Ângela Carrato – jornalista. Professora da UFMG. Integra o Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)

Quando, na semana que passou, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), aprovou o regime de urgência para que fosse votado o PL dos Estupradores, ele imaginava que estaria dando um xeque-mate no governo. Lira não contava com a imediata reação das mulheres brasileiras – de todas as idades e classes sociais – que foram às ruas protestar contra essa nova insanidade da extrema-direita.

A jogada de Lira era clara. Ao apoiar uma proposta que pune mulheres e meninas estupradas e lhes condena a penas de prisão superiores às dos próprios estupradores, ele estava fazendo média com a chamada bancada evangélica e com a extrema-direita, de olho na própria sucessão.

O seu mandato termina no início do próximo ano e ele sabe que, a menos que faça um sucessor de confiança, voltará a ser um simples parlamentar, um “deputado da planície”, como se diz em Brasília.

Um dos líderes do chamado “Centrão”, Lira, que está no quarto mandato como deputado federal, foi eleito para presidir a Câmara em fevereiro de 2021 e, de imediato, se colocou a serviço dos interesses da extrema-direita. Foi responsabilidade exclusiva dele o arquivamento de mais de 120 pedidos de impeachment contra Bolsonaro.

A cada pedido arquivado, ele via seu poder se ampliar, porque conseguia do ex-capitão, um político inepto e ignorante em matéria econômica, vantagens e enorme influência sobre o orçamento da República. Como todo “capo”, Lira tratou de repartir o fruto dessas conquistas com seus apoiadores, através das chamadas emendas parlamentares, que passaram a ser impositivas. Vale dizer: o governo não só tem que pagá-las, como tem prazo definido para fazê-lo.

As tais emendas constituem uma das maiores aberrações atuais na política brasileira, pois transferem para o Legislativo competência que é do Executivo. O papel do Legislativo é fazer leis e fiscalizar o governo. Mas aqui, o Legislativo passou também a executar grande parte do orçamento federal de forma anárquica e, com raras exceções, eleitoreira.

Vem daí o poder que Lira conseguiu e que não quer perder.

Foi por controlar a maioria dos votos na Câmara Federal, que Lira se reelegeu para mais um mandato. Alguns podem objetar que nesta reeleição contou com o apoio do próprio Lula, que também estava iniciando o mandato. Começo super complicado ao enfrentar e derrotar uma tentativa de golpe de estado, em 8 de janeiro de 2023. Na realidade, o que Lula fez – e fez certo – foi não apoiar qualquer candidato contra Lira, adiando um embate que fatalmente aconteceria, mas não precisava se dar naquele momento.

Lira acreditou que o embate final contra Lula poderia acontecer agora.

Para definir por este momento, avaliou que era a oportunidade para acuar Lula e, mais do que isso, provocar um rombo em sua popularidade às vésperas das eleições municipais.

Enquanto os setores progressistas defendem o direito da mulher sobre o seu corpo, extremistas de direita querem, em pleno século XXI, que ela se submeta a uma agenda medieval, que a obriga a manter uma gestação, mesmo quando fruto de estupro.

Na avaliação de Lira, o tal PL seria aprovado e Lula estaria obrigado a sancioná-lo ou vetá-lo. Em qualquer situação, acreditava, o governo sairia perdendo. Se o sancionasse, iria contra a sua base de apoio. Se o vetasse, desagradaria à parcela mais conservadora da sociedade e daria munição para que a chamada “guerra cultural” dominasse as eleições municipais.

Este é o ponto.

Como o “Centrão” e a extrema-direita jogam juntos, através de partidos como União Brasil, PL, PP, Republicanos, Podemos, MDB e PSDB, Lira pretendia que as pautas que interessam à maioria da sociedade fossem substituídas, nestas eleições, pelas questões ditas morais e de costumes. Ditas morais, porque vamos e convenhamos a extrema-direita e a direita, começando pelo próprio Lira, não têm como posar de “bons mocinhos”.

Lira, por exemplo, é acusado pela ex-esposa, Jullyene Lins, de violência sexual.

