A maioria dos brasileiros não acredita que países estrangeiros tenham possibilidade de interferir nas eleições presidenciais de 2026. Pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (28) mostra que 51% dos entrevistados descartam essa hipótese, enquanto 41% avaliam que a interferência pode ocorrer. Os números retratam a percepção dos eleitores sobre o tema, sem medir a existência de ações concretas de governos de outros países no processo eleitoral brasileiro.
O resultado indica redução da parcela que considera possível uma interferência externa. No levantamento anterior, divulgado em 14 de agosto, esse grupo representava 45% dos entrevistados. A diferença de quatro pontos percentuais entre as duas rodadas mostra uma mudança na resposta dos eleitores, mas não permite afirmar quais acontecimentos determinaram a variação. A margem de erro informada pela pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
A Quaest também perguntou sobre o receio de influência dos Estados Unidos após a eleição. Para 42% dos entrevistados, não há nenhum medo de que o país passe a mandar no Brasil. Outros 39% disseram sentir muito medo, e 16% afirmaram ter algum medo dessa possibilidade. A distribuição das respostas revela opiniões divididas: a ausência de temor é a alternativa individual mais citada, mas a soma daqueles que manifestam algum grau de preocupação chega a 55%.
Quando a pergunta se refere à China, 42% afirmam ter muito medo de que Pequim passe a mandar no Brasil depois do pleito. A parcela que declara não ter nenhum medo é de 39%, enquanto 17% relatam algum medo. Nesse caso, os entrevistados que expressam algum grau de temor somam 59%. As perguntas tratam de uma hipótese apresentada aos participantes e não estabelecem que Estados Unidos ou China tenham planos de controlar decisões do governo brasileiro.
Encomendada pela TV Globo e pelo jornal O Globo, a pesquisa ouviu 2.004 eleitores entre 24 e 27 de setembro. O nível de confiança informado é de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-06520/2026. Como em qualquer pesquisa de opinião, os percentuais descrevem as respostas recolhidas no período das entrevistas e estão sujeitos à margem de erro declarada pelo instituto.
O debate sobre soberania ganhou espaço na campanha em meio às tensões comerciais e diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. O governo americano impôs tarifas sobre produtos brasileiros, e declarações de Donald Trump sobre o combate ao crime organizado provocaram reações em Brasília. Trump afirmou que o Brasil falhou no enfrentamento das facções e cobrou providências mais enérgicas. Integrantes do governo brasileiro, por sua vez, têm defendido a cooperação internacional sem abrir mão de decisões próprias sobre segurança e economia.
Outro ponto de atrito envolve a atuação de Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, nos Estados Unidos. Desde a pré-campanha, aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticam os esforços do ex-deputado para obter sanções externas contra autoridades brasileiras. Eduardo e seus aliados afirmam que procuram denunciar o que consideram violações dos direitos de opositores políticos. O governo e seus apoiadores interpretam essa atuação como uma tentativa de trazer pressão estrangeira para disputas internas.
Também houve divergências em torno do Pix. Lula declarou, durante discurso na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, que não cederia a pressões de multinacionais interessadas em privatizar o sistema brasileiro de pagamentos. O presidente descreveu o Pix como uma infraestrutura pública e gratuita e associou sua manutenção à inclusão financeira. A declaração integrou uma defesa mais ampla da capacidade do país de definir suas próprias políticas econômicas.
Na mesma fala, Lula afirmou que o Brasil não cabe no quintal de ninguém e defendeu relações com parceiros dispostos a contribuir para o desenvolvimento. Sem citar Trump naquele trecho, disse que a proximidade da América Latina com a maior potência militar do mundo é inevitável, mas não deve impedir a integração entre os países da região. O presidente também mencionou o histórico de regimes de exceção no continente ao alertar para o risco de ingerência externa em processos eleitorais.
Lula abordou ainda a exploração de minerais críticos e terras raras. Segundo o presidente, o acesso de outros países a esses recursos deverá trazer como contrapartida geração de valor no território brasileiro, transferência de tecnologia e fornecimento a setores considerados estratégicos. A posição conecta a discussão sobre soberania à forma como o Brasil pretende negociar suas riquezas naturais em um cenário de crescente demanda internacional por matérias-primas usadas na transição energética.
Ao tratar da segurança pública, o presidente rejeitou a ideia de que o Brasil precise de presença militar estrangeira para combater organizações criminosas. Disse que o país deve assumir a responsabilidade pela proteção de suas fronteiras e da população, ao mesmo tempo que busca cooperação para interromper os fluxos de armas e dinheiro que sustentam as facções. Sua fala respondeu ao aumento da pressão americana sobre o tema e procurou distinguir cooperação entre governos de ingerência sobre decisões nacionais.
Do lado da oposição, Flávio Bolsonaro tem buscado associar Lula a governos autoritários e criticar a política de segurança pública da atual administração. O candidato promete endurecer a legislação e ampliar o enfrentamento das facções. O choque de discursos coloca as relações internacionais, o combate ao crime e a autonomia do país entre os assuntos disputados pelas campanhas na reta final da eleição.
Os dados da Quaest mostram, porém, que a retórica política não produz uma leitura uniforme entre os eleitores. Há uma maioria que não vê espaço para interferência estrangeira nas urnas, mas uma parcela expressiva considera essa possibilidade real. As respostas sobre Estados Unidos e China também variam, com diferentes níveis de medo diante da hipótese de influência depois da votação. A pesquisa registra essas percepções em um momento específico da campanha, sem apontar intenção de voto a partir delas nem demonstrar relação causal entre os discursos dos candidatos e as opiniões colhidas.
Foto: Michael M. Santiago

