Ângela Carrato – Jornalista e professora do Departamento de Comunicação da UFMG

Bolsonaro passou três anos e meio de seu governo esfolando a população. Ele tem a maior taxa de rejeição entre todos os presidentes que se candidataram a um novo mandato. Mais da metade dos brasileiros quer vê-lo pelas costas. Em se tratando das mulheres, o número é ainda maior, 61%.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, desde que as pesquisas eleitorais começaram a ser feitas, lidera em todos os cenários, com chances de vencer no primeiro turno. Se Lula não tivesse sido preso em 2018, estaria disputando a reeleição e Bolsonaro continuaria no lugar de onde nunca deveria ter saído.

Como houve um golpe parlamentar-jurídico-midiático em 2016, que derrubou, sem crime de responsabilidade, a presidenta legitimamente eleita, Dilma Rousseff, Bolsonaro, sem Lula no páreo e embalado pelas fake news, conseguiu chegar ao poder.

São mais de 100 pedidos de impeachment contra ele, que dormem nas gavetas do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. São inúmeras as evidências de que ele cometeu crimes de responsabilidade, mas as benesses para os políticos do Centrão, a começar pelo orçamento secreto, garantem que todas as medidas do interesse dele e do seu governo sejam aprovadas. Mesmo quando representam fragrantes ilegalidades.

É o caso da PEC “das Bondades” que Senado e Câmara votaram em tempo recorde. Ela possibilitará a Bolsonaro distribuir um volume nunca visto de dinheiro a título de auxílio e “voucher” para diversos setores da população. Ao todo são R$ 41 bilhões, com um detalhe: passam a valer a partir de agosto e terminam em dezembro. Até aprovar a vigência do estado de emergência no país foi necessário, para dar cara de legalidade ao que era até então ilegal e atendia pelo nome de compra de votos.

Talvez poucos tenham se dado conta, mas na última quinta-feira, o Brasil retrocedeu oito décadas. Neste lamentável túnel do tempo, fomos parar na República Velha, aquela que vigorou de 1889 a 1930.

Na República Velha, os políticos situacionistas não perdiam eleições. Só homens alfabetizados, quando as taxas de analfabetismo eram mais de 80%, podiam votar. Mesmo assim, os grandes proprietários rurais, conhecidos como “coronéis”, garantiam a vitória de seus candidatos com o voto aberto, ameaças e violências contra adversários e a compra de votos.

Em pleno século XXI, Bolsonaro e sua turma trouxeram de volta estas práticas de triste memória e que todo o mundo civilizado já sepultou.

Como se não bastassem as ameaças permanentes de Bolsonaro contra as urnas eletrônicas e a democracia, em que encontra respaldo em setores das Forças Armadas, ele, com suas “arminhas”, tem levado o Brasil a uma escalada de ódio. O resultado está aí: violência, mortes, assassinatos e crimes políticos não param de acontecer. Um dos mais recentes foi o assassinato por um apoiador de Bolsonaro, de um petista que comemorava seu aniversário em festa privada, com parentes e amigos.

Ao contrário do inquérito sobre os assassinatos da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, que em quatro anos não andou, esse foi concluído a jato, com a polícia paranaense descartando motivação política.

A incitação à violência é recorrente por parte de Bolsonaro. Em uma de suas últimas lives, ele disse, dirigindo-se a apoiadores, que “sabemos o que temos que fazer” em se tratando das eleições. Na sequência, um dos seus filhos postou uma foto em frente ao Capitólio, nos Estados Unidos. Ambas podem ser lidas como mensagens cifradas.

Diferente de seu ídolo Trump, Bolsonaro faz uma dupla aposta: vencer as eleições graças ao “pacote de bondades”, comprando o eleitor, sobretudo os mais pobres e necessitados, com “pares de botas”, como agiam os “coronéis” do passado. Se não funcionar, questionar o resultado das urnas. Situação em que espera contar com o apoio de outras botas, para criar o caos e se manter no poder.

O jogo de Bolsonaro é perigosíssimo para a combalida democracia brasileira. Não funcionou nos Estados Unidos e dificilmente funcionará aqui, mas pode levar o país à guerra civil, especialmente quando se sabe que de julho de 2020 a março deste ano, houve um aumento de 262% no número de pessoas com porte de armas. Esse número significa 400 novas pessoas armadas por dia. Os dados são do Exército brasileiro. Isso explica, por exemplo, o absurdo crescimento no número de clubes de tiro no país.

A maioria da população brasileira rejeita Bolsonaro. E o mundo também. Desta vez nem ele nem as botas terão a palavra final.

Nunca a escolha foi tão fácil.