Angela Carrato – Jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG

O governo Lula completa 22 dias neste domingo. Mudanças positivas e necessárias estão acontecendo em todas as áreas – novo piso salarial para professores, estudos para a recomposição do salário mínimo, reunião com centrais sindicais, reitores de universidades federais e petroleiros, anúncio de que o objetivo na área econômica é o de zerar o déficit em dois anos e retomar a relação entre despesas e receitas ao nível pré-pandemia, de 18,7% do PIB, entre tantas outras coisas.

Mas a mídia corporativa brasileira parece interessada em cobrir apenas o que diz respeito às prisões dos acusados por atos terroristas, como se o governo estivesse inerte e cuidando apenas disso.

Com o retorno da transparência ao governo federal, esta mídia cumpriria uma importante função se mostrasse para a população brasileira a real dimensão dos desmandos e da corrupção de Bolsonaro e sua gangue nos últimos quatro anos.

Como se não bastassem o golpismo e os atos terroristas que culminaram no 8 de janeiro, deixando a mostra o fascismo que caracteriza Bolsonaro e a conivência de parcela das forças armadas com eles, o capitão reformado deixou um rombo de R$ 16,71 trilhões nas costas da população brasileira.

Este valor, calculado por especialistas, inclui, por exemplo, pagamentos eleitoreiros do Auxílio Brasil; privatizações, a maioria irregular e ao arrepio da lei no valor de R$ 304,2 bilhões; gastos de R$ 75 milhões no cartão corporativo; e rombo de US$ 65,8 bilhões nas reservas cambiais.
Onde foi parar esta dinheirama? A mídia corporativa não noticiou praticamente nada sobre isso e nem parece interessada em investigar.

Essa mídia igualmente fingiu que não viu uma revelação importantíssima do Portal da Transparência. Para quem achava um absurdo oito mil militares ocuparem cargos civis no governo federal durante o período Bolsonaro, o número real é de 20 mil.

Em termos de agenda externa, Lula faz sua primeira viagem internacional para a Argentina na próxima terça-feira, onde participa da VII reunião de cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos. Em pauta: estratégias e ações para a integração na região. Assunto mais importante, impossível. Mas a mídia corporativa brasileira insiste em ignorar que somos parte da América Latina e mantem seus olhos voltados apenas para os Estados Unidos e a Europa.

Mesmo ainda despachando de forma precária no Palácio do Planalto e morando em hotel, porque o casal Bolsonaro deixou o Palácio da Alvorada sem condições para ser habitado, Lula, que trabalha de 12 a 14 horas por dia, encontrou tempo para dar sua primeira entrevista exclusiva, atendendo a um pedido da GloboNews.

Em outro contexto, era para esta entrevista possuir a relevância que uma fala do presidente da República sempre tem. Acabou sendo usada, no entanto, como uma espécie de “apito de cachorro” para a mídia corporativa partir para o ataque contra a pauta econômica do governo Lula.

Não me incluo entre as pessoas que acham que Lula não deveria der dado entrevista para uma emissora do grupo Globo. Em que pese seus proprietários, os irmãos Marinho, estarem entre os golpistas de primeira hora contra a presidenta Dilma Rousseff, o PT e o próprio Lula, acredito que ele aceitou por considerar uma boa oportunidade para se dirigir ao público de classe média e média alta, ainda bastante contaminado pelo discurso bolsonarista/golpista.

Da parte da família Marinho, o interesse não era dar visibilidade a Lula. Tanto que a entrevista foi exibida em seu canal pago e não no canal aberto, na TV Globo, cuja audiência é imensamente maior.

O objetivo desta entrevista foi tentar reunir uma espécie de principais pontos da agenda econômica de Lula, com os quais os “barões da mídia” não concordam, para dar início ao chamado “jornalismo de guerra” contra o governo.

Para os telespectadores atentos, não deve ter passado despercebido como a entrevistadora da GloboNews seguiu um roteiro rígido. Mesmo Lula dispondo-se a conversar por mais tempo (que jornalista dispensaria uma oportunidade dessas?) encerrou a entrevista exatamente quando ele procurava se aprofundar nas questões econômicas, depois de defender juros mais baixos ou até zerados, criticar a autonomia do Banco Central e o “teto de gastos” para os investimentos sociais. Assuntos que são considerados tabus pela classe dominante brasileira.

