A Alemanha está se preparando para um rearmamento sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial, impulsionado pelo provável futuro governo de Friedrich Merz. O líder conservador pretende aumentar substancialmente os gastos com defesa para compensar o distanciamento dos Estados Unidos da Europa e fortalecer a segurança do continente.

Em meio às negociações para a formação do novo governo, após a vitória nas eleições parlamentares há dez dias, Merz apresentou, na noite de terça-feira, 4, seu plano para ampliar os investimentos militares. A proposta, negociada com os social-democratas do SPD, do atual chanceler Olaf Scholz, busca contornar o “freio da dívida” estabelecido na Constituição e permitirá que a Alemanha invista pelo menos 100 bilhões de euros (cerca de 107 bilhões de dólares ou 608 bilhões de reais) por ano na defesa.

“Há momentos em que a história de um país dá uma virada inesperada”, destacou o jornal Zeit nesta quarta-feira, 5. Segundo a publicação, os planos de Merz podem marcar um desses momentos decisivos.

A pressão para que Berlim adote uma posição mais firme na segurança europeia se intensificou com os recentes desdobramentos da guerra na Ucrânia. Na quinta-feira, líderes europeus se reunirão em uma cúpula para debater a situação ucraniana e a defesa do bloco. Há uma expectativa de que a Alemanha, peça-chave da União Europeia, finalmente assuma uma postura mais assertiva após a dissolução da coalizão de Scholz em novembro.

Merz, conhecido por sua postura atlantista e sua resistência ao financiamento de gastos públicos com dívidas, surpreendeu ao modificar seu discurso. Na noite da eleição, ele defendeu a criação de “capacidades de defesa europeias independentes” como alternativa ao atual estado da Otan.

“Merz está impulsionando a economia da Alemanha e assumindo a responsabilidade pela segurança da região”, avaliou Kathleen Brooks, diretora de pesquisa da XTB. Se seu plano for bem-sucedido, poderá representar um divisor de águas para o país e pôr fim ao impasse político alemão, segundo Sebastian Dullien, diretor do instituto de pesquisa econômica IMK.

Além do aumento nos gastos militares, Merz propôs um fundo especial de 500 bilhões de euros (aproximadamente 3 trilhões de reais) para modernizar a infraestrutura alemã e ajudar a superar a recessão dos últimos dois anos.

O ministro da Defesa, Boris Pistorius, classificou os planos como um “dia histórico para o exército e para a Alemanha”, um país que, desde a rendição nazista, tem se esforçado para manter uma imagem discreta em relação ao poderio militar.

O jornal Spiegel destacou que a proposta de Merz rompe com a tradicional ortodoxia fiscal da CDU. “É bom que Merz esteja quebrando suas promessas de campanha”, ironizou a publicação.

Diante da possibilidade de os EUA adotarem uma postura menos favorável à Europa, a Alemanha assume um papel central na reorganização da segurança regional. “Como país mais populoso e economia mais forte do continente, a Alemanha tem o dever de unir os europeus e incentivá-los a garantir sua própria defesa”, destacou o veículo.

Para Jacob Ross, do Conselho Alemão de Relações Exteriores, o impacto do anúncio de terça-feira não está apenas nos valores envolvidos, mas também na mensagem política e estratégica que ele transmite.

Contudo, Ross pondera que ainda há muitas questões em aberto sobre a viabilidade do plano. “Quem fabricará as armas necessárias? A Europa terá acesso às matérias-primas indispensáveis? Como a inflação será impactada por investimentos tão expressivos na economia?”, questionou em entrevista à AFP.

Com um novo governo em formação e a crescente necessidade de autonomia na defesa europeia, a Alemanha se prepara para uma mudança histórica em sua política militar.

Foto: Ina Fassbender


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