Seis dias após o anúncio de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos, o vice-presidente Geraldo Alckmin reuniu-se com grandes empresários em Brasília. Com um caderno em mãos, anotou atentamente os pleitos de representantes de diversos setores. Cauteloso, evitou promessas e falou pouco, em um cenário ainda incerto. Desde então, mais de 120 executivos foram recebidos em uma ofensiva para ajudar o governo Lula a construir uma resposta à medida do presidente americano Donald Trump — que, 19 dias depois do comunicado, ainda segue sem solução definida.
Alçado por Lula como o principal interlocutor com o setor produtivo e descrito como o “conversador número 1” do governo, Alckmin tornou-se o rosto da reação brasileira ao tarifaço. Ao mesmo tempo, seu protagonismo reacende especulações sobre seu papel nas eleições de 2026, especialmente diante da pressão do PT para que dispute o Senado ou o governo de São Paulo, fortalecendo o palanque de Lula.
Aliados de Lula no Palácio do Planalto avaliam que a condução da crise e o aumento da popularidade presidencial favorecem a manutenção de Alckmin como vice. “Caso as negociações avancem, ele permanece onde está”, relatam integrantes da equipe presidencial. No entanto, ponderam que, se a tentativa fracassar, os desgastes também recairão sobre ele. Lula, por sua vez, não hesitaria em reorganizar a chapa de 2026 se visse vantagem em ampliar sua aliança com partidos de centro, como MDB e PSD, mesmo que isso custasse a vaga de vice de Alckmin.
Ainda assim, petistas avaliam que uma eventual aliança com MDB ou PSD dificilmente garantiria apoio nacional pleno, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste, onde setores dessas siglas têm maior aproximação com o bolsonarismo. Já o PSB, partido de Alckmin, é visto como um aliado nacional consolidado. “Alckmin tem buscado soluções que garantam previsibilidade, respeito aos acordos internacionais e a valorização do que o Brasil produz com qualidade. É um exemplo de servidor público que alia equilíbrio, experiência e espírito público”, afirmou o presidente do PSB e prefeito do Recife, João Campos.
A questão eleitoral e o papel de Alckmin nas negociações comerciais com os EUA estiveram no centro de um almoço no Palácio da Alvorada, na última quarta-feira, que reuniu Lula, Alckmin, João Campos, a ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) e o ministro Márcio França (Empreendedorismo). Enquanto o PSB defende a permanência de Alckmin na chapa, líderes petistas também o veem como nome competitivo para disputar o governo de São Paulo ao lado do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. “As eleições de 2026 são tão importantes que todas as nossas grandes lideranças terão de cumprir missões. Vamos conversar com o PSB e o Alckmin”, declarou o presidente do PT, Edinho Silva.
O cálculo inclui a possibilidade de enfrentar um vácuo político no estado caso o governador Tarcísio de Freitas desista da reeleição para disputar a Presidência ou sofra desgastes com os impactos das tarifas americanas. A base aliada de Lula considera que esse espaço poderia ser conquistado.
Apesar das especulações, aliados de Alckmin negam que ele esteja pensando em 2026. O vice mantém uma rotina ativa: reserva espaço para atender prefeitos, faz ligações para parabenizá-los quando contemplados pelo PAC e se mostra confortável no cargo. Procurado, Alckmin não se manifestou.
Enquanto o futuro político é debatido, as negociações comerciais continuam. No primeiro encontro com empresários, Alckmin ouviu mais do que falou e evitou previsões. Com o passar dos dias, passou a declarar que a prioridade do governo era derrubar a taxação antes de 1º de agosto — objetivo que parece cada vez mais distante.
Além das reuniões com o setor produtivo, o vice comanda os contatos com a Embaixada dos Estados Unidos, em conversas discretas. Já dialogou diretamente com o secretário de Comércio americano, Howard Lutnick, reforçando a disposição do Brasil em buscar uma solução. “Uma conversa proveitosa, de 50 minutos”, relatou Alckmin em entrevista na quinta-feira.
Todos os desdobramentos são compartilhados com Lula, que valoriza a postura moderada e articulada do vice. Para um ministro, Alckmin, por ser “menos à esquerda” que o Itamaraty, ajuda a neutralizar críticas de ideologização por parte da oposição. A atuação é elogiada também pelo presidente da Fiesp, Josué Gomes da Silva: “Ele é experiente, tranquilo e se expressa de forma muito comedida, apesar de ser firme. Mas, para dançar um tango, precisa-se de dois. O outro lado precisa querer. Tem de ser um ‘ganha-ganha’”.
Mesmo antes do tarifaço dominar a agenda, Alckmin já buscava fugir do estigma de “vice decorativo”. Suas manhãs são dedicadas ao gabinete da Vice-Presidência, e as tardes ao Ministério da Indústria e Comércio. A rotina intensa marca um contraste com o período pós-derrota em 2018, quando ficou em quarto lugar na disputa presidencial. Na época, chegou a dar dicas de saúde na TV e concluiu um curso de acupuntura. Hoje, encontra-se no centro das decisões do governo e das articulações para o futuro político de Lula.
Foto: Cadu Gomes/VPR

