Especialista em questões militares, o historiador Manuel Domingos Neto alerta que aversão das Forças Armadas por Lula pode “gerar um impasse” e que setores militares que seriam contra Bolsonaro, se existem, seguem no anonimato.
Nas últimas semanas aumentaram os temores de que as ameaças de um golpe de Jair Bolsonaro contra as urnas eletrônicas, o sistema eleitoral e as instituições democráticas tenham respaldo não só dos militares de seu entorno como de setores mais amplos das Forças Armadas. Senão respaldo, “vistas grossas”. As manifestações ambíguas do general e ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, contribuem para esse mal-estar.
Como sempre, a mais recente crise entre as instituições também foi deflagrada por Bolsonaro, que desafiou o Supremo Tribunal Federal e, em 21 de abril, concedeu a “graça presidencial” ao deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), condenado pela mesma corte um dia antes a quase nove anos de prisão. De certa forma, essa decisão de Bolsonaro foi o cumprimento – por decreto – da ameaça que fez em 7 de setembro de 2021, na Avenida Paulista, de que não mais acataria decisões do ministro Alexandre de Moraes.
Há duas semanas, ao responder uma fala ácida do ministro do STF Luís Roberto Barroso, o general Paulo Sérgio disse que “as eleições são questão de soberania e segurança nacional”. Já na última terça-feira (3), depois de reunião com o presidente do STF, Luiz Fux, o general disse que as Forças Armadas estão em “permanente estado de prontidão para o cumprimento das suas missões constitucionais”. Acrescentou que a atuação dos militares será para que o processo eleitoral “transcorra normalmente e sem incidentes”.
Chamou atenção a ambiguidade das afirmações. Dizer que “as eleições são questão de soberania e segurança nacional” e que as Forças Armadas estão em “permanente estado de prontidão” pode servir tanto à defesa legalista da Constituição Federal de 1988 quanto às falas golpistas de Bolsonaro. Por vias tortas, o chefe de governo e militares aliados costumam evocar a Constituição e o artigo 142, que, segundo eles, autorizaria a intervenção militar por um “papel moderador” das Armas para a resolução de conflitos entre Poderes, o que juristas refutam.
Para o historiador Manuel Domingos Neto, especialista em questões militares e ex-vice-presidente do CNPq, a posição do presidente é muito clara: Bolsonaro, de fato, “quer o golpe”. “Ele sabe que vai perder (a eleição) e vai tomar suas providências”.
No cenário, destaca-se que os militares não gostam de Lula, por vários motivos. Além disso, eles têm o pretexto da “inconfiabilidade das urnas”, repetido por Bolsonaro quase diuturnamente. Diante do quadro, repórteres sempre citam “fontes militares” descontentes com Bolsonaro, que garantem o respeito ao candidato que se eleger, seja quem for etc.
Mas Domingos Neto, doutor em História pela Universidade de Paris, questiona: onde estão esses militares que nunca aparecem a não ser protegidos pelo manto do anonimato? “Quanto a essas opiniões contrárias (a Bolsonaro), não aparece um nome sequer. É tudo em off! Quem é o setor legalista das Forças Armadas? De que se trata, quem o compõe? Tem a turma que está zangada com a situação, mas que turma é essa?” Apesar da insatisfação com o presidente, “entre o bônus e o ônus, o bônus é maior” para os militares, o que garantiria a passividade diante das ameaças bolsonaristas à democracia.
Sobre as desconfianças que pairam sobre o suposto papel da CIA e do Departamento de Estado dos Estados Unidos, a opinião de Manuel Domingos Neto é de que a eleição de “Lula interessa, sim”, aos norte-americanos, ao contrário da análise de teóricos da conspiração, embora isso não signifique que os EUA poderão controlar o processo brasileiro. “Interessa porque com Lula você tem alguma racionalidade. Bolsonaro não dá garantia de nada”, diz o professor.
“Eu acho que os Estados Unidos estão jogando de olho na guerra, e essa guerra mexe com o mundo todo. O Brasil pode jogar um papel grande agora, nesse quadro. Uma referência política como Lula é inestimável no mundo atual”, diz. “Lula é conciliador, ele tem uma credibilidade que pode funcionar nessa crise mundial.”

