Brasil e países africanos compartilham um desafio comum e urgente: garantir a segurança alimentar e erradicar a fome, promovendo o acesso a alimentos saudáveis e sustentáveis. Com esse objetivo, Brasília sedia até a próxima quinta-feira (22) o 2º Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, Combate à Fome e Desenvolvimento Rural, reunindo 150 representantes de 40 países africanos.
Na programação desta terça-feira (20), autoridades africanas conheceram políticas públicas brasileiras voltadas à agricultura familiar e à redução da fome. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apresentou ações como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), políticas de formação de estoques e incentivo direto à agricultura familiar.
O ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, destacou que a soberania alimentar começa pela produção e qualidade dos alimentos. Ele defendeu a valorização de práticas sustentáveis e de culturas tradicionais, e destacou os avanços do Brasil no crédito a pequenos produtores, assistência técnica, compras públicas e políticas de reforma agrária.
Teixeira enfatizou a importância de recuperar saberes alimentares ancestrais e oferecer alternativas saudáveis à alimentação industrializada. Ele também mencionou que políticas públicas de financiamento e seguro agrícola têm sustentado safras recordes, mesmo em tempos de instabilidade climática.
Entre as iniciativas apresentadas está a exigência de que pelo menos 30% das compras feitas por órgãos públicos – como Forças Armadas, hospitais e escolas – sejam originadas da agricultura familiar. O ministro destacou ainda o incentivo ao uso de fitoterápicos produzidos por pequenos agricultores no sistema de saúde pública.
As compras públicas também beneficiam assentamentos de reforma agrária e instituições que atendem populações vulneráveis. “A terceira forma de apoio é abrir novos mercados para quem está produzindo no campo e ainda não consegue comercializar em larga escala”, explicou Teixeira.
O evento também contou com a presença do ministro da Agricultura e das Florestas de Angola, Isaac dos Anjos, que destacou a parceria com o Brasil. Segundo ele, Angola já recebeu visitas técnicas da Embrapa e promove capacitações em parceria com a Conab. No ano passado, em Luanda, 97 técnicos angolanos foram capacitados em áreas como monitoramento de safra, custos de produção e controle de qualidade. Uma nova etapa, com 75 técnicos, está em andamento.
Isaac dos Anjos mencionou que Angola, que já foi um dos maiores exportadores de café do mundo, busca retomar esse protagonismo com base em um modelo mais justo e sustentável, afastado dos padrões herdados da colonização.
O presidente da Conab, Edegar Pretto, defendeu que a cooperação com países africanos representa também uma forma de reparação histórica, em razão da contribuição forçada dos povos africanos ao desenvolvimento econômico brasileiro durante o período escravocrata. “A África tem terra fértil, água abundante e grande potencial. O Brasil pode colaborar com sua experiência em políticas de precificação, armazenamento e comercialização de alimentos”, disse Pretto.
O chefe da Assessoria de Relações Internacionais da Conab, Marisson de Melo Marinho, reforçou que a troca é mútua. Segundo ele, o Brasil também aprende com os países africanos, que apresentam técnicas adaptadas às suas realidades, como o uso de resíduos da produção de trigo para alimentação animal. Além disso, os intercâmbios acabam abrindo novos mercados para produtos brasileiros.
Cléber Soares, secretário executivo adjunto do Ministério da Agricultura, afirmou que a relação com os países africanos representa uma “via de mão dupla”, com trocas comerciais e tecnológicas vantajosas para ambos os lados. Ele destacou a introdução bem-sucedida, no Brasil, de capins africanos com alto rendimento para alimentação de rebanhos.
Para fortalecer ainda mais essa cooperação, o governo brasileiro vem ampliando a presença internacional de sua diplomacia agrícola. O número de adidos agrícolas foi expandido de 22 para 40, sendo sete deles em países africanos. Além disso, a Embrapa criou um escritório na Etiópia dedicado exclusivamente à parceria com a União Africana.
Os objetivos centrais do evento incluem o compartilhamento de experiências em agricultura e aquicultura, o intercâmbio de tecnologias, o fortalecimento de políticas públicas eficazes, a promoção da inovação e a valorização da agricultura familiar como modelo sustentável.
Teixeira ressaltou que a agricultura familiar é responsável por produzir cerca de mil tipos de alimentos, ao passo que o agronegócio concentra sua produção em apenas 15. “É a agricultura familiar que garante variedade, alimentos frescos e saudáveis na mesa das pessoas. Por isso, nossas políticas devem protegê-la e fortalecê-la”, declarou.
O encontro busca, portanto, consolidar uma aliança entre Brasil e África baseada na solidariedade, no respeito à soberania alimentar e no desenvolvimento rural sustentável. Por meio do exemplo brasileiro, os países africanos vislumbram caminhos possíveis para enfrentar os desafios da fome e da pobreza, respeitando suas próprias realidades, tradições e potenciais produtivos.
O 2º Diálogo Brasil-África ocorre em um momento estratégico, em que o mundo discute formas de combater a fome e enfrentar as mudanças climáticas sem comprometer a biodiversidade e os modos de vida das populações tradicionais. Nesse contexto, o Brasil se posiciona como parceiro estratégico e referência na formulação de políticas públicas integradas e eficazes para garantir a segurança alimentar e nutricional em escala global.
Foto: José Cruz/Agência Brasil

