Instalado há mais de 20 anos na Biblioteca Central, no campus Pampulha, o Acervo de Escritores Mineiros (AEM) da UFMG se mudará, em até um ano e meio, para uma sede própria na Faculdade de Letras (Fale). O espaço será construído em pavimento contíguo ao terceiro andar da Unidade.

A mudança do Acervo para a Fale é plano antigo. O anteprojeto arquitetônico está pronto, e já existe verba destinada para a construção do espaço, que terá 661,77 metros quadrados. Documentos, livros e objetos serão abrigados provisoriamente em outras dependências da UFMG enquanto aguardam o prédio definitivo, já que a Biblioteca Central está sendo desocupada para obras de infraestrutura.

Criado em 1991, o Acervo de Escritores Mineiros reúne 29 arquivos, entre eles os de Henriqueta Lisboa, Fernando Sabino, Cyro dos Anjos e Carolina Maria de Jesus. O AEM é vinculado ao Centro de Estudos Literários e Culturais, órgão complementar da Fale. “O Acervo é uma instituição rara no Brasil, já que dispõe de rico material bibliográfico, arquivos pessoais e itens museográficos de valor literário, histórico e memorialístico inigualável”, afirma a professora Elen de Medeiros, da Fale, diretora do AEM, acrescentando que parte significativa desse material está disponível para consulta de pesquisadores.

Em sua nova casa, o Acervo deverá adotar, em razão das características do espaço e das concepções atuais de acervos como esse, novas formas de diálogo museológico com os visitantes. Nesse sentido, a exposição O laboratório do escritor, com ambientes de trabalho dos autores, que ficava no terceiro andar da Biblioteca Central, será reestruturada.

O projeto do novo espaço do Acervo na Fale está a cargo de equipe do Departamento de Planejamento e Projetos, vinculado à Pró-reitoria de Administração, que desenvolveu um projeto arrojado com capacidade de abrigar todo o material que esteve na Biblioteca Central, prevendo ainda ampliação futura do Acervo.

Responsabilidade e privilégio

A reitora Sandra Regina Goulart Almeida destaca que, para a UFMG, é um privilégio cuidar dos arquivos pessoais de alguns dos mais importantes escritores de Minas Gerais e deixá-lo disponível para a pesquisa. “Aceitamos a responsabilidade de preservar esse material, que é um patrimônio inestimável de Minas Gerais e do Brasil e fundamental para o desenvolvimento de estudos diversos, sobretudo no campo da literatura, mas também em outras áreas”, ela diz. “A transferência para a Fale, que é um desejo antigo, tem todo o apoio da Administração Central da Universidade e será oportunidade ímpar para o desenvolvimento de um trabalho ainda mais próximo da comunidade da Fale e do público externo, especializado ou não.”

O AEM abriga cerca de 17 mil volumes bibliográficos, mais grande número de arquivos e objetos pessoais dos fundos sob sua custódia. O conjunto desses acervos é definido como coleção especial, e os volumes só podem ser consultados in loco. O último acervo incorporado foi o do professor Fábio Lucas, que ainda não teve seu tratamento iniciado. Antes, o AEM recebeu os do escritor Autran Dourado e do crítico teatral, jornalista, professor e historiador Sábato Magaldi. Elen de Medeiros, que coordena o tratamento e descrição do acervo de Magaldi, informa que o trabalho foi iniciado há quatro anos e já alcançou 50% do material, uma vez que, como ela ressalta, o processo de descrição e inventariação é cuidadoso e detalhado e, portanto, leva tempo.

A diretora da Faculdade de Letras, Sueli Coelho, enfatiza que um dos maiores ganhos da mudança do AEM é o favorecimento à maior interação dos alunos de graduação com obras e documentos. “Estamos certos de que esse acervo tão rico será ainda mais bem utilizado pela comunidade e preservado e disponibilizado em condições ainda mais adequadas”, diz.

Literatura e movimentos artísticos e sociais

Em 1991, o professor da Fale Wander Melo Miranda propôs, com as colegas Eneida Maria de Souza e Maria Zilda Cury, o projeto de pesquisa Acervo de escritores mineiros. Miranda atuava então como o primeiro diretor do Centro de Estudos Literários (CEL), instituído dois anos antes, com a chegada do acervo de Henriqueta Lisboa.

