Ângela Carrato – Jornalista. Professora da UFMG. Integra o Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)

 

Quando o economista Roberto Campos morreu, em 2001, aos 84 anos, recebeu, por parte da mídia corporativa brasileira as maiores homenagens. Não faltaram extensas notícias e reportagens nos jornais, rádios e emissoras de TV exaltando seu trabalho e “a importância” que teve para o país.

A essas vozes se juntou a do presidente tucano Fernando Henrique Cardoso, então no penúltimo ano do seu segundo mandato. Os elogios de FHC a Campos faziam sentido. Ele tinha sido o primeiro presidente a colocar em prática todas as recomendações de Campos: privatizar e reduzir o tamanho do Estado. FHC, como se sabe, privatizou mais de 100 empresas estatais brasileiras e vendeu a preço de banana a Companhia Vale do Rio Doce, que valia R$ 100 bilhões e foi arrematada por pouco mais de R$ 3 bilhões.

Campos e FHC se tornaram os queridinhos da mídia, porque foram fundamentais para tornar mais ricos os já muito ricos e por piorar ainda mais as condições de vida da maioria da população brasileira.

No último sábado (8/6) faleceu, aos 94 anos, a também economista Maria da Conceição Tavares. Mesmo tendo sido uma professora, deputada federal e intelectual brilhante, a mídia corporativa lhe dedicou apenas um obituário formal. Nada de destaque ao seu extenso currículo, aos seus inúmeros livros e artigos e, menos ainda, às ideias defendidas por ela. Ideias que eram opostas às de Campos.

Nascida em Portugal, Maria da Conceição foi uma das cabeças de maior influência sobre o pensamento econômico brasileiro desde meados dos anos 1960, em especial o heterodoxo. Ela atuou no Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek e rapidamente se aproximou do pensamento de três outros grandes economistas brasileiros: Celso Furtado, Caio Prado Jr e Ignácio Rangel. Esse último a despertou para as questões relacionadas ao capital financeiro.

Foram os estudos, que integram seu livro Auge e Declínio do Processo da Substituição de Importações no Brasil – Da substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro, de 1972, que mostraram que, ao contrário do afirmado por Celso Furtado em 1960, era possível atingir elevado crescimento econômico, como demonstrara o dito Milagre Econômico Brasileiro, embora com aumento ainda maior da concentração de renda.

O livro foi escrito no final dos anos 1960, quando chefiava o escritório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) no Brasil e atingiu em cheio a visão difundida pela ditadura brasileira, de que o país estava crescendo e que todos iriam se beneficiar.  Conceição mostrou que não era verdade e só não foi atingida pelo famigerado AI-5, porque em outubro de 1968 foi designada para o escritório da Cepal no Chile. Além do Chile, ela trabalhou também no México, tendo regressado ao Brasil em meados dos anos 1970.

Nos anos 1980, Maria da Conceição já era um dos principais nomes da assessoria econômica do PMDB, o partido de oposição, e lecionava no Instituto de Economia da Unicamp, onde ajudara a implantar os cursos de mestrado e doutorado do departamento. E se desde antes, ela já se colocava em franca oposição ao pensamento econômico dominante, que tinha em Roberto Campos um dos seus principais defensores, a partir de então passou a ser identificada como uma de suas principais opositoras.

A título de exemplo, enquanto o todo poderoso ministro da Fazenda da ditadura militar, Antônio Delfim Netto, afirmava que “primeiro era preciso crescer o bolo para depois dividir”, ela mostrava como essa visão não só estava errada, como interessava a uns poucos e ainda indicava quem eram esses poucos.  Foi ela quem mostrou como os governos ditatoriais de 1964 a 1985 concentraram de forma absurda a renda.  Uma das razões do fim da ditadura, para tristeza de seus defensores, foi exatamente a crise econômica em que o país se viu mergulhado.

