O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, saiu em defesa da deputada federal Erika Hilton em meio à crise interna que envolve a distribuição do fundo eleitoral do PSOL para as eleições deste ano. A manifestação ocorreu poucos dias após a parlamentar tornar públicas críticas à direção nacional da legenda, acusando o partido de descumprir acordos firmados durante as negociações sobre os critérios de financiamento das campanhas. O episódio intensificou as divergências entre diferentes correntes internas e abriu um novo capítulo nas disputas políticas que antecedem a definição oficial da divisão dos recursos eleitorais.

A Executiva Nacional do PSOL deverá se reunir em 18 de julho para deliberar definitivamente sobre a distribuição do fundo eleitoral. Até lá, as discussões seguem mobilizando dirigentes, parlamentares e lideranças regionais. Embora tenha afirmado que não acompanha detalhadamente as negocuições internas, Boulos declarou à CNN Brasil que considera legítima a cobrança feita por Erika Hilton e afirmou que a deputada “tem muita razão” ao defender que uma candidatura com grande capacidade de atrair votos receba tratamento diferenciado.

Segundo o ministro, candidaturas consideradas puxadoras de votos exercem papel estratégico para o desempenho eleitoral do partido e, por isso, devem ser valorizadas durante a distribuição dos recursos públicos destinados às campanhas. Boulos também ressaltou que o respeito aos compromissos assumidos internamente é indispensável para preservar a confiança entre dirigentes e filiados.

Ao comentar o impasse, o ministro afirmou que existe um princípio básico tanto na política quanto na vida pública: acordos devem ser cumpridos. Para ele, a credibilidade de qualquer organização depende do respeito à palavra empenhada e da manutenção dos compromissos estabelecidos. Na avaliação de Boulos, quando acordos deixam de ser respeitados, surgem desgastes internos capazes de comprometer a unidade partidária e prejudicar a construção de consensos.

As declarações foram feitas depois de Erika Hilton divulgar uma longa manifestação em que criticou os critérios utilizados pela direção nacional para definir os valores destinados às campanhas. A deputada afirmou que o partido estaria inviabilizando sua candidatura à reeleição para a Câmara dos Deputados ao deixar de cumprir o compromisso de colocá-la na faixa destinada aos principais puxadores de votos da legenda.

Segundo Erika, sua campanha possui características específicas que exigem investimentos superiores aos destinados à maioria das candidaturas proporcionais. A parlamentar argumenta que precisa percorrer todo o estado de São Paulo, organizar uma ampla estrutura logística e manter um esquema permanente de segurança em razão das ameaças que afirma sofrer por exercer um mandato de grande visibilidade nacional.

A deputada também destacou que ela e integrantes de seu grupo político enfrentam riscos permanentes e que essa realidade não poderia ser ignorada pela direção partidária durante a definição dos critérios de financiamento eleitoral. Na avaliação de Erika Hilton, reduzir os recursos destinados à campanha comprometeria não apenas sua reeleição, mas também o desempenho eleitoral do PSOL em São Paulo.

Em resposta às críticas, a direção nacional do partido afirmou que a parlamentar receberá R$ 2,3 milhões do fundo eleitoral, valor superior aos R$ 2,2 milhões previstos para outros deputados federais que disputarão a reeleição. De acordo com a legenda, o montante representa um aumento de aproximadamente 61,5% em relação aos recursos recebidos por Erika Hilton durante as eleições de 2022, demonstrando que houve tratamento diferenciado em reconhecimento ao seu peso político.

Dirigentes do PSOL sustentam que nenhuma candidatura proporcional recebeu tratamento privilegiado na eleição anterior e lembram que, em 2022, nem mesmo Guilherme Boulos, considerado o principal puxador de votos da legenda naquele pleito, recebeu valor superior ao destinado aos parlamentares que buscavam a reeleição. Para a direção, a proposta atual mantém critérios semelhantes aos adotados anteriormente.

Erika Hilton, entretanto, afirma que decidiu permanecer no PSOL após intensas negociações realizadas no primeiro semestre deste ano. Segundo ela, quando seu grupo político, Revolução Solidária, optou por permanecer na legenda, foi assegurado que sua candidatura integraria a faixa destinada aos principais puxadores de votos, recebendo investimento substancialmente superior ao previsto para os demais candidatos à Câmara.

A parlamentar afirma que tomou essa decisão mesmo defendendo a formação de uma federação entre PSOL, PT, PCdoB e PV, proposta que acabou rejeitada pela maioria da direção nacional. Erika sustenta que permaneceu no partido acreditando na palavra das lideranças nacionais e que o compromisso assumido deveria ser integralmente respeitado.

Nos bastidores, integrantes de uma ala oposta à da deputada interpretam a manifestação pública como uma estratégia para pressionar a direção nacional a ampliar o valor destinado à campanha. Além disso, alguns dirigentes avaliam que as críticas também poderiam favorecer candidaturas apoiadas pelo grupo político de Erika Hilton e preparar o terreno para uma eventual saída da corrente Revolução Solidária após as eleições.

Aliados da deputada rejeitam essa interpretação. Segundo pessoas próximas à parlamentar, Erika não precisaria construir qualquer narrativa para deixar o partido caso essa fosse sua intenção. Eles lembram que, após a derrota da proposta de federação com PT, PCdoB e PV, a própria Revolução Solidária divulgou documento criticando a decisão da direção nacional e afirmando que o PSOL havia optado por um caminho de isolamento político, deixando em aberto os próximos passos do grupo.