Henriqueta Lisboa:

Escritora Henriqueta Lisboa, cujo acervo conta com uma cópia do diário escrito por Guimarães Rosa em sua estada na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial.

O objetivo central da iniciativa, segundo texto que consta do site do AEM, era levantar, congregar e organizar acervos de autores mineiros de alcance nacional. A ideia era evidenciar interações de suas produções literárias, de várias naturezas, com movimentos artísticos, políticos e sociais no Brasil. O Acervo se apresenta cada vez mais como espaço transdisciplinar e laboratório de ensino, pesquisa e extensão.

O professor Reinaldo Marques, que dirigiu o Acervo de Escritores Mineiros em dois períodos (1997-2011 e 2008-2012) e hoje integra o Conselho Diretor do Centro de Estudos Literários e Culturais, reforça a tese da singularidade do AEM. “Livros, documentos e objetos revelam muito além da literatura – processo de composição das obras, recepção pela crítica, entre outros aspectos. Um dos muitos exemplos da amplitude do valor do AEM é uma cópia do diário escrito por Guimarães Rosa em seus anos na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial, parte do acervo de Henriqueta Lisboa. Ali há comentários sobre o conflito, anotações sobre livros, relatos sobre a revisão de Sagarana, que ele fazia naquela época”, diz o professor da Faculdade de Letras.

Marques lembra que o Programa de Pós-graduação em Estudos Literários (Poslit) da UFMG pode testemunhar sobre a importância do Acervo. “Muitas dissertações e teses foram e continuam sendo produzidas com base em pesquisas no AEM. Os livros e documentos são fonte também para pesquisadores de outras instituições, inclusive do exterior, conta o professor, ele mesmo responsável por diversas orientações no Poslit”.

Os escritores que têm seus acervos sob custódia do AEM são Abgar Renault, Achilles Vivacqua, Adão Ventura, Alexandre Eulálio, Ana Hatherly, Aníbal Machado, Antonio Barreto, Autran Dourado, Carlos Herculano Lopes, Carolina Maria de Jesus, Cyro dos Anjos, Fábio Lucas, Família Ávila (Affonso Ávila, sua esposa Laís Corrêa de Araújo e sua cunhada Zilah Corrêa de Araújo, que adotava o pseudônimo Bárbara Araújo), Fernando Sabino, Frei Betto, Genevieve Naylor, Henriqueta Lisboa, José Maria Cançado, José Oswaldo de Araújo, Leopoldo Pereira, Lúcia Machado de Almeida, Murilo Rubião, Octávio Dias Leite, Oswaldo França Jr., Paulo Emílio Rubião, Sábato Magaldi, Valmiki Vilela Guimarães, Wander Piroli e Graciliano Ramos.

Do alagoano Graciliano, há um pequeno conjunto de documentos doados pelo professor Wander Melo Miranda. Wander é editor da obra do escritor publicada pela Record e recebeu os documentos da família do escritor.

Acervo Murilo Rubião

‘O Acervo é um laboratório de invenção’

O pesquisador e professor de literatura Cleber Araujo Cabral frequenta o AEM desde 2007, quando fazia iniciação científica no curso de graduação em Letras na UFMG. No doutorado, sob orientação do professor Reinaldo Marques, debruçou-se sobre a correspondência de Murilo Rubião com Fernando Sabino, Mário de Andrade e Otto Lara Resende para apresentar, em sua tese, defendida em 2016, uma proposta de edição anotada desse material. O trabalho foi abordado em reportagem publicada no Boletim UFMG.

Cleber Cabral, que manteve presença assídua no Acervo – para os estudos de dois pós-doutorados e mesmo depois dessa fase –, destaca que o AEM tem grande volume de itens inéditos e propicia inúmeras possibilidades de trabalhos em vários campos de conhecimento. “O Acervo de Escritores Mineiros é muito mais que uma biblioteca, um museu ou um arquivo. Ele é um laboratório de invenção de outras narrativas da literatura e da história”, afirma o pesquisador, que publicou dois livros originados de sua pesquisa de doutorado: Mares interiores – correspondência de Murilo Rubião & Otto Lara Resende (Editora UFMG) e Correspondência: Mário de Andrade & Murilo Rubião (Edusp).


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