A disputa pela condução do Conselho de Administração da Vale ganhou novos contornos com a decisão do colegiado de convocar uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE) para o próximo dia 22 de julho, quando os acionistas irão deliberar sobre o pedido da Previ para destituir o presidente do conselho, Daniel Stieler. Apesar de atender à solicitação da fundação de previdência dos funcionários do Banco do Brasil, o conselho adotou posição contrária às propostas apresentadas pela entidade e recomendou aos acionistas que rejeitem as mudanças defendidas pelo fundo.
A reunião que definiu a convocação ocorreu na última sexta-feira e evidenciou o isolamento da Previ dentro do colegiado. Embora a fundação tenha solicitado a substituição de Stieler, a maioria dos conselheiros decidiu apoiar sua permanência no cargo e apresentar alternativas às indicações feitas pela entidade para eventual renovação da composição do conselho.
Pela legislação das sociedades anônimas, a convocação da assembleia era praticamente inevitável, já que a Previ possui participação relevante no capital da companhia e poderia convocar a reunião diretamente. Ainda assim, a decisão do conselho de recomendar voto contrário às propostas da fundação sinaliza que a disputa deverá se estender até a assembleia, quando os acionistas definirão os rumos da governança da mineradora.
O pedido da Previ envolve duas mudanças principais. A primeira é a destituição de Daniel Stieler do cargo de conselheiro. A segunda é a eleição de uma nova liderança para presidir o colegiado. Para substituir Stieler como membro do conselho, a fundação indicou José Maurício Pereira Coelho, que presidiu a própria Previ entre 2018 e 2021. Para o comando do órgão, a entidade declarou apoio ao conselheiro Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, conhecido no mercado como Ollie.
Em resposta, o conselho decidiu recomendar a manutenção de Stieler e indicar Ieda Gomes Yell para disputar a vaga de conselheira caso a destituição seja aprovada pelos acionistas. Para a presidência do colegiado, a preferência manifestada pelo conselho recaiu sobre Marcelo Gasparino, atual vice-presidente do órgão.
A Vale possui estrutura acionária pulverizada, sem um controlador definido. Nesse modelo, decisões estratégicas relevantes costumam ser tomadas em assembleias de acionistas, o que torna a votação de julho particularmente importante para o futuro da companhia. O manual de participação da AGE deverá detalhar oficialmente as recomendações de voto e os argumentos apresentados pelas diferentes correntes envolvidas na disputa.
Segundo informações divulgadas por pessoas próximas ao processo, apenas Márcio Chiumento, presidente da Previ e integrante do conselho da Vale, teria votado a favor da destituição de Stieler durante a reunião. Os demais conselheiros não acompanharam a posição da fundação. Representantes ligados a acionistas relevantes, como Mitsui e Bradespar, teriam optado pela abstenção em parte das deliberações.
A movimentação da Previ chamou atenção do mercado porque Stieler possui ligação histórica com a própria fundação. Ele presidiu a entidade entre 2021 e 2023 e chegou ao conselho da Vale justamente nesse período. Além disso, seu mandato como conselheiro segue vigente até 2027, o que levou analistas e investidores a questionarem as razões para a tentativa de substituição antecipada.
A Previ é atualmente a maior acionista individual da Vale. Sua participação direta corresponde a cerca de 7% do capital da mineradora, percentual que aumenta quando consideradas participações indiretas. Por isso, sua atuação costuma ter peso relevante nas discussões sobre governança corporativa.
Em nota divulgada após a apresentação do pedido de destituição, a fundação afirmou que o apoio ao nome de Ollie está baseado em critérios técnicos e na busca pelo aprimoramento contínuo da governança da companhia. Segundo a entidade, a iniciativa não representa interferência direta na gestão da Vale, mas faz parte de sua atuação como investidora institucional comprometida com a fiscalização e com a promoção de boas práticas corporativas.
Com a assembleia marcada para julho, a disputa agora se desloca para os acionistas, que terão a palavra final sobre a composição do conselho e a liderança responsável por conduzir uma das maiores mineradoras do mundo nos próximos anos.
Foto: Gustavo Andrade