A ala que apoia Erika Hilton argumenta que a discussão sobre os recursos ocorre em um momento de forte tensão interna dentro do PSOL. Segundo aliados da deputada, o ambiente político criado após as divergências sobre a formação de uma federação partidária teria influenciado diretamente a definição dos investimentos eleitorais. Para esse grupo, existe preocupação de que pré-candidatos identificados como possíveis dissidentes passem a receber menos recursos, mesmo quando apresentam elevado potencial eleitoral e capacidade comprovada de ampliar a votação da legenda.

Outro argumento apresentado pelos apoiadores da parlamentar é que a discussão também envolve questões relacionadas à representação de mulheres, pessoas negras, integrantes da comunidade LGBTQIA+ e outros grupos historicamente sub-representados na política brasileira. Na avaliação desse segmento, a distribuição dos recursos deve considerar não apenas o desempenho eleitoral esperado, mas também as dificuldades enfrentadas por essas candidaturas durante as campanhas, incluindo custos adicionais com segurança e deslocamentos.

Os aliados de Erika afirmam ainda que a recente decisão do Supremo Tribunal Federal validando a emenda que anistiou partidos por descumprimento de cotas eleitorais destinadas a minorias tornou o debate ainda mais sensível. Para eles, a decisão reforçou a necessidade de os partidos demonstrarem, na prática, compromisso com políticas internas de inclusão e fortalecimento das candidaturas representativas.

Em sua manifestação pública, Erika Hilton também questionou diretamente os critérios utilizados pela direção nacional ao comparar sua situação com a de outros pré-candidatos. A deputada afirmou que nomes com menos tempo de atuação na legenda ou mesmo recém-chegados ao partido estariam previstos para receber valores superiores aos destinados à sua campanha, apesar de ela exercer mandato federal, possuir elevada votação e desempenhar papel importante na estratégia eleitoral da sigla em São Paulo.

Entre os exemplos citados por Erika estão o presidente da Federação PSOL-Rede, Juliano Medeiros, pré-candidato à Câmara dos Deputados por São Paulo, e a ex-deputada federal Manuela d’Ávila, que recentemente passou a integrar o partido e disputará uma vaga no Senado pelo Rio Grande do Sul. Segundo a parlamentar, essas diferenças demonstrariam tratamento desigual na distribuição dos recursos.

A direção do PSOL respondeu afirmando que as comparações não consideram as características específicas de cada disputa eleitoral. No caso de Manuela d’Ávila, a legenda argumenta que sua candidatura ao Senado é majoritária e, por isso, segue critérios diferentes daqueles aplicados às campanhas proporcionais para a Câmara dos Deputados. Além disso, dirigentes sustentam que a campanha da ex-deputada possui potencial para impulsionar a eleição de candidatos proporcionais no Rio Grande do Sul.

Segundo o partido, Manuela deverá receber aproximadamente R$ 5 milhões, valor correspondente ao teto previsto para candidaturas ao Senado. Já Juliano Medeiros e Natalia Boulos deverão receber cerca de R$ 2 milhões cada para disputar vagas na Câmara dos Deputados. A legenda afirma que os critérios utilizados permanecem compatíveis com as regras internas aprovadas pelos órgãos partidários.

Erika Hilton também mencionou a situação da deputada estadual Luiza Erundina para sustentar sua crítica. De acordo com a parlamentar, Erundina receberia recursos superiores aos destinados à maioria das candidaturas estaduais. O PSOL respondeu que a ex-prefeita de São Paulo é considerada uma importante puxadora de votos e, embora vá disputar cargo diferente daquele inicialmente cogitado, continuará recebendo tratamento diferenciado em razão de sua relevância eleitoral e de sua trajetória política.

Outro ponto levantado por Erika foi a dificuldade de acesso às informações completas sobre os critérios utilizados pela Executiva Nacional. Segundo ela, uma planilha apresentada durante as discussões internas não teria sido disponibilizada integralmente aos interessados, impossibilitando a conferência detalhada dos valores previstos para cada candidatura. A parlamentar afirma que essa falta de transparência contribuiu para ampliar a insatisfação existente dentro da legenda.

Durante sua manifestação, Erika também citou os deputados estaduais Renata Souza, do Rio de Janeiro, e Carlos Giannazi, de São Paulo, além do vereador carioca Rick Azevedo, como exemplos de lideranças que igualmente estariam demonstrando desconforto com a condução do processo de distribuição dos recursos eleitorais. Segundo ela, as reclamações revelam que a discussão ultrapassa interesses individuais e alcança diferentes setores do partido.

Por sua vez, Juliano Medeiros declarou que considera inadequado transformar divergências internas em debates públicos por meio das redes sociais. O presidente da Federação PSOL-Rede afirmou que o diálogo entre dirigentes e parlamentares deve ocorrer dentro das instâncias partidárias e defendeu a manutenção dos critérios atualmente adotados para o repasse do fundo eleitoral.

Medeiros ressaltou ainda que o PSOL mantém como política permanente a destinação de parcela significativa dos recursos para candidaturas de mulheres, pessoas negras, indígenas, pessoas com deficiência e integrantes da comunidade LGBTQIA+. Segundo ele, essa orientação continuará sendo observada nas eleições deste ano e representa um compromisso histórico da legenda com a ampliação da diversidade na representação política.

Enquanto a reunião da Executiva Nacional não ocorre, dirigentes e parlamentares seguem buscando entendimento para evitar que o impasse provoque novos desgastes internos durante a campanha eleitoral. A expectativa é que a definição definitiva sobre os valores destinados a cada candidatura ocorra antes do início oficial da campanha, reduzindo as incertezas e permitindo que o partido concentre esforços na disputa eleitoral em todo o país. A controvérsia, entretanto, evidencia os desafios enfrentados pelo PSOL para conciliar critérios técnicos de distribuição de recursos, compromissos políticos firmados entre suas correntes internas e as diferentes expectativas apresentadas por suas principais lideranças nacionais.

Foto: Divulgação/ SGP


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