O Banco Central elevou de 1,6% para 2% a projeção de crescimento da economia brasileira em 2026, conforme o Relatório de Política Monetária divulgado nesta quinta-feira. A revisão foi motivada principalmente pelo desempenho acima das expectativas do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre deste ano e pela melhora nas perspectivas para setores importantes da atividade econômica, como a agropecuária e a indústria extrativa. Segundo a autoridade monetária, a economia apresentou desempenho mais robusto do que o previsto, refletindo maior dinamismo da demanda interna e resultados positivos em diversos segmentos produtivos.

No primeiro trimestre de 2026, o PIB brasileiro avançou 1,1% em relação ao último trimestre de 2025. O crescimento ocorreu de forma disseminada entre os três grandes setores da economia: agropecuária, indústria e serviços. Diante desse resultado, o Banco Central revisou para cima suas projeções para esses segmentos, além de elevar as expectativas relacionadas ao consumo das famílias, aos investimentos privados e à demanda doméstica.

O relatório destaca que o ambiente econômico continua sendo beneficiado por medidas de estímulo de natureza fiscal e creditícia, responsáveis por impulsionar o consumo e incentivar investimentos. Ao mesmo tempo, a instituição ressalta que a trajetória ainda elevada da taxa básica de juros atua como fator moderador desse crescimento, reduzindo parte dos efeitos expansionistas observados na economia.

O documento também apresenta a avaliação do Comitê de Política Monetária sobre o cenário econômico e as perspectivas para a inflação. O Banco Central lembra que a taxa Selic permaneceu em 15% ao ano entre junho de 2025 e março de 2026, o maior nível registrado em quase duas décadas. Com a desaceleração da inflação observada nos primeiros meses do ano, o Copom iniciou o ciclo de redução dos juros em março.

Na reunião realizada na semana passada, o colegiado reduziu novamente a Selic em 0,25 ponto percentual, levando a taxa para 14,25% ao ano. Foi o terceiro corte consecutivo. Mesmo assim, a autoridade monetária avalia que o cenário internacional continua cercado de incertezas, especialmente em razão dos impactos econômicos provocados pelo conflito no Oriente Médio.

Segundo o relatório, até o momento os reflexos mais diretos desse conflito sobre a economia brasileira ocorreram por meio da elevação dos preços internacionais dos combustíveis, do petróleo e de diversas commodities, influenciando também os preços dos alimentos. O Banco Central ressalta que essas pressões elevam a incerteza sobre as projeções de crescimento e dificultam a condução da política monetária.

Em 2025, o Produto Interno Bruto brasileiro cresceu 2,3%, resultado que marcou o quinto ano consecutivo de expansão econômica, com crescimento registrado em todos os grandes setores da atividade. A agropecuária voltou a exercer papel relevante nesse desempenho, favorecida pelo aumento da produção e das exportações.

No campo inflacionário, o Banco Central reconhece que os desafios permanecem significativos. Em maio, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo registrou alta de 0,58%, elevando a inflação acumulada em doze meses para 4,72%, acima do teto do intervalo de tolerância da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.

O relatório projeta que a inflação continuará elevada até o final de 2026, permanecendo por mais de dois trimestres consecutivos acima do limite superior da meta antes de iniciar trajetória de desaceleração ao longo de 2027.

O Banco Central informou que a probabilidade de a inflação ultrapassar o teto da meta de 4,5% em 2026 aumentou significativamente desde o relatório anterior, divulgado em março. A estimativa passou de 30% para 79%, refletindo a combinação de fatores internos e externos que vêm pressionando os preços. Para o horizonte considerado relevante para a política monetária, atualmente correspondente ao quarto trimestre de 2027, a projeção oficial para a inflação é de 3,7%, ainda acima do centro da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.

Segundo a autoridade monetária, diversos fatores contribuíram para a revisão das projeções inflacionárias. Entre eles estão a surpresa provocada pelo comportamento recente do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o aumento da estimativa para o hiato do produto, a valorização internacional do petróleo e de outras commodities, além da elevação das expectativas de inflação observadas no mercado financeiro. Por outro lado, a trajetória mais elevada da taxa Selic e a valorização do real frente ao dólar contribuíram para amenizar parte dessas pressões.

No mercado de crédito, o Banco Central manteve em 9% a projeção de crescimento do saldo total das operações destinadas tanto às famílias quanto às empresas em 2026. Houve, entretanto, ajustes internos entre as modalidades. A expectativa para o crédito livre foi reduzida de forma moderada para 7,8%, refletindo menor expansão das operações voltadas às pessoas jurídicas, parcialmente compensada pelo aumento das concessões para pessoas físicas.

Segundo o relatório, o desempenho esperado do crédito às famílias incorpora os efeitos positivos de programas governamentais recentes, como o Move Brasil, destinado a motoristas de aplicativos e taxistas, além do Novo Desenrola Brasil, que busca reduzir o endividamento das famílias e ampliar sua capacidade de acesso ao crédito. No caso das empresas, a revisão decorre principalmente do impacto esperado das taxas de juros e do comportamento do câmbio sobre a demanda por financiamentos.

Em sentido contrário, o crédito direcionado teve sua projeção elevada para 10,7%, impulsionado especialmente pelo financiamento empresarial. O Banco Central destaca que a ampliação do Programa Desenrola para Micro e Pequenas Empresas e a flexibilização das regras do Pronampe deverão favorecer maior contratação de financiamentos por esse segmento.

Apesar desses ajustes, a instituição avalia que o crédito continuará desacelerando pelo segundo ano consecutivo, movimento considerado compatível com a política monetária restritiva, o elevado comprometimento da renda das famílias e o atual nível de endividamento da economia.

No setor externo, a projeção para o déficit em transações correntes foi reduzida de US$ 58 bilhões para US$ 56 bilhões, equivalentes a 2,1% do Produto Interno Bruto. A melhora decorre principalmente da expectativa de aumento do superávit comercial, favorecido pela elevação dos preços internacionais do petróleo, da soja, da carne bovina e de outros produtos básicos exportados pelo Brasil.

As exportações brasileiras também deverão crescer em volume, impulsionadas pelo bom desempenho esperado da agropecuária. Ao mesmo tempo, as importações foram revisadas para cima devido ao aumento dos preços internacionais, especialmente dos combustíveis.

O Banco Central estima que esse déficit externo continuará sendo financiado principalmente pelos investimentos diretos no país, cuja projeção foi elevada para US$ 75 bilhões em 2026, correspondentes a 2,8% do PIB. Ainda assim, a autoridade monetária ressalta que o cenário internacional permanece sujeito a riscos relevantes, principalmente em razão dos desdobramentos do conflito no Oriente Médio, que continuam influenciando preços, comércio internacional, inflação e perspectivas para o crescimento econômico brasileiro.

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil


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