Em um encontro marcado por troca de experiências, reflexões e fortalecimento da presença feminina nos espaços de poder, o evento “Café e Prosa das Mulheres” reuniu dezenas de participantes na manhã de quarta-feira, dia 11 de março, no Augusttus Buffet e Recepções, em Contagem. A iniciativa reuniu mulheres que ocupam cargos estratégicos na administração pública municipal para discutir desafios da gestão e o papel feminino na formulação de políticas públicas que impactam diretamente a vida da população.
O encontro contou com a presença de secretárias municipais, subsecretárias, superintendentes, coordenadoras de Centros de Referência de Assistência Social e Centros de Referência Especializados de Assistência Social, diretoras de distritos sanitários, administradoras regionais e vereadoras. Além das discussões institucionais, o evento também proporcionou um momento de convivência entre as participantes, com café da manhã e apresentação musical ao vivo.
Durante o encontro, a prefeita Marília Campos compartilhou sua trajetória política e experiências pessoais ao longo da carreira pública. Segundo ela, a presença feminina na política ainda enfrenta desafios importantes e exige que as mulheres fortaleçam redes de apoio e ampliem sua visibilidade nos espaços institucionais.
“Precisamos falar mais sobre nossas trajetórias e parar de nos esconder. As mulheres têm um jeito próprio de enxergar e fazer política e não podemos permitir que conquistas já alcançadas retrocedam. É fundamental fortalecer os espaços institucionais, ampliar nossa capacitação e romper com a cultura do silêncio na qual fomos educadas”, afirmou.
A prefeita destacou ainda que as estruturas políticas no país ainda são predominantemente masculinas, o que exige persistência e organização coletiva para ampliar a participação feminina.
“Também é necessário garantir que o fato de sermos mulheres não seja um limitador. Na política ainda predominam estruturas masculinas e muitas vezes nossa presença parece ser tratada como concessão. Precisamos ocupar e consolidar esses espaços com legitimidade”, acrescentou.
A secretária municipal da Mulher e da Juventude, Camilla Marques, ressaltou que a construção de políticas públicas exige cooperação entre mulheres que ocupam diferentes funções na administração pública. Segundo ela, muitas vezes a própria estrutura institucional estimula disputas internas, o que pode enfraquecer a atuação coletiva.
“Sendo uma mulher jovem na gestão, sei que a desconfiança ainda existe, inclusive entre nós. Precisamos fortalecer a união e nossa rede de apoio. Estamos reunidas aqui para mostrar o quanto avançamos na ocupação de espaços de decisão e é juntas que podemos transformar a cidade que queremos”, afirmou.
A secretária de Serviços Urbanos, Renata Gomes, também compartilhou sua experiência à frente de uma área tradicionalmente ocupada por profissionais da engenharia. Ela explicou que assumir a pasta representou um desafio significativo, mas destacou que a diversidade de experiências contribui para ampliar as perspectivas da gestão pública.
“Essa é uma pasta tradicionalmente ocupada por engenheiros. Eu não tenho essa formação técnica, então foi um grande desafio estar nesse espaço. Ainda assim, acredito que pude contribuir com conhecimento, gestão e compromisso”, disse.
Renata ressaltou ainda a importância do apoio familiar em sua trajetória. Segundo ela, ter crescido em um ambiente no qual seu pai incentivava a participação ativa da mãe em todas as áreas da vida contribuiu para fortalecer sua confiança diante dos desafios profissionais.
Outro tema abordado durante o encontro foi o trabalho de apoio às mulheres vítimas de violência no município. A superintendente de políticas públicas para as mulheres, Neimara Lopes, destacou a atuação do Centro Bem-Me-Quero, serviço voltado ao acolhimento e atendimento de mulheres em situação de violência.
“Desde 2021 temos trabalhado no fortalecimento da rede e na consolidação do centro. Temos orgulho de afirmar que nenhuma mulher atendida pelo serviço foi vítima de feminicídio nesse período. Isso demonstra a seriedade, a competência e a efetividade do trabalho realizado”, afirmou.
