O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil não aceita interferências externas em seus assuntos internos e reagiu às declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a situação política brasileira. Durante entrevista coletiva concedida na embaixada do Brasil em Genebra, Lula declarou que as eleições brasileiras dizem respeito exclusivamente ao povo brasileiro e pediu que o líder norte-americano não se envolva no processo político nacional.
Segundo o presidente, o relacionamento entre os dois países deve ocorrer com base no respeito mútuo e na igualdade entre as nações. Lula afirmou esperar que Trump respeite os princípios diplomáticos que regem as relações internacionais e destacou que cada país deve cuidar de suas próprias eleições. Ao comentar o comportamento do presidente americano, disse considerar inadequadas algumas de suas manifestações sobre o Brasil, embora tenha ressaltado que não existe rompimento nas relações entre os dois governos.
Lula explicou que não solicitou uma reunião bilateral específica com Trump porque ainda estão em andamento negociações entre representantes dos dois países sobre questões comerciais e econômicas. Ele citou conversas conduzidas pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e por integrantes da área econômica brasileira com autoridades americanas para discutir o aumento de tarifas e outros temas da agenda bilateral.
Durante a cúpula internacional, Lula informou ter entregue pessoalmente a Trump quatro documentos contendo propostas e informações sobre combate ao crime organizado, minerais estratégicos, comércio bilateral e o acordo negociado em dois mil e dez entre Brasil, Turquia e Irã sobre o programa nuclear iraniano. Segundo o presidente, a entrega por escrito foi uma forma de garantir que os temas apresentados fossem devidamente considerados.
Ao abordar a segurança pública, Lula criticou a decisão do governo americano de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Na avaliação do presidente, grupos como o PCC e o Comando Vermelho praticam crimes graves e causam danos à sociedade, mas possuem características distintas das organizações terroristas tradicionais. Ele também defendeu uma cooperação internacional mais intensa para combater o tráfico de armas e a lavagem de dinheiro.
Questionado sobre declarações de Trump envolvendo integrantes da família Bolsonaro, Lula afirmou que o presidente americano demonstra conhecimento limitado sobre a política brasileira e que sua visão do país estaria fortemente vinculada à relação mantida com o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus familiares. O petista aproveitou para elogiar o sistema eleitoral brasileiro, destacando a rapidez da apuração dos votos e a confiabilidade das urnas eletrônicas.
Apesar das críticas, Lula afirmou que respeita o direito de Trump manter proximidade política com quem desejar. O presidente também voltou a defender uma relação equilibrada entre Estados Unidos e China, rejeitando a ideia de uma nova Guerra Fria e sustentando que o Brasil deve preservar sua autonomia. Segundo ele, o país busca ampliar relações comerciais com diferentes parceiros, sem alinhamentos automáticos, priorizando seus interesses econômicos e estratégicos no cenário internacional.
Foto: Ricardo Stuckert / PR

