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1ª. Parte

Melhor assim, o encosto, o desencarnado, o meu amigo Fernando Telles ficou do lado de fora, sob o mando da coordenadora dos trabalhos do Centro, médium de notável percepção espiritual, que na vida cotidiana era médica atuante e de irretocável trajetória profissional.

O problema surgiu com pacto firmado em tom de brincadeira, do tipo que ajusta combinação que, morrendo uma das partes, o desencarnado aparece para a sobrevivente. Foi assim comigo e o Fernando. O contrato nos pareceu interessante, porque éramos amigos, acreditávamos na vida além-túmulo, e permutar informações sobre o plano astral poderia ser algo de inestimável valor. O tempo seguiu curso, Telles foi levando a vida à sua maneira, sempre peculiar, inclusive às avessas, mas a nossa estima, recíproca, resistia a todos os solavancos que a rotina traz à convivência.

Marcelo Costa me telefonou por volta das doze horas, em dia útil. Ele se encontrava no apartamento do Telles, na região do bairro da Savassi, em companhia do então deputado federal Saraiva Felipe. Fernando, redimido por controvérsias antigas com o alcaide e nomeado por Newton Cardoso, não comparecera ao trabalho naquele dia, na Prefeitura de Contagem. Estava caído, morto, sobre o sofá e com os olhos abertos, mirando fixo o vazio profundo do teto branco da sala do seu pequeno e aconchegante apartamento.

Agradeci ao Marcelo a informação, mas tremi. De imediato surgiu, na tela das lembranças mais recentes, a cena do compromisso à época assumido como diversão, mas, que se assenhoreou sinistro, em face da notícia abrupta e fatal. O cara morreu, pensei, e deve estar a caminho vindo ao meu encontro. Conhecendo a figura, como eu bem conhecia, Fernando, agora desencarnado, estaria em êxtase, mediante a perspectiva de imolar, em sacrifício, as minhas noites insones, se esmerando no cumprimento da palavra empenhada.

Não vi o cenário de sua morte, no apartamento, me intimidei, mas fui ao velório. Do caixão mantive distância técnica e não encarei o cadáver, para não provocar o de cujus e sequer avivar a sua eventual memória do plano físico recente. Fiquei por ali, espreitando, de esgueio, sem fazer marola e tentando manter a discrição possível. Cumprimentei amigos, distribui os afagos protocolares e me esforcei, do lado de fora, para conter a emoção. Telles fora um grande amigo, com quem mantive estreita afinidade intelectual, ressalvadas, contudo, as convicções do Fernando no tocante às possibilidades alucinógenas das viagens mentais estimuladas, voltadas para os estados alterados de consciência.

Alguns dias após, em casa, acordei por volta das quatro da madrugada, com a voz do Fernando chamando, em alto e bom som, em tom quase ameaçador e no seu timbre característico: ACORDA, BRANDÃO !!! Era como o Telles, em vida, me tratava, por Brandão. Gostei do alerta, sentei-me na cama e olhei ao redor, sem acender a luz, e nada mais ouvi e também nada enxerguei no meu entorno, voltando a dormir. O chamado foi se repetindo nas noites seguintes, com a voz num crescendo e a penetrante sensação de presença no quarto, o que me trouxe desconforto e uma ponta de medo angustiante. Além do chamado, Fernando nada dizia, mas apenas se fazia presente e o meu temor aumentou. Senti, na coluna, calafrio que nascia na quinta vértebra e subia efervescente, morrendo na base da nuca.

Era sábado, o fenômeno aconteceu de novo, na hora morta, mas, me escondi sob as cobertas, protegendo-me na posição fetal e deixando à mostra apenas parte do couro cabeludo. Fernando chegou, chegando, sem cerimônia, bradou o meu nome e agarrou os meus cabelos, dando-lhes um puxão transversal e soltando-os em seguida. Tentei gritar, mas, com a boca totalmente aberta, a voz não saía, e o grito ficou travado, mudo na garganta seca e inútil, quando da cama saltei aterrorizado e com os joelhos laxos.

Acordei a Anna, que nada escutou, liguei as televisões, acendi todas as luzes da casa, e me recolhi ao sofá na sala de visita, esperando a aurora. Mas, açodado, liguei para a Carmem Purisch, amiga em comum com o Telles. Carmem? Ela respondeu sem hesitação , perguntando: “o Fernando está aprontando?” “Aqui, em casa, está um horror”, completou a Purisch. “Fernando me chama, puxa o cobertor, quebra objetos e faz outras diabruras”. Do sítio do Leozinho, que ele costumava frequentar, disse a Purisch, “o caseiro se evadiu com a família, durante a noite, em meio a luzes acendendo e apagando, portas e janelas batendo sem parar e sons esquisitos ecoando pela casa”. A coisa está feia e fora de controle, disse ela.

Carmem, psicóloga experiente e que também transita, com as devidas cautelas, pelos labirintos do misticismo, não era de se assustar com facilidade. A sua voz, arrastada e claudicante, me trouxe inquietude. O seu proceder, sempre despachado, convicto e cheio de razão, em face, inclusive, do enorme cabedal de experiências várias que colecionava no atendimento a pessoas de todos os naipes, algumas delas muito especiais, me fez refletir. Lidar com o Telles, em vida, costumava desaguar em penosos desafios, haja vista o inusitado do seu comportamento. Agora, estando morto, certamente seria algo mais complexo a considerar. Recordei-me de que, em certa feita o Fernando, na posição de lótus, se acomodou no alto da torre da caixa dágua de minha casa, em Belo Horizonte, onde permaneceu, em meditação, por cerca de doze horas e de lá desceu, revigorado e mediante inegável demonstração de coesão interna, e expandida visão aprimorada de si mesmo. Acho, que, afinal, ele sabia o que fazia.

PS: continua na próxima semana.


Caio Brandão

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