A vereadora e procuradora da Mulher da Câmara Municipal, Carol do Teteco, também ressaltou a importância de ampliar os espaços de acolhimento e conscientização sobre a violência de gênero. Segundo ela, a Procuradoria da Mulher atua não apenas em casos de violência doméstica, mas também em situações de assédio e discriminação.
“Tenho buscado abraçar cada vez mais as mulheres atendidas, oferecendo apoio e segurança. A Procuradoria foi criada para acolher não apenas casos de violência doméstica, mas também situações de assédio e preconceito que acontecem no trabalho, no transporte público e em outros espaços”, afirmou.
Carol destacou ainda que a discussão sobre igualdade de gênero precisa envolver toda a sociedade, incluindo homens em diferentes contextos sociais.
“Precisamos envolver pais, filhos e maridos nessa luta para que o respeito às mulheres seja pauta em todos os espaços. Entre nós deve prevalecer o apoio e não o julgamento”, acrescentou.
A controladora-geral do município, Nicole Bleme, abordou os desafios enfrentados por mulheres em posições de liderança. Segundo ela, ainda existe uma cobrança diferenciada sobre mulheres que ocupam cargos de gestão.
“Firmar-se em um cargo de liderança sendo mulher ainda é um grande desafio, porque o olhar sobre nós costuma ser diferente. Muitas vezes espera-se que estejamos sempre bem emocionalmente, sorrindo e agradando a todos. Existe uma cobrança constante que muitas vezes não é direcionada aos homens”, afirmou.
Nicole também destacou a importância da representatividade feminina na formação das novas gerações.
“É isso que eu procuro ensinar ao meu filho. Que ele veja na mãe uma mulher forte, que luta, ocupa espaços e busca seus objetivos. Não é fácil conciliar todas as responsabilidades, mas é fundamental que os homens compreendam que os espaços de poder precisam ser compartilhados”, disse.
O encontro também abriu espaço para reflexões sobre maternidade e carreira profissional. A superintendente de Políticas Culturais de Contagem, Aniele Leão, relatou uma experiência pessoal vivida durante uma seleção acadêmica.
Segundo ela, participou de um processo seletivo para pós-doutorado quando estava grávida de oito meses. A seleção foi realizada de forma on-line e, por receio de sofrer algum tipo de preconceito, ela decidiu não mencionar a gravidez durante o processo.
“Fui aprovada em primeiro lugar e me apresentei já com a barriga enorme. O motivo de eu não ter falado antes foi o medo de ser prejudicada. Pensei que, se fosse um homem, essa preocupação provavelmente não existiria”, relatou.
Aniele afirmou que as mulheres frequentemente enfrentam julgamentos tanto quando decidem ser mães quanto quando optam por não ter filhos.
“Damos conta, mas precisamos cada vez mais de espaços justos e compartilhados”, destacou.
Representando o setor empresarial, a presidente do Conselho Empresarial da Mulher da Associação Comercial e Industrial de Contagem, Joana Teixeira, destacou os desafios enfrentados pelas mulheres no ambiente corporativo.
Segundo ela, muitas profissionais acumulam responsabilidades dentro e fora das empresas, o que torna ainda mais importante a construção de políticas públicas voltadas à igualdade de oportunidades.
“Os desafios são grandes porque ainda acumulamos responsabilidades dentro e fora das empresas. Participamos de decisões em um mercado historicamente conduzido por homens e, ao mesmo tempo, seguimos responsáveis por muitas demandas da vida pessoal”, afirmou.
Joana ressaltou que o avanço da participação feminina depende tanto de políticas públicas quanto do reconhecimento das capacidades das mulheres em diferentes áreas.
“Precisamos de políticas públicas, mas também de confiança no nosso potencial para continuar ocupando esses espaços”, concluiu.
Foto: João Pedro Alcântara/PMC

