A diretora executiva da COP30, Ana Toni, afirmou nesta terça-feira que não há confirmação sobre a participação de Donald Trump na conferência climática marcada para Belém (PA). Questionada sobre a presença do presidente dos Estados Unidos, ela disse que os sinais não são positivos e destacou que o país “não mostrou nenhum interesse” pelo evento. Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelou ter enviado uma carta-convite a Trump.
“Os Estados Unidos estão saindo dos acordos, abandonaram o Acordo de Paris e não demonstraram nenhum interesse pela conferência deste ano. Estamos promovendo reuniões multilaterais desde o início do ano, e os EUA não participaram de nenhuma delas”, declarou Toni, durante o Climate & Impact Summit Latin America, realizado pelo *Financial Times* em parceria com a CNBC.
Trump retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris logo no início de seu segundo mandato, em janeiro. Questionada sobre o impacto dessa decisão, a diretora da COP30 afirmou: “São cento e noventa e oito países que fazem parte do acordo, e cento e noventa e oito menos um não é igual a zero. Temos muitos parceiros com quem trabalhar”. Ainda assim, ela admitiu que a postura americana gera incerteza: “Os EUA são imprevisíveis, pode haver uma surpresa de última hora, mas até agora não sabemos”.
Lula já declarou que pode se encontrar com Trump durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro. “Não sei se ele respondeu, mas espero que ele responda, porque eu respondo todas as cartas que recebo”, afirmou Lula em entrevista à Band News. No início de agosto, Trump havia dito que Lula poderia ligar “quando quisesse”. O presidente brasileiro respondeu em rede social: “Sempre estivemos abertos ao diálogo. Quem define os rumos do Brasil são os brasileiros e suas instituições. Estamos trabalhando para proteger a nossa economia e dar respostas às tarifas impostas pelos Estados Unidos”.
Poucos dias depois, Lula descartou telefonar para discutir tarifas. “Não vou ligar para o Trump para comercializar, porque ele não quer falar. Mas pode ficar certa, Marina, que vou ligar para convidá-lo para a COP”, disse o presidente, dirigindo-se à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.
Enquanto isso, cresce a pressão sobre a organização do evento. Em carta aberta divulgada em 12 de agosto, o Observatório do Clima criticou a “negligência” dos governos federal e estadual do Pará na preparação da COP30. A entidade alertou para o risco de o encontro se tornar “o mais excludente da história”, devido à redução de delegações provocada pelo alto custo da hospedagem em Belém.
Segundo o Observatório, a conferência pode gerar um “vexame histórico” para o Brasil. Nos últimos meses, a logística do evento tem sido alvo de críticas constantes, sobretudo pela falta de vagas e pelos preços elevados em hotéis. “O problema explodiu agora porque os governos tiveram dois anos e meio para resolver a questão e nada fizeram”, afirmou a rede de ONGs.
As dificuldades já levaram o presidente da Áustria a cancelar sua participação. Delegações de países mais pobres também relatam obstáculos para garantir acomodações. Para o Observatório, isso compromete a legitimidade das negociações. “A COP no Brasil arrisca ser a mais excludente da história”, reforçou a entidade.
Com apenas três meses até o início da cúpula, os preços de quartos simples em Belém já ultrapassam diárias de hotéis de luxo em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Plataformas oficiais de hospedagem chegaram a sugerir que participantes compartilhassem não apenas os quartos, mas até mesmo camas durante a conferência.
Diante do cenário, a Defensoria Pública do Pará notificou, na semana passada, empresas de hospedagem para que excluam anúncios com preços abusivos. Em paralelo, representantes da Organização das Nações Unidas e da Secretaria Extraordinária da COP30 se reúnem nesta semana para discutir alternativas que possam amenizar a crise.
Entre os pontos avaliados, estão acordos emergenciais com redes de hotéis, subsídios a delegações vulneráveis e medidas de controle de preços durante o período da conferência. A expectativa é de que soluções sejam anunciadas antes do final do mês, já que Belém deve receber milhares de participantes entre líderes políticos, diplomatas, empresários e integrantes da sociedade civil.
O desafio é garantir que o Brasil, anfitrião da COP pela primeira vez, evite que problemas de logística e indefinições diplomáticas comprometam a credibilidade de um dos encontros climáticos mais relevantes da década.
Foto: Felipe Werneck / Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima

