A condução de duas investigações comerciais pelo governo dos Estados Unidos tem provocado questionamentos em Brasília e reforçado suspeitas de que setores da administração do presidente Donald Trump estejam utilizando instrumentos econômicos para influenciar o cenário político brasileiro. A avaliação ganhou força após o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) divulgar, em curto intervalo de tempo, resultados de dois processos com ritmos de tramitação bastante diferentes, ambos prevendo tarifas sobre produtos brasileiros.

A primeira investigação, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, foi aberta em julho de 2025. O procedimento analisou supostas práticas consideradas prejudiciais aos interesses econômicos norte-americanos. Apesar de ter recebido manifestações de governos, empresas e entidades ainda em 2025, o processo permaneceu sem movimentações relevantes por vários meses.

Os documentos brasileiros foram apresentados entre julho e agosto daquele ano. Uma audiência pública ocorreu em setembro, quando representantes de diversos setores expuseram argumentos técnicos sobre os temas investigados. Após essa etapa, praticamente não houve novos registros oficiais até a divulgação do relatório final, anunciando a proposta de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros.

Integrantes do governo federal e representantes do setor produtivo observaram que parte das conclusões divulgadas recentemente reproduz argumentos já conhecidos desde o início do processo. Por isso, surgiram avaliações de que o relatório ficou engavetado durante meses e foi retomado em um momento politicamente sensível.

Enquanto isso, uma segunda investigação conduzida pelo mesmo USTR avançou de forma muito mais rápida. Iniciado em março deste ano, o procedimento analisou a atuação de 58 países, além da União Europeia e de Hong Kong, no combate ao trabalho forçado e à exploração de trabalhadores.

Mesmo abrangendo um número muito maior de economias e exigindo consultas internacionais complexas, o inquérito foi concluído em poucos meses. O resultado indicou que o Brasil e outras 44 economias poderiam ser alvo de uma tarifa adicional de 12,5% por supostas falhas no enfrentamento ao problema.

Outras 14 economias foram enquadradas em uma categoria considerada intermediária e receberam recomendação de taxação de 10%. O processo contou com aproximadamente 500 contribuições de governos, empresas e entidades privadas, além de uma audiência pública realizada em abril.

A diferença entre os prazos das duas investigações chamou a atenção de autoridades brasileiras. O fato de os resultados terem sido divulgados praticamente em conjunto levou integrantes do governo a questionar se houve motivação política por trás das decisões.

As suspeitas cresceram após manifestações públicas de Donald Trump em favor do senador Flávio Bolsonaro e da aproximação entre integrantes do movimento conservador norte-americano e aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Também repercutiu a indicação do deputado norte-americano Daniel Perez para a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil.

Nos bastidores, diplomatas apontam que figuras influentes da política externa norte-americana, especialmente ligadas ao secretário de Estado Marco Rubio, estariam defendendo uma postura mais ativa em relação ao cenário político brasileiro.

O relatório referente à investigação da Seção 301 menciona diversos temas para justificar as medidas propostas. Entre eles aparecem o sistema de pagamentos Pix, políticas relacionadas ao mercado de etanol, questões envolvendo propriedade intelectual, acordos comerciais firmados pelo Brasil e até indicadores ambientais.

O governo brasileiro reagiu de forma contundente. Em nota oficial, classificou as propostas como injustificáveis e afirmou que interesses eleitorais estariam prejudicando o diálogo bilateral construído ao longo dos últimos meses.

No caso da investigação sobre trabalho forçado, o Brasil apresentou defesa formal por meio do Ministério das Relações Exteriores. O chanceler Mauro Vieira enviou documento detalhando medidas legais, administrativas e de fiscalização adotadas para combater práticas análogas à escravidão.

O governo destacou ainda a participação brasileira em tratados internacionais sobre direitos trabalhistas e lembrou instrumentos como a chamada “lista suja” do trabalho escravo e as operações de fiscalização realizadas por grupos especializados do Ministério do Trabalho.

Apesar dos argumentos apresentados, o USTR manteve a conclusão de que o Brasil estaria entre os países sujeitos à aplicação de novas tarifas. O episódio ampliou as tensões diplomáticas entre Brasília e Washington e adicionou um componente político relevante ao debate sobre comércio internacional e eleições no Brasil.

Com a possibilidade de novas taxações afetando exportações brasileiras, o tema deve continuar ocupando espaço central nas relações entre os dois países nos próximos meses, enquanto autoridades, empresários e diplomatas acompanham os desdobramentos das decisões anunciadas pelo governo norte-americano.

Foto: Ricardo Stuckert/PR


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