, determinados metais, petróleo, fertilizantes e produtos farmacêuticos. A decisão final, contudo, ainda depende de avaliação e aprovação do governo dos Estados Unidos.
O relatório do USTR aponta críticas a práticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, serviços de pagamento, propriedade intelectual, acordos tarifários, combate à corrupção, etanol e desmatamento. Um dos principais focos do documento é o Pix, sistema desenvolvido pelo Banco Central do Brasil.
Segundo o órgão norte-americano, o Banco Central exerceria simultaneamente as funções de regulador e operador do sistema, o que, na avaliação do governo dos Estados Unidos, poderia gerar vantagens competitivas consideradas inadequadas para empresas privadas do setor financeiro. O documento também questiona regras que determinam a adoção obrigatória do Pix por determinadas instituições financeiras.
O governo brasileiro, por sua vez, avalia que não existe risco imediato para o funcionamento do sistema de pagamentos. Integrantes da administração federal interpretam a investigação como uma tentativa de pressionar mudanças na estrutura pública e gratuita do Pix, modelo que tem despertado interesse de diversos países e servido de referência para bancos centrais ao redor do mundo.
O tema também provocou repercussão política interna. Durante evento realizado em Catalão, Goiás, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos e associou a família Bolsonaro à proposta de taxação apresentada pelo USTR. Lula afirmou que medidas desse tipo prejudicariam empresários, trabalhadores e produtores rurais brasileiros.
A investigação comercial norte-americana entra agora em sua fase final. Antes de qualquer decisão definitiva, o governo dos Estados Unidos realizará uma audiência pública em 6 de julho para ouvir representantes dos setores afetados. O prazo legal para eventual adoção das medidas corretivas termina em 15 de julho de 2026, data que poderá marcar um novo capítulo nas relações comerciais entre Brasília e Washington.
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