Alvo de diversas investigações, o ex-presidente Jair Bolsonaro tem intensificado sua participação em entrevistas, especialmente para veículos de comunicação dos Estados Unidos, após a posse do aliado Donald Trump para um segundo mandato na Casa Branca. Nessas aparições, Bolsonaro tem seguido um roteiro que aborda temas como uma suposta perseguição jurídica e seus planos para o futuro político.

Nesta quinta-feira, 30, a revista Bloomberg divulgou uma entrevista em que Bolsonaro afirmou “dormir bem”, mas reconheceu que considera inevitável o avanço das investigações da Polícia Federal contra ele. O ex-presidente buscou reforçar a narrativa de que enfrenta as mesmas represálias que Trump sofreu nos últimos anos e comparou as invasões ao Capitólio, em 2021, aos ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília.

Bolsonaro já foi indiciado em três inquéritos: um sobre suposta fraude no cartão de vacinação, outro pelo recebimento de joias sauditas e o mais recente e grave, relacionado à participação em uma trama golpista após a vitória de Lula nas eleições de 2022. Ele também comentou a delação de seu ex-ajudante de ordens, Mauro Cid, classificando as declarações como “absurdas” e alegando que Cid estaria sendo chantageado. Em gravação obtida pela VEJA, Cid afirmou nunca ter utilizado a palavra “golpe” e expressou indignação com o conteúdo de sua delação.

Sobre o futuro político, Bolsonaro reiterou que seu nome é o único na direita capaz de derrotar Lula em 2026. No entanto, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o declarou inelegível até 2030. Para reforçar sua narrativa de perseguição política, ele tem buscado ampliar contatos internacionais com a ajuda do deputado Eduardo Bolsonaro. Essa campanha de entrevistas internacionais faz parte dessa estratégia.

O ex-presidente tentou comparecer à posse de Trump, mas não foi autorizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), já que seu passaporte está retido há quase um ano devido às investigações sobre a tentativa de golpe de Estado.

As declarações de Bolsonaro têm se repetido em outras entrevistas. Em uma conversa com o The New York Times, divulgada em 16 de janeiro, ele afirmou sentir-se “vigiado o tempo todo” no âmbito da investigação sobre a tentativa de golpe e classificou sua inelegibilidade como um “estupro da democracia”. “Não estou preocupado em ser julgado. Minha preocupação é quem vai me julgar”, declarou.

O ex-presidente também indicou que poderia apoiar um de seus filhos para concorrer ao Congresso, mas descartou a possibilidade de um deles disputar a Presidência. Com sua inelegibilidade confirmada pelo TSE, aliados cogitam lançar Eduardo Bolsonaro como candidato a vice, deixando aberta a possibilidade de ele assumir a cabeça da chapa caso ocorra uma nova cassação, em um cenário semelhante ao de 2018, quando Fernando Haddad substituiu Lula na disputa presidencial após a confirmação da inelegibilidade do petista.

Em um sinal de alinhamento com o governo Trump, Bolsonaro elogiou a decisão da Meta, empresa dona do Facebook, WhatsApp e Instagram, de encerrar iniciativas de moderação de conteúdo. A medida é vista por ele e seus aliados como uma vitória no embate contra o que chamam de censura das redes sociais.

Bolsonaro já havia concedido uma entrevista ao The Wall Street Journal no final de novembro. Na ocasião, afirmou que a eleição de Trump representava uma “oportunidade” para seu futuro político e declarou que o apoio do republicano poderia resultar em sanções contra o governo Lula, ajudando a pavimentar seu retorno ao poder mesmo estando inelegível. Segundo a publicação, Bolsonaro aposta que Trump poderá pressionar juízes brasileiros a suspenderem a decisão que o impede de concorrer nas próximas eleições.

O ex-presidente segue apostando no apoio do governo Trump para reforçar sua influência política no Brasil. Ao manter uma agenda de entrevistas com a imprensa americana, Bolsonaro tenta consolidar sua imagem como líder da direita brasileira e estimular sua base eleitoral, mesmo sem poder concorrer diretamente em 2026. Apesar das investigações e das restrições judiciais, ele se mantém ativo politicamente, mirando a possibilidade de influenciar o cenário eleitoral e garantir protagonismo no futuro da direita no Brasil.

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

 


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