O que se seguiu a essa entrevista foi uma absurda e injustificada sucessão de ataques ao governo e ao próprio Lula.

Na quinta-feira, o jornal Folha de S. Paulo, estampou na capa, ao lado da manchete sobre presença militar no Planalto, uma fotomontagem em Lula aparece com um estilhaço de vidro na altura do coração. Uma sugestão para que fosse alvo de um tiro?

As reações foram imediatas, com a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) considerando a fotomontagem “um atentado ao jornalismo”. A fotógrafa tentou argumentar que aquilo não era bem aquilo e a direção do jornal não falou nada, porque não havia o que falar. Nada sai publicado na capa de um jornal sem que o dono tenha conhecimento e esteja de pleno acordo.

Na sexta-feira foi a vez dos três “jornalões” desta velha mídia – O Globo, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo – em uníssono publicarem editoriais em que criticam duramente as propostas econômicas de Lula, sem apresentarem quaisquer evidências de que o presidente esteja errado ou que no passado tenha adotado medidas econômicas inadequadas. Basta lembrar que a economia bombou nos governos Lula e ele concluiu o segundo mandato com 87% de aprovação popular, um recorde mundial.

Ataques à parte, o que estes velhos jornais não conseguem esconder é a serviço do que estão e o que pretendem em relação ao governo Lula. Controlados pela sexta família mais rica do Brasil, no caso do Globo – e por banqueiros, em se tratado da Folha e do Estado de S. Paulo – estas publicações verbalizam os interesses daquele 1% da população, os chamados super-ricos.

A diferença desses senhores para com Bolsonaro é apenas de forma, jamais de conteúdo.
O que pretendem é tentar impor ao governo Lula a pauta neoliberal que tanto lhes convém e que tanto infelicitou a vida da maioria da população brasileira nestes últimos seis anos.

Alguém pode objetar que esses senhores dizem defender a democracia e condenaram a tentativa de golpe de 8 de janeiro. Verdade! Só que a dita democracia que defendem não inclui os interesses da maioria dos brasileiros.

O caso do rombo de R$ 20 bilhões nas Lojas Americanas é um bom exemplo.

Se Bolsonaro tivesse sido reeleito, possivelmente esse rombo não teria vindo a público, uma vez que os três principais acionistas da empresa – João Paulo Lemman, Marcel Telles, Carlos Alberto Sicupira – são pessoas diretamente ligadas ao golpe contra Dilma Rousseff. Mais ainda: os três são sócios da 3G Radar, que se tornou o principal acionista da Eletrobras, após a privatização.

A mídia corporativa foge desse assunto como o diabo da cruz, mas os blogs e a mídia independente têm mostrado que a mesma empresa de auditoria que atestou que o balanço das Americanas estava correto é a que cometeu uma série de irregularidades em se tratando do processo de avaliação e da privatização de refinarias da Petrobras e da própria Eletrobras.

Tem muito caroço embaixo deste angu.

Talvez esse seja o real motivo pelo qual a mídia corporativa tenha decidido abrir guerra contra Lula.
Guerra que, no fundo, deixa nítido como ela entrou no modo desespero.

P.S. Complica-se a cada dia a situação de Bolsonaro e ele deve ficar inelegível por oito anos. De olho neste espólio, o minúsculo governador de Minas Gerais, Romeu Zema, tentou arrebanhar o “gado”, lançando uma fake news bem ao estilo do ex-chefe. Sem qualquer prova ou indício, levantou a suspeita de que Lula poderia ter sido conivente com os atos terroristas do dia 8 em Brasília. Por isso, foi interpelado no STJ pelo PT mineiro. O caso será julgado no início de fevereiro. Zema, que não tem proposta de governo, a não ser privatizar tudo, poderia dar um tempo nas fake news, que constituem crime, e tratar de pagar o novo piso salarial para os professores mineiros.