Candidatos ligados às Forças Armadas vêm usando as redes sociais para atacar e disseminar notícias falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro. Além disso, grande parte desses aspirantes a cargos eletivos usam suas patentes do Exército como nome de urna — prática vedada pelo Estatuto dos Militares. Levantamento do GLOBO com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) localizou ao menos 329 candidatos militares nas eleições deste ano. 

Em perfis nas redes sociais, a desinformação sobre as urnas eletrônicas e o TSE é a tônica. Em sintonia com as investidas do presidente Jair Bolsonaro (PL) contra o processo eleitoral, os candidatos usam desse discurso como mote de campanha nas plataformas digitais. 

— Tem que ter muita paciência para ver vocês engolirem as baboseiras sobre a segurança das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral. O hacker entra, dorme, caga e anda no sistema — disse no Twitter o Coronel Paulo Costa (PL), candidato a deputado estadual no Pará. 

Major Costa Araújo (PL), candidato a deputado federal no Piauí, foi mais contundente: segundo ele, já houve fraudes em votações, o que, na verdade, nunca ocorreu desde que as urnas eletrônicas foram implementadas, em 1996. Além disso, segundo o TSE, há uma série de mecanismos de segurança que asseguram a inviolabilidade do voto. 

– O sistema eletrônico de votação já foi fraudado. E pode ser fraudado, inclusive pelos próprios integrantes do TSE — escreveu no Twitter. 

No mesmo tema, Leandro Neves (PP), que concorre a deputado federal no Rio, publicou uma enquete perguntando quem seria mais burro: eleitores do ex-presidente Lula (PT), quem patrocina o “turismo sexual” do MBL (em referência à viagem à Ucrânia que culminou na cassação do ex-deputado estadual de São Paulo Arthur do Val) ou quem acredita em urna eletrônica segura. 

Já Constantino Erwen (Agir), postulante a uma vaga na Câmara por Rondônia, compartilhou no Instagram que “as urnas não podem ser auditadas”. A tese de que não é possível auditar o sistema eletrônico de votação também aparece no perfil do Tenente Barros Moreira (PTB), candidato a deputado distrital.  

O TSE disponibiliza mais de uma possibilidade de auditoria das urnas, como a inspeção dos códigos-fonte, a linguagem de programação que forma o programa usado nas urnas eletrônicas. 

— Por que vocês escondem a auditagem do povo? Vocês roubaram nossa liberdade! Merecem cadeia todos que aí dentro estão — escreveu o militar. 

Em meio à tentativa de minar a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro, há também ameaças diretas a autoridades. Candidato a deputado estadual no Amazonas, Coronel Varela (PMB) insinuou que os Colecionadores, Atiradores e Caçadores (CACs), beneficiados nos últimos três anos e meio por uma série de flexibilizações, poderiam sair em defesa do presidente: 

— O STF (Supremo Tribunal Federal) ataca constantemente o presidente, mas esquecem que esse homem conta com o apoio de mais de sessenta milhões de soldados, incluindo setecentos mil CACs determinados a defender o país, lutar pela liberdade e combater o comunismo — escreveu Varela no Instagram. 

Procurados, os candidatos reafirmaram o que está publicado em seus perfis. Tenente Barros e o Coronel Varela não foram localizados.