O Partido Liberal (PL) está arquitetando uma nova e robusta ofensiva no Congresso Nacional, visando duas frentes estratégicas: destravar o projeto de lei que propõe a redução das penas para os indivíduos envolvidos nos atos de 8 de janeiro e, simultaneamente, acentuar o desgaste do governo Lula em votações cruciais. Essa estratégia foi meticulosamente delineada durante um encontro de mais de três horas, realizado nesta segunda-feira, entre o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar, e o presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto.
Valdemar chegou ao condomínio de Bolsonaro em Brasília por volta das 14h e só se retirou às 17h30, após uma reunião que foi classificada por aliados como “longa e política”. De acordo com interlocutores próximos, a avaliação consensual de ambos é que o texto da dosimetria, que tem a relatoria de Paulinho da Força (Solidariedade-SP), encontra-se paralisado devido à falta de empenho e iniciativa da cúpula do Congresso. “A percepção é que a liderança do Congresso não está demonstrando o interesse necessário para avançar com a pauta”.
O ex-presidente Bolsonaro defendeu veementemente que o PL adote uma postura mais incisiva no Senado Federal, mas fez uma ressalva estratégica: é fundamental não romper pontes com o Centrão. A orientação clara é poupar o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), de ataques diretos. A decisão se baseia no fato de Motta ter demonstrado uma abertura para o diálogo com a oposição. Em vez disso, a pressão deve ser direcionada ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para que ele retome as negociações sobre o projeto. “A estratégia busca pressionar onde há resistência, enquanto mantém o canal aberto com quem demonstra flexibilidade”.
Valdemar Costa Neto, por sua vez, garantiu a seus aliados que irá ampliar a movimentação no Senado, contando com o suporte de Rogério Marinho (PL-RN), que coordena a bancada do partido. A legenda também considera a possibilidade de recorrer à obstrução de votações no Plenário como uma forma de pressão política mais contundente, caso o projeto da dosimetria continue em impasse. O projeto em questão, travado há mais de um mês no Senado, é visto pela cúpula do partido como uma bandeira simbólica essencial para mobilizar as bases bolsonaristas e, por conseguinte, forçar o Congresso a se reposicionar diante do que consideram ser uma pressão popular.
Além da questão da dosimetria, Bolsonaro cobrou de Valdemar um endurecimento da oposição ao governo federal, focando em particular em dois temas que podem gerar derrotas expressivas para o Palácio do Planalto: a potencial derrubada dos vetos ao licenciamento ambiental e a discussão sobre a recomposição orçamentária decorrente da rejeição da Medida Provisória (MP) alternativa ao IOF.
O ex-presidente enxerga nesses assuntos uma grande oportunidade política para vincular o governo ao aumento de gastos e ao avanço de uma “agenda verde” que, em sua leitura, seria mal recebida pela base ruralista. Adotar uma postura contrária às medidas que o governo estuda para recompor o rombo de R$ 46 bilhões em 2025 e 2026, provocado pela rejeição da MP, significaria, segundo essa mesma leitura, deixar menos recursos nas mãos do Planalto em um ano eleitoral.
A reunião também serviu para realizar uma revisão do mapa eleitoral de 2026. Valdemar apresentou levantamentos detalhados sobre possíveis alianças regionais e a competitividade de nomes em estados considerados chave. Bolsonaro insistiu na priorização de palanques ideológicos em estados como Santa Catarina, Distrito Federal e Rio de Janeiro. Em contraste, em outras unidades da federação, como Bahia, Pará e Ceará, o partido deve adotar uma abordagem mais pragmática, apostando em alianças estratégicas com o Republicanos e o Progressistas (PP).
Durante a conversa, a dupla ainda abordou a iminente indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. A avaliação consolidada é que o PL deve “dar trabalho” ao governo durante a sabatina no Senado, explorando contradições de seu passado. O episódio mais provável de ser explorado ocorreu em março de 2016, quando Messias era subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil. Em uma interceptação telefônica divulgada no âmbito da Operação Lava-Jato, a então presidente Dilma Rousseff avisou o ex-presidente Lula que enviaria, por meio de “Bessias“, um termo de posse para que ele assinasse e, assim, tomasse posse como ministro da Casa Civil.
Foto.: Beto Barata/ PL

