Governos de pelo menos 87 países já confirmaram nas redes sociais ou em telegramas oficiais a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, nas eleições brasileiras no fim de semana. O número, segundo o UOL apurou, irá aumentar ainda mais ao longo desta terça-feira, com dezenas de autoridades buscando formas de falar com o vencedor do pleito.

A avalanche de reconhecimentos foi recebida no Itamaraty como um sinal claro de que, para a comunidade internacional, não existem questionamentos sobre a eleição e que, a partir de agora, o interlocutor é Lula, e não Bolsonaro.

Se as principais democracias do mundo e alguns dos principais rivais de Bolsonaro se apressaram para reconhecer a derrota do presidente de extrema direita, o que surpreendeu a ala mais próxima ao movimento ultraconservador foi o comportamento de aliados internacionais de Bolsonaro.

Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália, foi às redes sociais para felicitar Lula. Ela acaba de vencer suas eleições na Itália e, pela primeira vez em décadas, o movimento herdeiro do fascismo tomou o poder em Roma.

Em sua vitória, Meloni recebeu efusivas mensagens do clã Bolsonaro, numa esperança de que a nova aliada fizesse o mesmo no Brasil. Mas isso não ocorreu e a italiana fez votos de que Lula e ela continuem a trabalhar juntos em nome da “histórica amizade” entre os dois povos.

Mais moderada foi a ultraconservadora Katalin Novak, presidente da Hungria e que há poucos meses esteve no Brasil. Ela não citou o nome de Lula nas redes sociais. Mas deixou claro que Budapeste reconhece a vitória do petista e que deseja sucesso ao “presidente eleito”. Ao longo dos anos, a Hungria foi o exemplo que o bolsonarismo adotou para silenciar a imprensa, a sociedade civil, controlar os demais poderes e desmontar a democracia.

Em Israel, nem mesmo o gesto de Bolsonaro de apontar para um reconhecimento de Jerusalem como capital e a mudança de votos do Brasil na ONU em favor dos israelenses levou o governo do país estrangeiro a hesitar sobre a eleição brasileira. Durante o dia da eleição, a primeira-dama Michelle Bolsonaro foi votar com uma camisa na qual a bandeira de Israel estava estampada, uma sinalização principalmente ao movimento evangélico brasileiro.

Mas, nas redes sociais, Isaac Herzog parabenizou Lula. “Recomendamos com carinho sua visita a Israel diante seu mandato anterior”, disse. “Esperamos aprofundar nossos excelentes laços e principalmente cooperar em um assunto que tanto nos preocupa: o meio ambiente”,

Na Polônia, também governada pelos ultraconservadores, as autoridades não hesitaram em saudar a vitória de Lula.

O reconhecimento amplo não ocorreu por acaso. Depois de semanas de uma coordenação detalhada, democracias Ocidentais se apressaram para parabenizar Luiz Inácio Lula da Silva pela vitória, com telegramas e mensagens nas redes sociais ainda na noite de domingo. A meta era de criar um cordão sanitário que impedisse Jair Bolsonaro de repetir a estratégia de Donald Trump e questionar a lisura da eleição. Outro temor era de que o cenário de caos da Bolívia fosse repetido,

Ao parabenizar Lula, o que Biden, Emmanuel Macron, Olaf Scholz e tantos outros fizeram foi sinalizar que confiavam no processo eleitoral e nos resultados das urnas eletrônicas. Mas há um segundo recado: a partir de agora, reconhecem que o poder legítimo no Brasil está com Lula.

Entidades internacionais também se expressaram, como a Organização dos Estados Americanos, ONU e a União Europeia.

O processo de isolamento de Bolsonaro foi completado nesta segunda-feira quando os maiores aliados do Brasil fora do Ocidente – China e Rússia – deixaram claro que querem estabelecer parcerias amplas com Lula.

Em menos de 24 horas, portanto, uma espécie de cordão sanitário foi estabelecido, enquanto assessores de Lula indicam que a busca pelo presidente eleito por parte de governos e entidades internacionais explodiu.

Um exemplo é a Conferência do Clima da ONU, no Egito. As delegações estrangeiras estão enviando negociadores extras para que tenham como incumbência buscar a equipe de transição do Brasil para iniciar a negociação de novos entendimentos.

A fila para falar com o Brasil de Lula, segundo diplomatas, já preenche uma ampla agenda.

Entre os europeus, havia ainda a esperança de que Bolsonaro permitisse que uma equipe de transição ou até mesmo Lula fosse para a cúpula do G-20, que ocorre em novembro na Indonésia. Mas, dentro do Itamaraty, a possibilidade é vista como “impossível”.

No G-20, porém, diplomatas brasileiros já admitem que, se Bolsonaro for, será difícil organizar qualquer tipo de encontro para o presidente derrotado. Principalmente se mantiver a postura de não reconhecer a derrota e iniciar um processo de transição.


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