Ângela Carrato – Jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG

O governo Jair Bolsonaro acabou.

Oficialmente, a posse do novo presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, ocorrerá apenas em 1º de janeiro de 2023, mas, na prática, ele e sua equipe já trabalham desde a última quinta-feira, quando teve início o processo de transição.

Algumas das centenas de mentiras de Bolsonaro começam a vir à tona. Ao contrário do prometido por ele, não há no orçamento do Executivo enviado ao Congresso Nacional para o próximo ano um centavo sequer para o pagamento do Auxílio Brasil, nem dos Programas Farmácia Popular e Merenda Escolar.

Não há, também, previsão de recursos para o reajuste do salário mínimo acima da inflação. Isso somado aos planos do ministro da Economia, Paulo Guedes, de passar a reajustar os salários pela inflação estimada pelo governo, não pela inflação real, e de congelar as aposentadorias, daria lugar ao maior arrocho salarial de todos os tempos no Brasil.

Esta é a razão pela qual a equipe de transição de Lula está articulando e correndo para aprovar um projeto de emenda à Constituição (PEC) que possibilite o remanejamento de recursos para que estes pagamentos aconteçam em janeiro e possam prosseguir.

O ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, insuspeito de qualquer inclinação à esquerda, calcula que o rombo que Bolsonaro deixará nas contas públicas ultrapassa os R$ 400 bilhões, mais de três vezes superior aos já altíssimos R$ 120 bilhões estimados. Esse rombo tem a ver com recursos que foram desviados para o Orçamento Secreto e para o pagamento de auxílios. Dito de outra forma: utilizados por Bolsonaro para tentar comprar a reeleição.

No último debate entre os candidatos, Lula reafirmou que um dos seus primeiros atos será suspender o sigilo de 100 anos que Bolsonaro colocou em diversas medidas de seu governo.

Mas antes mesmo da posse de Lula, as mentiras de Bolsonaro já saltam aos olhos.

Esse é o motivo pelo qual a derrota desconsertou tanto a Bolsonaro. Além de não esperar perder, sabia que não podia perder.

É por isso que, passado o desespero da derrota, Bolsonaro e sua turma estão em campo tentando evitar o que chamam de “o pior”.

Sem mandato, passará a responder aos processos que já existem e aos novos que vão pipocar de todos os lados contra ele. Não está descartada nem mesmo sua prisão e perda de direitos políticos. Daí a tentativa de negociar uma espécie de “anistia”.

E nesse momento que as instituições brasileiras precisam ser firmes e evitar qualquer conciliação pelo alto.

Não pode haver anistia para Bolsonaro e nem para os bolsonaristas que, em situações variadas – a mais recente atende pelo nome de bloqueios nas estradas – tentaram tumultuar e deram pesados prejuízos à vida e à economia nacional.

O governo Bolsonaro não teria existido se o então deputado Bolsonaro tivesse sido preso no dia em que, ao votar pela abertura do criminoso impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff, homenageou o coronel torturador Brilhante Ustra.

O governo Bolsonaro não existiria, se em 1979 a anistia não tivesse igualado em termos de perdão, torturados e torturadores.

O governo Bolsonaro não existiria se as instituições brasileiras e parte da população tivessem prestado atenção ao que disse o ex-presidente Ernesto Geisel. Lá nos idos de 1993, ele se referiu a Bolsonaro como “um mau soldado”.

Para quem não se lembra, quando presidente, o general Geisel enfrentou e debelou, em 1977, um motim golpista de extrema-direita, liderado pelo general Sílvio Frota, que tentava impedir que ele desse andamento ao processo de abertura política. Frota foi o maior opositor desta abertura, que considerava uma traição à “revolução de 1964”.

Na época, o ajudante de ordens de Frota era ninguém menos do que um certo capitão Augusto Heleno. O mesmo Heleno que veio integrar, décadas depois, o governo Bolsonaro, na condição de ministro-chefe do gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

Relendo o manifesto golpista de Frota, são gritantes as semelhanças com as propostas do governo Bolsonaro.

Em outras palavras, Bolsonaro não surgiu do nada. Ele integra o que há de pior na história brasileira, um verdadeiro esgoto que muitos acreditavam nem existir mais.

Bolsonaro foi derrotado, mas o bolsonarismo deixou raízes.

É verdade que parte dos seus seguidores, o chamado “gado”, é sem noção. Vai na onda da mídia que estimulou o antipetismo, na conversa de empresários da fé, como Edir Macedo, ou é presa fácil das fake news e dos grandes interesses econômicos.

Se é importante não perde de vista que esse “gado” constitui apenas parte da massa de manobra dos pesos pesados, dos graúdos de sempre, nem por isso pode passar ileso em relação aos crimes que cometeu.

Tanto Jair quanto seus seguidores e os pesos pesados que os bancaram precisam acertar contas com a Justiça.

Essa é a condição indispensável para que esse passado sombrio seja enterrado de vez. E para que o novo governo, a partir de 1º de janeiro, consiga retomar e avançar no caminho da democracia, da inclusão social e da soberania nacional.