Ângela Carrato – Jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG

A quebra de um importante banco nos Estados Unidos, como foi a do Silicon Valley, não é fato comum. A quebra de um segundo banco também nos Estados Unidos, com 24 horas de diferença, muito menos. O risco das falências se estenderem para a Europa e demais continentes é real, quando se sabe que o Banco Central da Suíça teve que agir anunciando que socorrerá o Credit Suisse, para evitar que o problema se alastre.

De acordo com a teoria, qualquer relato jornalístico precisa se basear em fatos. Para um fato virar notícia, ele deve possuir algo incomum. Quando vários fatos semelhantes se sucedem, o correto é que a mídia faça reportagem sobre o assunto, de forma não só a colocá-lo no contexto, como apontar possíveis desdobramentos.

A falência desses bancos foi noticiada pela mídia corporativa brasileira de forma tão superficial e descontextualizada, que poucas pessoas se deram conta da gravidade do problema, e, sobretudo, das implicações que podem ter aqui.

Para início de conversa, da TV Globo à Folha de S. Paulo, praticamente nenhum veículo da mídia corporativa brasileira informou ao seu respeitável público que a principal razão para a falência do Silicon Valley Bank foram os altos juros. E olha que a taxa de juros nos Estados Unidos não passa de 4% ao ano. Só a chamada mídia independente noticiou o fato de forma correta.

O Silicon Valley Bank, cuja matriz se situa nos arredores da cidade de São Francisco, na Califórnia, acabou se transformando no estabelecimento preferido pelas empresas de tecnologia da região, inclusive as startups, queridinhas de muitos investidores.

Durante a pandemia da covid-19, as empresas de tecnologia cresceram muito, na medida em que as pessoas passaram a fazer praticamente tudo de casa, valendo-se de plataformas e de aplicativos. Nesse período, essas empresas contrataram milhares de funcionários e tiveram lucros altíssimos. Com a vida voltando ao normal e as pessoas utilizando menos as plataformas, muitos funcionários foram demitidos e os investimentos no setor diminuíram. Porém muitas dessas empresas haviam tomado dinheiro emprestado para expandir os negócios, acreditando que os altos lucros seriam para sempre.

A volta ao normal e os altos juros jogaram essas empresas em situação delicada. Várias não conseguiram mais honrar os empréstimos ou deixaram de pagá-los. O problema gerou uma corrida dos correntistas ao banco, faltou dinheiro e a falência se tornou inevitável.

O correto seria que a mídia corporativa brasileira noticiasse isso para o seu público.

Não foi o que aconteceu.

Falar que os juros altos estão na raiz da falência do Silicon Valley Bank se tornou algo proibido, exatamente porque esta mídia tem sido uma feroz defensora dos altíssimos juros praticados no Brasil, os mais altos do mundo. Aqui os juros estão em 13,75% ao ano (8% uma vez descontada a inflação), bem mais do que o dobro do valor praticado nos Estados Unidos.

Desde o início do seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem denunciando os “juros estratosféricos” praticados no Brasil, lembrando que é impossível se falar em retomada do crescimento, geração de empregos e desenvolvimento numa situação assim. O esperado, a partir deste pronunciamento, seria que o Banco Central dito independente, responsável pela fixação da taxa de juros, tomasse providências para estudar o assunto e mudar esta abusiva política, que serve apenas para engordar as finanças dos oligarcas nacionais e internacionais.

Não foi o que aconteceu. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, bolsonarista de carteirinha e pessoa ligada ao mercado, saiu em defesa dos indefensáveis juros estratosféricos e toda a mídia corporativa brasileira o apoiou. Jornais, emissoras de rádio e telejornais passaram a mostrar Campos Neto como o “especialista competente e sensato”, enquanto Lula era apresentado como “um populista que não sabe o que diz” e “quer sair gastando o dinheiro público com graves implicações para o déficit fiscal”.

Se muitas mentiras demoram a ser descobertas, outras são desmascaradas a jato. Foi o caso. Essa é a razão pela qual a mídia corporativa brasileira esconde as razões da falência do Silicon Valley Bank, pois mencioná-las seria confessar o erro que cometerem ao apoiar Campos Neto e abertamente combaterem Lula.

Mas o problema não termina aí. Qualquer pessoa minimamente informada sabe que a mídia corporativa brasileira nunca gostou de Lula. As razões são tão antigas quanto óbvias: os donos desta mídia, irmãos Marinho à frente, integram o restritíssimo grupo dos bilionários brasileiros. Juros altos, privatizações e estado mínimo soam como música para eles. As propostas de Lula e do PT são exatamente o oposto disso.

Se a mídia corporativa brasileira foi fundamental para transformar a Operação Lava Jato e os corruptos Sérgio Moro e Deltan Dallagnol em heróis, ela foi igualmente fundamental para que Moro prendesse Lula sem qualquer prova, impedisse que ele disputasse as eleições de 2018 e garantisse a chegada de Bolsonaro ao poder.

