Ângela Carrato – jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Luiz Inácio Lula da Silva volta a Belo Horizonte neste domingo (9) para agradecer a vitória que obteve em Minas Gerais nas eleições para presidente em primeiro turno e, novamente, conclamar a população para, juntos, reconstruírem o Brasil.
Além de encontros políticos, ele participará de uma caminhada pela área central da capital mineira, tendo ao seu lado a ex-presidenta Dilma Rousseff e ninguém menos do que o ícone da música popular brasileira, Chico Buarque.
Esta caminhada deverá repetir o CarnaLula que, no domingo que antecedeu às eleições, levou uma multidão às ruas e coloriu a capital mineira com as bandeiras do PT e do Brasil.
Antes de Lula, quem esteve em Belo Horizonte, na quinta-feira (6), foi Jair Bolsonaro, o presidente de extrema-direita que disputa a reeleição. Seu objetivo é tentar reverter o voto dos mineiros que, historicamente, têm dado vitórias ao PT.
Ele participou apenas de uma solenidade com empresários na sede da Fiemg, ao lado do governador reeleito, Romeu Zema, e saiu sem falar com a imprensa.
Dos empresários mineiros, Bolsonaro recebeu um documento com mais de 90 pontos, quase todos (pasmem!) propondo mais flexibilização dos direitos trabalhistas e redução da fiscalização exercida sobre as empresas. Em bom português, o documento só falta sugerir o restabelecimento da escravidão e a complacência do governo para com a sonegação de impostos pelos empresários.
Depois de conseguir a reeleição sinalizando para o voto nele e em Lula (“Luzema”), o governador de Minas acabou levando uma tremenda prensa dos bolsonaristas. Prensa que não lhe deixou alternativa a não ser ir imediatamente a Brasília e anunciar o apoio à reeleição do presidente. Coisa que fez no dia seguinte ao resultado do primeiro turno.
A prensa teve como base o resultado da eleição para a Assembleia Legislativa, onde o PT, de Lula, fez a maior bancada, o PL, partido atual de Bolsonaro, ficou em segundo lugar e o PSD, agremiação de Alexandre Kalil, a quem Zema derrotou na disputa pelo governo do Estado, tornou-se a terceira maior bancada. O Novo, agremiação a que Zema está filiado, elegeu apenas dois deputados. Dito de outra forma, os bolsonaristas deixaram claro que sem base parlamentar consistente, Zema correrá sérios riscos de ser alvo de impeachment.
Ao que tudo indica, Zema entendeu o recado, que alguns preferem interpretar como ameaça, especialmente quando se sabe que se não faltaram motivos para o impeachment dele no primeiro mandato, ele só foi salvo pela turma do “centrão” no Legislativo mineiro.
Zema terá que lidar com a dívida gigantesca de Minas Gerais que já ultrapassa R$ 173 bilhões, cujo maior crescimento aconteceu exatamente em sua administração. No primeiro mandato, ele conseguiu escapar do problema, graças a uma liminar obtida no final do governo Pimentel, em 2018, que suspendeu o pagamento de cerca de R$ 40 bilhões aos cofres federais.
Apesar de criticar duramente Pimentel, foi a suspensão deste pagamento que permitiu a ele pagar os servidores em dia. Salários que, por sua vez, foram congelados em sua gestão e se encontram profundamente defasados. Como se sabe, o governo Zema não cumpre sequer a lei do piso salarial para os professores da rede pública.
Vulnerabilidades à parte, o certo é que em Minas Gerais será travada, nas próximas três semanas, uma das batalhas mais importantes neste segundo turno, cuja disputa, em última instância, é entre a continuação e aprofundamento da barbárie atual ou a retomada da democracia no país. Basta lembrar que os números finais da eleição aqui repetem o que se verificou no plano federal, confirmando a crença de que, politicamente, o estado é uma espécie de síntese do Brasil.
Mas se os petistas mineiros estão tranquilos, confiantes e de mangas arregaçadas para confirmarem e ampliarem os votos em Lula, os bolsonaristas se mostram irritados e sem medidas em suas pressões. Eles investem sobre o governador querendo que se use a máquina pública para forçar os prefeitos a garantirem os votos de suas cidades em Bolsonaro.
Dezenas de denúncias deste tipo têm chegado à coordenação da campanha petista nas últimas horas, mostrando que se depender de Bolsonaro, a política mineira retrocederá aos tempos da República Velha, em que os “coronéis” mandavam nos votos dos eleitores.
Além de práticas assim constituírem crime, a resposta que Zema tem recebido dos prefeitos não é das mais encorajadoras. Fica difícil para eles criticarem agora Lula e recomendarem o voto em Bolsonaro, depois de terem defendido com unhas de dentes o “Luzema” por orientação da campanha do próprio governador. O eleitor não é bobo, argumentam.
Entre as denúncias que também têm chegado à coordenação da campanha petista em Minas estão as de que prefeitos bolsonaristas vêm tentando proibir que professores da rede municipal abordem o tema eleição em sala de aula. Atitude que, junto com a censura que Zema impôs à TV Minas, que não pode exibiu a entrevista de Guilherme Boulos (PSOL), ao Programa Roda Viva, só contribuem para mostrar como Zema e Bolsonaro são verdadeiros trogloditas políticos.
O ideal para Zema, claro, seria continuar jogando ao sabor das próprias conveniências. Em 2018, mesmo filiado ao Novo e o Novo tendo candidato à presidência da República, declarou às vésperas da eleição, apoio a Bolsonaro. Foi recompensado pelo derrame de fake news, que garantiram sua eleição.
Diante da possibilidade de Lula vencer em primeiro turno – é importante lembrar que faltou apenas 1,6% de votos para isso acontecer – Belo Horizonte e inúmeras cidades do interior foram inundadas por banners e “santinhos” da dobradinha “Luzema”. Novamente ele se valeu da carona com quem liderava a disputa para se reeleger.
Com a ida de Bolsonaro para o segundo turno, Zema requentou antigas críticas ao PT e a Lula, deixando parte dos seus eleitores perplexos e os petistas e seus aliados indignados. Um político pode mudar de ideia, mas com tamanha rapidez e oportunismo cheira a esperteza. Como lembra um velho ditado mineiro, esperteza demais vira bicho e come o homem.
Lula, que não guarda rancor, também já mandou seu recado. Uma vez eleito, convidará todos os governadores para uma reunião na primeira semana de seu mandato. Quer trabalhar com todos e pedirá a cada um que apresente a relação das três prioridades em termos de obras em seu estado.
Bolsonaro nunca fez nada semelhante e nem fará. A situação de Minas Gerais é simplesmente catastrófica e Zema sabe disso.
As chances de Lula se tornar o próximo presidente do Brasil são enormes e dele vencer novamente em Minas, maiores ainda.
Diante deste quadro, a pergunta que fica diz respeito a quanto Zema está disposto a comprometer o seu futuro para enfiar o pé na lama dos bolsonaristas.
É provável que Lula também se encontre com lideranças sindicais e populares e delas receba um dossiê onde são listados os gravíssimos problemas econômicos que Minas Gerais enfrenta. Problemas que o governador Romeu Zema, agora reeleito, fez questão de desconhecer durante a campanha eleitoral e segue fazendo cara de paisagem.
A preocupação das lideranças sindicais e populares diz respeito, entre outros aspectos, ao enorme endividamento de Minas Gerais e às propostas de privatização da Cemig e da Copasa que, em breve, Zema certamente retomará.
