Por Marco Aurelio Carone
Hoje a Folha de São Paulo publicou excelente matéria do repórter Naief Haddad: “Violência na política atual no Brasil lembra jacobinos de Floriano Peixoto”;
“É tão forte o ódio por motivações ideológicas que insultos nas ruas se tornam corriqueiros. A tensão política, porém, não se limita às ofensas verbais. Acontecem atos de vandalismo contra espaços ligados aos inimigos e até um assassinato —depois de gritos “mata! mata!”, um grupo identificado com as doutrinas militares dá fim a um opositor.
Não se trata do Brasil de julho de 2022, mês da morte de um guarda municipal petista, assassinado a tiros em Foz do Iguaçu (PR) por um policial penal bolsonarista. Mês ainda do lançamento de uma bomba caseira em ato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Rio de Janeiro.
O clima de terror do parágrafo inicial esboça os conflitos nas ruas cariocas em 1897. A desordem institucional associada à violência era fruto, sobretudo, dos rompantes dos jacobinos, um grupo radical de admiradores de Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, ex-presidente que tinha morrido dois anos antes.”
A matéria lança luz sobre o momento em que vivemos, porém, infelizmente a questão é muito mais grave, utilizando a forma adotada por Haddad, a comparação histórica, não tem como deixar de ressaltar como foi o nascimento do fascismo na Europa, regime político totalitário que surgiu na Itália entre as décadas de 1920 e 1940. Sua ideologia era autoritária, racial, violenta.
O líder do fascismo italiano foi Benito Mussolini, o Duce, filho de uma professora e de um ferreiro. Apesar de ter feito parte do Partido Socialista Italiano durante sua juventude, Mussolini mudou sua ideologia política e criou um partido de extrema direita, em 1919.
Mussolini chegou ao poder em 1922 com a chamada “Marcha Sobre Roma”. A Europa estava arrasada pela 1ª guerra, com uma forte crise econômica. A população encontrava-se com a moral baixa, e desanimada.
É nesse ambiente que surgem alguns políticos e ideólogos com um discurso inflamado de resolver problemas complexos e com a capacidade de falar aquilo que o povo mais queria ouvir. Mussolini, apresenta-se com o discurso; “Levante-se, orgulhe-se! A nação precisa de você, nós somos superiores”.
A primeira e mais emblemática vítima dos denominados milicianos fascistas, foi o secretário-geral do Partido Socialista e principal opositor ao crescente poder de Benito Mussolini deputado italiano Giacomo Matteotti, 39 anos, sequestrado em 10 de junho de 1924, seu cadáver seria encontrado somente dois meses depois, sua morte provoca uma onda de indignação na Itália e no estrangeiro.
Nascido numa família rica, Matteotti formou-se em direito na Universidade de Bolonha, onde entrou em contato com o movimento socialista, no qual logo se converteu em figura destacada. Durante a Primeira Guerra Mundial defendeu a necessidade de a Itália manter a neutralidade, o que lhe custou sua prisão na Sicília.
Em 1919, foi eleito deputado no parlamento italiano, sendo reeleito em 1921. Opôs-se à violência exercida pelos “camisas negras” do recém-criado fascismo italiano e denunciou continuamente seus abusos e crimes apesar das ameaças recebidas. Ao mesmo tempo julgava inútil que militantes comunistas, anarcossindicalistas ou socialistas mantivessem acirrada a disputa entre si, declarando que ante à ameaça fascista todos os partidos de esquerda deveriam deixar de lado discrepâncias ideológicas e unir-se contra o inimigo comum. Tais exortações não surtiram efeito.
Matteotti foi o chefe do Partido Socialista Unitário na Câmara dos Deputados da Itália, onde tomou posição contra o fascismo e contra Mussolini, sendo durante certo tempo o porta-voz da reduzida oposição parlamentar ao Partido Nacional Fascista, que aparecia como a maior força política. Ainda que Mussolini e seus camisas negras tivessem ameaçado instaurar uma ditadura completa na Itália e suprimir as últimas instituições democráticas, Mateotti se negou a renunciar à política ou unir-se ao fascismo e se pronunciou seguidamente da tribuna do parlamento contra os planos autocráticos do Duce, bem como contra a violência exercida impunemente pelos camisas negras contra seus rivais.
Em 30 de maio de 1924, Matteotti tomou a palavra na Câmara para analisar as eleições que haviam ocorrido em 6 de abril, nas quais o próprio Mateotti tinha sido eleito. Enquanto da bancada fascista surgiam os gritos, as ameaças e as galhofas, o líder socialista pronunciava um histórico discurso no qual desfiava uma a uma todas as ilegalidades e os abusos cometidos pelos fascistas com o intuito de alcançar a vitória, valendo-se de fraude eleitoral, violência e intimidação contra os rivais.
Ao término do discurso, depois de receber as felicitações de seus companheiros, prognosticou: “Já fiz o meu discurso, agora compete a vocês preparar o discurso fúnebre em meu enterro”.
Após o Duce comentou em público ante o chefe da polícia secreta fascista que o deputado não deveria “seguir em circulação”. Antes de sua morte, Matteotti já havia sofrido tratamento cruel dos esquadrões fascistas, sendo sequestrado e torturado. Apesar disso, nunca silenciou seu espírito antifascista. Seu assassinato se converteu numa advertência clara: o governo fascista ensaiava assumir o poder absoluto e permanente e qualquer oposição, por mais sutil que fosse, seria duramente castigada.
Como resultado, a maioria dos integrantes do parlamento italiano se passou ao partido de Mussolini, seja por vontade própria, por conveniência ou pela força. Os parlamentares comunistas, socialistas e de outros partidos de esquerda rechaçaram tais pactos com o fascismo, porém por temer a brutal violência dos camisas negras. Muitos deles se abstiveram de seguir participando da política ou preferiram passar a uma oposição clandestina ao regime.
Na mesma época, em 1920 nasce o nazismo na Alemanha, a princípio denominado de nazifascismo, através do Partido Nacional-Socialista, que defendia um nacionalismo extremado, contra a democracia, e a favor do militarismo.
O líder Adolf Hitler, assumiu o poder da Alemanha em 1933, ao ser nomeado chanceler, para a guerra. O que vem depois, desnecessário narrar, todos sabem.