O melhor dos mundos para a direita e a extrema-direita brasileira seria se os temas dominantes nas eleições municipais fossem pautas ditas morais ao invés de melhorias concretas na vida das pessoas, como as que o governo Lula está conseguindo viabilizar.

Não interessa à extrema-direita que a população saiba que o salário mínimo voltou a ser reajustado acima da inflação, que o desemprego chegou ao nível mais baixo dos últimos 10 anos, que programas sociais como o Minha Casa Minha Vida e Farmácia Popular, estão de volta e outros igualmente fundamentais como o Pé de Meia e o Bolsa Estudante, que incentivam alunos do ensino médio e da graduação universitária, foram criados.  Até porque a direita e a extrema-direita não têm nada para apresentar além de  ódio e tentativas de retrocesso.

A situação se torna mais grave ainda em estados como o Rio Grande do Sul, onde a mídia corporativa alinhada com a extrema-direita esconde que grande parte do que denomina de “tragédia provocada pelas chuvas intensas” não teria acontecido se não fosse o descaso para com o meio ambiente do governador tucano, Eduardo Leite, do prefeito bolsonarista de Porto Alegre, Sebastião Mello, e de dezenas de outros prefeitos igualmente bolsonaristas daquele estado.

O PL que Lira tentou emplacar é, portanto, um dos exemplos mais bem acabados da “guerra cultural”, uma forma de desviar a atenção das pessoas para o que não é essencial, apostando no preconceito e no atraso.

Voltando à avaliação equivocada por parte de Lira, ele acreditou que a “pior semana para Lula”, como a mídia corporativa tentou transformar os últimos dias, fosse suficiente para obrigar o governo a cair na cilada que armou. A “pior semana” envolveu um ataque sem tréguas e sem motivo da própria mídia a Lula e à sua política econômica e animou até o presidente do Banco Central dito “independente”, Roberto Campos Neto, a se assumir como político de oposição, anunciando o apoio ao nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, para disputar contra Lula em 2026 e se oferecendo para ser o seu ministro da Fazenda.

Em qualquer país do mundo, um presidente de Banco Central que assumisse tal postura, teria que se demitir ou ser demitido imediatamente. Demitir-se, claro que ele não vai. Lula também não vai demiti-lo, porque não quer ampliar resistências junto ao mercado financeiro.

Campos Neto, cujo mandato termina em 31 de dezembro nada mais fez do que uma nova provocação da extrema-direita a Lula. Algo como chutar o balde, já que obviamente não será reconduzido e quer continuar criando todos os problemas possíveis para o governo. É responsabilidade dele os juros continuarem nas alturas, mesmo com a inflação baixa e sob controle. Era para os juros estarem em 6% e permanecem em 10,25%. Patamar que Campos Neto quer manter ou mesmo aumentar, como sinalizou.

Só que, para desespero dessa turma, Lula tem conseguido avançar em termos de economia e desenvolvimento do país.

Político tarimbado e experiente, ele não embarcou em nenhuma dessas ciladas. Ao contrário. Deu as costas a essa turma e foi para a Suíça e a Itália, onde teve importantes eventos e encontros. Na Suíça, participou da reunião da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e arrancou aplausos de todos os presentes ao defender a taxação dos super-ricos e a necessidade de um projeto de Inteligência artificial (IA) para o Sul Global. Propostas que levou para a reunião do G-7 e também para o Papa Francisco, que as acolheu com entusiasmo.

Enquanto Lula circulava pelo mundo como estadista, a direita e a extrema-direita brasileira evocavam as trevas e o atraso.

Ao contrário do que esperavam, não só as ruas e as redes sociais, mas o próprio Lula, seus ministros e até a primeira-dama, Janja, se posicionaram contra o PL dos Estupradores.

Para Lula, o tal PL é “no mínimo uma insanidade”.

A ótima notícia que a mídia não deu é que falta pouco para o Brasil e os brasileiros se livrarem de Lira e de Campos Neto.