O Brasil tem potencial para zerar as emissões de gases de efeito estufa até 2040, afirmou o climatologista Carlos Nobre durante a palestra de abertura do segundo dia da 5ª Conferência Nacional do Meio Ambiente. Na apresentação, Nobre compartilhou dados preliminares de um estudo ainda em andamento que projeta a viabilidade do país alcançar essa meta ambiciosa dentro de 16 anos.

Segundo o pesquisador, para atingir esse objetivo, o Brasil precisará realizar transições profundas em diversas áreas, incluindo a adoção de uma matriz energética 100% limpa, desenvolvimento de uma agricultura neutra em carbono e a obtenção de emissões negativas por meio do uso sustentável da terra e de grandes projetos de restauração ambiental.

“O Brasil tem plenas condições de operar com energia totalmente limpa e renovável. Até 2040, podemos ter uma agricultura muito menos emissora de carbono e ampliar significativamente a restauração florestal. Nosso estudo indica que é possível remover até 600 milhões de toneladas de CO₂ anualmente, a partir de 2040, restaurando biomas”, explicou Nobre.

Além do impacto direto no enfrentamento da crise climática, as mudanças propostas por Nobre também trariam benefícios para a saúde e qualidade de vida da população. “A queima de combustíveis fósseis produz poluentes em todas as cidades do mundo. Quantas pessoas morrem anualmente em decorrência da poluição urbana? Entre seis e sete milhões”, alertou.

Em 2022, o Brasil ocupava a quinta posição entre os maiores emissores globais, com uma média de 11 toneladas de gases do efeito estufa emitidas por pessoa ao ano. Para comparação, a China emitia 10,5 toneladas per capita, os Estados Unidos, 16,5 toneladas, e a Índia, duas toneladas.

Apesar de avanços recentes, incluindo políticas de restauração de 12 milhões de hectares e a meta de zerar o desmatamento em todos os biomas até 2030, as emissões brasileiras podem permanecer em 1,2 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente se persistirem práticas como o uso de energia fóssil e agropecuária intensiva.

Sem ações mais contundentes, Nobre alertou que o planeta enfrentará consequências graves, como o branqueamento de corais — ameaça que coloca em risco 25% da biodiversidade marinha —, aumento do aquecimento global e possível extinção de 99% das espécies caso a temperatura média global ultrapasse 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais.

O cientista também destacou o risco associado ao degelo do permafrost, que armazena grandes quantidades de metano e dióxido de carbono. “Se a temperatura global subir além de 2 graus, liberaremos mais de 200 bilhões de toneladas desses gases. O metano, em particular, tem um efeito estufa cerca de 30 vezes mais potente que o dióxido de carbono”, advertiu.

No contexto brasileiro, Nobre ressaltou a crescente ameaça de a Amazônia atingir um ponto de não retorno. “A seca no sul da Amazônia já dura de quatro a cinco semanas a mais do que no passado. Isso torna o ar mais seco e aumenta a mortalidade das árvores”, afirmou. Regiões do sudeste e sul do Pará e norte de Mato Grosso, segundo ele, já passaram a emitir mais carbono do que absorvem.

Na década de 1990, a Amazônia removia mais de 1,5 bilhão de toneladas de CO₂ anualmente. Hoje, áreas significativas dessa floresta aproximam-se perigosamente do ponto de colapso ambiental.

As secas tornaram-se mais frequentes e severas, influenciadas por fenômenos climáticos como o El Niño e pelo aumento das temperaturas no Atlântico. “Tínhamos secas severas a cada 20 anos, mas agora ocorreram em 2005, 2010, 2015, 2016 e tivemos a pior da história recente em 2023 e 2024”, relatou.

Essas mudanças também comprometem os chamados rios voadores — massas de ar úmido que transportam vapor de água da Amazônia para outras regiões do país. “Somente as florestas situadas em territórios indígenas da Amazônia respondem por até 30% desses fluxos de umidade. Cerca de 40% das chuvas no Cerrado, no Sul do Brasil e 15% no Sudeste dependem desses rios voadores”, explicou Nobre.

Se o desmatamento atingir níveis entre 20% e 25%, e o aquecimento global alcançar 2,5 graus Celsius, Nobre prevê que entre 50% e 70% da Amazônia poderá se degradar, transformando-se em um ecossistema semelhante a uma savana tropical empobrecida, com severa perda de biodiversidade.

Ele alertou ainda que o Cerrado e a Caatinga também estão próximos do ponto de não retorno, o que poderá gerar mais ondas de calor, ameaças à saúde humana e maior frequência de eventos climáticos extremos, além de elevar o risco de surgimento de novas pandemias em florestas em desequilíbrio.

Encerrando sua apresentação, Nobre destacou que as cidades brasileiras precisam se adaptar não apenas para enfrentar os desafios climáticos, mas também para reduzir desigualdades socioeconômicas e construir um legado sustentável para as futuras gerações.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil


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