A reunião da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, realizada na última quinta-feira, foi resultado de uma articulação política conduzida por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. O pedido para a audiência foi levado ao magistrado na véspera do encontro e contou com a intermediação direta de parlamentares do PL que mantêm canais de diálogo com o relator da ação relacionada à trama golpista.
De acordo com relatos feitos a interlocutores do caso, o deputado federal Altineu Côrtes e o senador Bruno Bonetti foram os responsáveis por negociar a audiência. Altineu é apontado como um dos poucos integrantes do partido que preservam interlocução com Moraes e, durante uma audiência anterior sobre visitas a Bolsonaro na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, aproveitou para apresentar o pedido da ex-primeira-dama.
Antes do encontro, o deputado comentou com Michelle que teria uma conversa com o ministro. A partir disso, ela solicitou que os parlamentares tentassem viabilizar uma audiência direta com o relator. Após a conversa inicial, o pedido foi levado formalmente a Moraes, que sinalizou disposição para receber Michelle no dia seguinte, às nove horas da manhã, desde que a solicitação fosse apresentada pelos canais oficiais do Supremo.
Essa exigência levou ao envio de um pedido formal por e-mail ao gabinete do ministro, procedimento que consolidou a audiência sem qualquer tipo de intermediação informal. A formalização foi considerada decisiva para que o encontro ocorresse poucas horas antes de Moraes determinar a transferência de Bolsonaro da Superintendência da Polícia Federal para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, no Complexo da Papuda, local conhecido como Papudinha.
Durante a conversa, segundo pessoas que acompanharam os desdobramentos, Michelle apresentou um apelo centrado nas condições de saúde do marido. Ela relatou episódios que, segundo sua avaliação, teriam se intensificado durante o período de custódia, mencionando crises de soluço durante a noite e descrevendo a cela como pequena, em um ambiente que poderia agravar o quadro clínico do ex-presidente.
A ex-primeira-dama também citou um episódio ocorrido na semana anterior, quando Bolsonaro sofreu uma queda e, de acordo com sua versão, teria aguardado algumas horas até receber atendimento médico. Exames posteriores indicaram lesões em partes moles, sem comprometimento intracraniano. O médico que acompanha Bolsonaro afirmou que o quadro não era preocupante, mas a mudança de local passou a permitir acompanhamento médico permanente.
Além da audiência com Moraes, Michelle buscou interlocução com outros integrantes do Supremo. Ela se reuniu com o ministro Gilmar Mendes e solicitou apoio para reforçar o pleito apresentado pela defesa, especialmente o pedido de concessão de prisão domiciliar por razões humanitárias.
Nos bastidores, aliados do ex-presidente passaram a tratar a transferência para a Papudinha como uma vitória parcial e atribuem o resultado à mobilização de Michelle e também do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que teria atuado junto a ministros do Supremo. Apesar disso, a mudança ficou aquém do objetivo central defendido pelo entorno de Bolsonaro, que segue sendo a conversão da pena em regime domiciliar. Ainda assim, aliados classificam o deslocamento como um primeiro passo para uma eventual reavaliação das condições de custódia.
Foto: Marcelo Camargo/Agência