Quando foi deputada federal pelo Rio de Janeiro, entre 1995 e 1998 pelo PT, colecionou discussões com Roberto Campos. Em uma dessas discussões sobre o fim do monopólio do petróleo, em 1997, Campos atacou: “a senhora é um dinossauro”, e ela rebateu de imediato: “mas sou informada, e o senhor parece uma lagartixa”.

Maria da Conceição não perdia oportunidade para deixar a nu quais eram os verdadeiros propósitos dos economistas “ortodoxos” que defendiam o mercado e os interesses dos Estados Unidos acima de tudo: impedir o desenvolvimento do Brasil e mantê-lo atrelado aos interesses das empresas do Tio Sam.

Claro que nesses embates, a mídia corporativa procurava sempre desgastar a posição assumida pelos economistas heterodoxos, a ponto de passar a não ouvi-los mais.  Conceição nunca se abalou por isso. Além dos seus livros e textos, ela aproveitava cada espaço para ensinar e demolir bobagens, burrices e entreguismo alheio.

Em 1995, ao dar entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura – quando a emissora ainda guardava independência do Governo de São Paulo – ela deixou claras as consequências de uma tecnocracia afastada das preocupações sociais. “Uma economia que não se preocupa com justiça social é uma economia que condena os povos a isso que está acontecendo no mundo: uma brutal concentração de renda e riqueza, o desemprego e a miséria. Uma economia que diz que primeiro tem que estabilizar, depois crescer, depois distribuir é uma falácia. Não estabiliza, cresce aos solavancos e não distribui. E essa é a história da economia brasileira”.

Por ter colocado o dedo na ferida e mostrado, ao longo dos anos seguintes, como o programa econômico dos governos Lula acertava, Maria da Conceição foi colocada no index dos economistas que não deveriam ser ouvidos pela mídia brasileira. Em seu lugar, era entrevistada apenas a mesma turminha que ela chamava, com razão de “Chicago Boys”, pioneiros do pensamento neoliberal e ardorosos defensores das ideias de Milton Friedman e de Friedrich Hayek.

Com o golpe que derrubou a presidente Dilma Rousseff em 2016, os “chicago boys” chegaram ao poder com a indicação de Paulo Guedes para ministro da Economia de Jair Bolsonaro. Não por acaso, Bolsonaro declarou desconhecer economia e deixou todas as ações nesse campo para seu auxiliar. Foi o que bastou para a mídia corporativa brasileira ir ao delírio.

O leitor ou leitora já observou que essa mídia nunca formulou uma única crítica, por mais leve que seja, a Paulo Guedes? Mais ainda, se dependesse dela, Guedes seria o ministro da Economia de Lula. Bem que ela tentou. Como não conseguiu, não dá  trégua ao ministro da Fazenda, Fernado Haddad, e menos ainda, ao próprio governo Lula.

Ao contrário dos seus dois primeiros governos, Lula tem agora muito mais dificuldades e problemas para enfrentar. O estrago que os golpistas fizeram nos seis anos em que estiveram no poder foi enorme e deixaram muitas amarras. Uma das principais é a transformação do Banco Central em “independente”. Apesar da palavra simpática, essa independência significa, na prática, dependência do mercado. Foi Bolsonaro quem nomeou o atual presidente do Banco Central, ninguém menos do que o neto de Roberto Campos, um neoliberal que tem feito de tudo para manter os juros nas alturas. Vale dizer: enriquecimento para meia dúzia do mercado financeiro e pobreza para a maioria da população.

O mandato de Roberto Campos Neto termina no final do ano, mas, desde agora, ele e sua turma na mídia, já deram início a uma campanha para tentar forçar Lula a indicar para o seu lugar um economista com o mesmo perfil. O cerco é diário a todas as propostas econômicas de Lula e essa turma tem procurado transformar em erro os enormes acertos do presidente e Haddad em matéria de economia.