Mesmo tendo discordância com Bolsonaro na chamada “pauta de costumes”, como é o caso dos irmãos Marinho, nas questões econômicas sempre fecharam com o ex-ministro ultraneoliberal Paulo Guedes e com o próprio Bolsonaro. No fundo, essa mídia gostaria que o sucessor de Bolsonaro mantivesse a pauta econômica do governo anterior. Razão pela qual tentaram de toda forma inviabilizar a vitória de Lula. Quem se lembra da busca desesperada da TV Globo por um candidato de “terceira via”?

Como Lula venceu, o caminho agora adotado por esta mídia, especialmente depois que os atos terroristas/golpistas do 8 de janeiro foram derrotados, é o de tentar impedir que o governo avance em suas propostas de inclusão social e de desenvolvimento. Haja vista a manchete do jornal O Globo na sexta-feira (17/3). Ao invés de informar que os segurados do INSS vão ter acesso a juros mais baixos em empréstimos consignados, deu como manchete que os bancos comerciais, Bradesco e Itaú, anunciaram a suspensão destes empréstimos.

Indo além, a publicação ainda cria alarme ao frisar que “analistas veem risco de escassez de crédito”.
Quando a mídia corporativa brasileira apoia Campos Neto e seus juros estratosféricos, o que ela quer é que Lula não consiga implementar seu programa de governo, que isso gere insatisfação popular e ele se transforme num pato manco, como é denominado nos Estados Unidos um governo fraco e que perdeu credibilidade.

Mais ainda: qualquer medida seja de um ministro, seja de Lula, que envolva redução dos juros, será duramente combatida, como já está sendo.

Essa mídia não contava, no entanto, que a crise dos bancos viesse confirmar o que Lula tem dito.
Para deixar mais claro ainda a quem esta mídia serve, a pesquisa Genial/Quaest sobre “O que Pensa o Mercado Financeiro”, divulgada na última quarta-feira (15/3), mostra, com clareza, quem é esse tal mercado.

A pesquisa ouviu 82 executivos das maiores casas de investimentos de São Paulo e do Rio de Janeiro. Para 98% dos entrevistados, a política econômica do governo “caminha na direção errada”. Nove entre 10 desses executivos definem como “negativa” a relação do governo Lula com o Banco Central e apenas 7% têm expectativa de que o relacionamento possa melhorar nos próximos meses. Do total dos executivos ouvidos, apenas 16% consideram alta a chance de o Banco Central antecipar o corte de juros.

Mais do que um retrato sem retoques do pensamento da “casa grande” e do total descompromisso dela com o desenvolvimento do país, a pesquisa deixou patente como para esses executivos importam apenas os seus interesses e os dos seus patrões.

O descompromisso é tamanho que, no exato momento em que respondiam de forma tão peremptória a essa pesquisa, os reguladores financeiros dos Estados Unidos fechavam o Silicon Valley Bank, a segunda maior falência de um banco na história dos Estados Unidos.

Particularmente, eu, que nem tenho dinheiro aplicado, jamais confiaria nesses senhores. Mas isso, claro, é uma questão pessoal.

Voltando ao que interessa, não foi perguntado a esses executivos, mas se o fosse, possivelmente 100% deles diriam que em caso de falência de um banco ou de problemas no sistema financeiro, o governo deve comparecer para que não haja prejuízo para os correntistas e investidores. Isso, aliás, é exatamente o que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou que vai fazer.

É sobre esse ponto que também gostaria de chamar atenção. Tanto nos Estados Unidos como aqui, os mercados odeiam governos com compromissos populares. Tanto lá como aqui, os capitalistas batem no peito na defesa do estado mínimo e de liberdade total para o mercado. Mas quando os problemas acontecem, como agora, a conversa muda de tom e esses senhores exigem que o governo cubra os prejuízos. Desnecessário dizer que a mídia corporativa, lá também, se transforma em verdadeiro megafone para a defesa dos interesses dos ricos e dos muito ricos.

Quando Lula, antes mesmo de tomar posse, lutou como um leão para aprovar – e conseguiu – a PEC do Bolsa Família, o retorno do programa social que garante comida para os pobres e muito pobres, para o qual Bolsonaro não havia deixado recursos, o tal mercado gritou. O mínimo que a mídia manchetou, a exemplo da Folha de S. Paulo, foi que Lula estava instituindo a “gastança”.

Duvido que a Folha de S. Paulo ou qualquer veículo da mídia corporativa considere gastança a decisão de Biden de socorrer o Silicon Valley Bank. Da mesma forma que dificilmente algum veículo da mídia corporativa brasileira dará razão à luta do governo para baixar os juros, por mais importante e indispensável que ela seja.

Será que gastança é só quando se trata dos mais pobres?

Socorrer falência de banco não é gastança, especialmente quando se sabe que os proprietários rasparam o tacho na véspera?

Por essas e outras, é fundamental ficar de olho vivo na mídia corporativa brasileira.

Ela mente, desinforma e deforma sempre que o interesses dos seus patrões, a casa grande, e os seus próprios estiverem em jogo.