Confinado há dois meses em sua residência no bairro Jardim Botânico, em Brasília, o ex-presidente Jair Bolsonaro tem mantido uma rotina de encontros políticos, consultas médicas e momentos de lazer diante da televisão, assistindo principalmente a jogos de futebol. Desde que foi colocado em prisão domiciliar por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-chefe do Executivo recebeu mais de trinta visitas de aliados e lideranças políticas — entre elas, a do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
As conversas têm girado em torno do cenário eleitoral de 2026 e dos planos de reorganização da direita no país. Segundo interlocutores próximos, Bolsonaro tem reiterado um pedido central a todos que o visitam: a anistia ampla e irrestrita aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro. “Não quero negociação que não resulte em perdão total. Só me interessa uma anistia completa”, tem repetido o ex-presidente aos aliados.
As tentativas de parte da bancada do PL, alinhada ao Centrão, de articular uma alternativa mais branda — que reduziria a pena para dois ou três anos em regime domiciliar — foram rechaçadas por Bolsonaro. “Ele deixou claro que não aceita meia solução”, relatou um interlocutor.
No Congresso, o tema também perdeu força nas últimas semanas. O projeto de dosimetria relatado pelo deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), que previa revisão das penas dos condenados, perdeu apoio após o fracasso da chamada PEC da Blindagem. Mesmo dentro do PL, a proposta agora encontra resistência e falta de consenso.
A rotina de Bolsonaro tem sido marcada ainda por cuidados médicos constantes. Em outubro, o ex-presidente foi internado por dois dias em um hospital particular de Brasília devido a crises de soluço e refluxo, o que o levou a realizar novos exames. O médico Cláudio Birolini afirmou que “os soluços se intensificam quando ele fala por longos períodos”. A última crise ocorreu logo após a visita de Tarcísio de Freitas, que permaneceu mais de duas horas na residência.
A casa de Bolsonaro, antes cenário de transmissões ao vivo e reuniões políticas, hoje lembra uma enfermaria. Receitas médicas, caixas de remédios e anotações sobre horários de medicação ocupam a mesa da sala. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro tem atuado como cuidadora e administradora do ambiente doméstico. “Ela controla as entradas e saídas, organiza as refeições e interrompe conversas quando chega a hora dos medicamentos”, contou um visitante.
Entre pausas para remédios e chá, Bolsonaro passa longos períodos assistindo à televisão. Alterna transmissões esportivas com noticiários e, segundo pessoas próximas, reage com comentários sobre a própria condenação e o futuro da direita brasileira. “Ele acompanha tudo, comenta as decisões do Supremo e ainda acredita que vai voltar à cena política”, disse um aliado que o visitou recentemente.
Apesar das restrições, o ex-presidente mantém contato frequente com integrantes do PL e aliados mais próximos, que continuam tentando manter vivo o discurso de anistia e a mobilização da base conservadora em torno de seu nome.
Foto: Cristiano Mariz