O Brasil ter saído da 13º posição no ranking econômico mundial e se tornar a 8º economia com um ano e meio de governo Lula é um feito que merece todas as comemorações. Mas a mídia corporativa esconde o assunto e registrou, quando o fez, em pequenas notas. Da mesma forma, essa mídia escondeu que o nível de desemprego no país chegou ao menor patamar dos últimos 10 anos e que estamos caminhando para o pleno emprego.

Como se isso não bastasse, essa mídia escondeu do seu “respeitável público” até a super exitosa viagem que o vice-presidente Geraldo Alckmin, que acumula a Pasta da Indústria e Comércio, fez na semana passada à China e à Arábia Saudita, à frente de uma expressiva delegação de empresários, com o objetivo de atrair investimentos e vender “de fruta a avião”.

A mídia corporativa brasileira continua pensando – se é que pensa – o Brasil de forma pequena e apequenada. Não percebeu que o mundo mudou, que as instituições construídas no pós-Segunda Guerra Mundial serviram apenas aos interesses hegemônicos dos Estados Unidos. Essas instituições, a começar pelo Banco Mundial, pelo FMI e pela hegemonia do dólar estão chegando ao fim. Um novo mundo, multipolar, está surgindo.

Ele está sendo construído por centenas de países que não aceitam que Estados Unidos e seus aliados da OTAN na Europa continuem dando as cartas. O centro de poder está migrando do oceano Atlântico para a Ásia e países do chamado Sul Global, onde se concentram não só a maior parte da população mundial, como a maior parte da própria renda mundial. O caso dos BRICS talvez seja o melhor exemplo.

O papel de Dilma Rousseff à frente do NDB (o Banco do BRICS) é de suma importância nesse processo, mas até hoje essa mídia nunca a entrevistou.  Dilma é hoje uma das mulheres chave para a economia mundial, mas a tacanha e subalterna mídia brasileira tenta desconhecer o fato.

Não por acaso os Estados Unidos estão por trás de duas das principais guerras em andamento no mundo – na Ucrânia e na Faixa de Gaza. Em Gaza, é bom que se diga, não se trata nem de guerra, mas de genocídio de Israel contra os palestinos, com o total apoio da Casa Branca.

Nada disso obviamente é dito pela mídia corporativa brasileira, que continua reproduzindo press-releases e despachos de Washington como se fossem noticiários.

A vitória, especialmente em países como Alemanha e França, da extrema-direita nas eleições para o Parlamento Europeu neste domingo (9/6), deveria funcionar como um alerta para a mídia brasileira. Esta situação foi produzida pelo alinhamento automático da maioria dos governos europeus aos interesses dos Estados Unidos, com gravíssimas consequências para suas populações. Os europeus estão pagando mais caro por energia, por comida, o desemprego se amplia e o descontentamento população não para de crescer.

Se os governos europeus dessem ouvidos às ruas, já teriam abandonado a guerra da Ucrânia e rompido relações com Israel. Ao não fazerem isso selam o próprio futuro.

Nada disso parece preocupar à classe dominante brasileira (que se considera elite) e à mídia, que nada mais é do que sua voz. Aliás, vale registrar que na semana passada, a nata financeira de São Paulo se uniu para comprar o antes todo poderoso jornal Estado de S. Paulo. Para tanto, comenta-se que teria pago R$ 120 milhões. Praticamente falido e com pouquíssimos leitores, a publicação não vale quase nada. Mas o pagamento se justifica para que essa turma continue tendo espaço para criticar o governo Lula e tentar emplacar jogadas do seu interesse.

É por tudo isso que essa mídia sempre tentou apagar as ideias da economista Maria da Conceição Tavares e agora tenta desestabilizar o terceiro governo Lula.

Novidade zero. Como Roberto Campos, avó e Neto, ela sempre trabalhou contra o Brasil e o povo brasileiro.

Maria da Conceição foi fundamental e fará muita falta.