O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta segunda-feira, 21 de julho, que o Brasil não pretende abandonar as negociações com os Estados Unidos, mesmo diante da iminente imposição de uma tarifa de cinquenta por cento sobre os produtos brasileiros exportados para aquele país. Durante entrevista concedida à Rádio CBN, o ministro reforçou que o governo brasileiro permanece comprometido com o diálogo diplomático, embora reconheça a possibilidade de que as sobretaxas entrem em vigor já no primeiro dia de agosto.

A decisão foi tomada com base na orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que determinou empenho máximo na manutenção do canal diplomático e comercial com os norte-americanos. “A determinação do presidente Lula é de que não daremos nenhuma razão para sofrer esse tipo de sanção”, declarou Haddad. Segundo ele, tanto o vice-presidente Geraldo Alckmin quanto o Itamaraty estão plenamente engajados na tentativa de resolver a situação.

Haddad relatou ainda que o governo brasileiro enviou recentemente uma segunda correspondência oficial ao governo dos Estados Unidos, reiterando a disposição para o diálogo. A primeira carta, remetida em maio, não foi respondida. “Nós vamos insistir na negociação comercial para que possamos encontrar um caminho de aproximação entre os dois países, que não têm razão alguma para estarem distanciados”, pontuou o ministro.

Enquanto isso, o governo federal elabora medidas de contingência voltadas aos setores econômicos que poderão ser mais afetados pelas tarifas. Haddad afirmou que essas propostas ainda não foram apresentadas ao presidente Lula, mas que estão sendo preparadas por um grupo de trabalho interministerial.

“A pedido do presidente, estamos desenhando todos os cenários possíveis. Precisamos considerar tanto a hipótese de abertura de diálogo pelos Estados Unidos quanto a eventual ausência de resposta até o dia primeiro. Não podemos desconsiderar essa possibilidade, embora ela não seja a única em avaliação”, esclareceu.

Ao ser questionado sobre possíveis retaliações por parte do Brasil, Haddad foi enfático ao descartar a adoção de medidas de represália. “Não vamos pagar na mesma moeda. Mas isso não impede que o governo estude a aplicação da Lei da Reciprocidade, prevista na legislação brasileira”, declarou.

Ainda de acordo com o ministro, eventuais planos de apoio aos setores prejudicados não necessariamente exigirão novos gastos públicos. Ele citou como exemplo as ações tomadas no Rio Grande do Sul após as enchentes, que utilizaram mecanismos financeiros alternativos. “A menor parte dos investimentos para recuperar a economia gaúcha foi feita com gasto primário. A maior parte envolveu apoio às empresas”, argumentou.

Haddad também abordou o impacto do tarifaço norte-americano sobre outras nações, destacando que o Brasil apresenta uma peculiaridade no contexto: a relação pessoal entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e Donald Trump. Para ele, essa conexão interfere nas decisões políticas que prejudicam os interesses brasileiros.

Este é o momento de buscarmos unidade nacional na defesa do interesse do Brasil. Há uma força política de extrema direita em nosso país que atua contra os interesses nacionais, e isso precisa ser compreendido com clareza”, alertou.

O ministro ressaltou ainda que o Brasil tem déficit comercial em relação aos Estados Unidos, o que torna injustificável a aplicação de uma tarifa tão severa. Além disso, Haddad lembrou que manteve diálogo frequente com autoridades norte-americanas ao longo do ano, incluindo pelo menos dez encontros, o último deles realizado na Califórnia com o secretário do Tesouro dos EUA.

“Naquela ocasião, discutimos uma tarifa de dez por cento, considerada injusta, e a autoridade americana se mostrou aberta ao diálogo. O que aconteceu de dois meses para cá que justifica esse aumento para cinquenta por cento?”, questionou.

Para ele, a única explicação plausível seria o vínculo direto entre Trump e Bolsonaro. “É muito grave que o destino de um país seja afetado por decisões baseadas em afinidades pessoais, especialmente quando envolvem alguém que tentou se manter no poder por meio da força e em benefício próprio”, afirmou.

Outro ponto que causou estranheza, segundo Haddad, foi o anúncio de Trump de que pretende investigar o Pix, sistema de pagamento instantâneo adotado pelo Brasil. O ministro comparou o Pix a uma inovação semelhante à dos celulares, que substituíram os telefones fixos.

O Pix é um modelo bem-sucedido de transações financeiras sem custo para o usuário. Deveria ser copiado por outros países, e não investigado como se fosse uma ameaça. Como o Pix pode representar risco a uma potência global?”, indagou.

Haddad também aproveitou para reafirmar o compromisso do governo com a responsabilidade fiscal. Segundo ele, não há intenção de revisar a meta de resultado primário, mesmo com as incertezas causadas pelo cenário internacional. “Apesar de o mercado sempre falar que vamos rever, nós nunca revemos”, afirmou.

O ministro demonstrou confiança no desempenho econômico da atual gestão. Segundo ele, o governo Lula entregará até o final do mandato os melhores indicadores fiscais, de emprego, distribuição de renda e crescimento econômico desde 2015.

“Nós vamos entregar o melhor resultado fiscal em quatro anos. Vamos recuperar as finanças públicas, alcançar o melhor nível de emprego e a melhor distribuição de renda. E vamos obter o maior crescimento médio desde 2015. Anote o que estou dizendo. A obsessão da equipe econômica, da ministra Simone Tebet e de todo o Ministério da Fazenda é atingir esse objetivo, e ele será alcançado”, concluiu.

A postura do governo brasileiro frente à crise tarifária imposta por Donald Trump revela uma estratégia de diplomacia firme, mas sem confronto, baseada na construção de pontes e no fortalecimento dos interesses nacionais. A expectativa é que, até o início de agosto, os Estados Unidos ofereçam alguma resposta que evite um agravamento nas relações comerciais entre os dois países. Caso contrário, o governo Lula já sinaliza que está pronto para reagir com medidas técnicas e institucionais que preservem a economia nacional sem comprometer o equilíbrio fiscal ou as relações diplomáticas.

Foto: Diogo Zacarias/MF

 


Avatar

administrator