Em depoimento à Polícia Federal (PF), um servidor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) revelou que a instituição estudava o uso de uma ferramenta tecnológica para operações de contrainteligência com foco em representações diplomáticas. A proposta consistia em realizar varreduras em embaixadas estrangeiras situadas no Brasil. O depoimento integra a investigação que apura a existência de um suposto esquema paralelo de espionagem durante o governo de Jair Bolsonaro. O relatório final da PF ainda está em elaboração.

A informação surgiu após o cumprimento de mandados de busca e apreensão na sede da Abin, em outubro de 2023. Na ocasião, os agentes encontraram anotações sobre dois sistemas: o LTE Sniffer, considerado para ações de varredura, e o Cobalt Strike, que teria sido utilizado para monitorar autoridades paraguaias. Àquela altura, a PF já tinha conhecimento do uso do programa espião First Mile, conhecido por rastrear aparelhos celulares à distância.

O LTE Sniffer é um software de código aberto disponível gratuitamente na internet. Especialistas o comparam a um “IMSI Catcher”, uma ferramenta que, com o auxílio de antenas, consegue captar e analisar o tráfego de redes móveis. Uma vez instalado próximo a uma torre de celular, o programa permite que um computador identifique dados dos dispositivos conectados, como os códigos IMEI e IMSI, que funcionam como identificadores únicos junto às operadoras.

De acordo com o agente da Abin ouvido pela PF, a ideia era desenvolver uma versão própria da ferramenta para ser utilizada exclusivamente pela agência em operações de varredura em embaixadas, dentro de missões de contramedidas de inteligência. Segundo o depoente, o uso da tecnologia visava identificar possíveis atividades de espionagem estrangeira em território nacional e nunca foi utilizado de forma ilegal.

A legalidade dessa atuação é respaldada pela legislação brasileira, segundo o professor de direito constitucional da Universidade Federal de Uberlândia, Alexandre Walmott. “A contrainteligência é parte integrante da missão da Abin. Quando voltada à proteção dos interesses nacionais, a atividade é justificada por uma ética própria, voltada à defesa do Estado e da soberania nacional”, explicou.

Ainda segundo o agente, o LTE Sniffer também teria sido empregado em uma ação contra o grupo criminoso Primeiro Comando da Capital (PCC). Entretanto, a investigação da PF não detalha as circunstâncias ou resultados dessa operação. Comparado ao First Mile, o LTE Sniffer é menos sofisticado, pois requer presença física próxima da antena celular, enquanto o outro permite rastreamento remoto.

Apesar de sua funcionalidade limitada, o LTE Sniffer é utilizado por pesquisadores de segurança e não permite, por si só, acessar conteúdos como mensagens ou chamadas. Seu principal uso, segundo os especialistas, é confirmar a presença de um alvo em determinada área.

Outro programa mencionado no depoimento é o Cobalt Strike, que teria sido empregado em uma operação de espionagem cibernética contra autoridades do governo do Paraguai. De acordo com o agente, o objetivo era obter informações sobre as negociações entre os dois países envolvendo a usina de Itaipu. O caso levou o governo paraguaio a exigir explicações do Brasil.

O Cobalt Strike é um “framework” amplamente utilizado em testes de segurança digital. Ele simula ataques a redes para verificar a eficácia de sistemas de defesa. A ferramenta, contudo, pode ser usada de forma ofensiva e ilegal quando manipulada fora do ambiente de teste. Hackers já se aproveitaram da tecnologia, inclusive em ataques patrocinados por governos. Um relatório da empresa canadense FieldEffect, publicado em 2023, relatou o uso do Cobalt Strike por cibercriminosos ligados ao governo chinês em operações contra empresas de semicondutores.

A revelação de que o programa teria sido usado pela Abin em missões reais aumentou a tensão diplomática. Na terça-feira, o chanceler paraguaio Rubén Ramírez Lezcano anunciou a convocação do embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes, para prestar esclarecimentos. O Paraguai também chamou de volta seu embaixador em Brasília, Juan Ángel Delgadillo, “para consulta”.

Segundo fontes diplomáticas brasileiras, a convocação de Marcondes foi recebida com naturalidade, sendo compreendida como medida padrão diante da gravidade do caso. O embaixador brasileiro teria informado que a operação investigada ocorreu durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, e não sob o governo atual de Luiz Inácio Lula da Silva.

Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil


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