A CPI do Crime Organizado do Senado realiza nesta quarta-feira o segundo dia de depoimentos e amplia o foco para os problemas estruturais que comprometem a integração entre as forças de segurança no país. Após ouvir, na véspera, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, os senadores recebem agora o diretor de Inteligência Penal da Senappen, Antônio Glautter de Azevedo Morais. O promotor Lincoln Gakiya, uma das maiores referências nacionais no enfrentamento ao Primeiro Comando da Capital, havia sido inicialmente convidado para esta data, mas solicitou mudança no cronograma e será ouvido posteriormente.

O relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), afirmou que pretende aprofundar as informações fornecidas pela cúpula da Polícia Federal, especialmente sobre rastreamento financeiro, infiltração de facções nos estados e atuação conjunta entre órgãos estaduais e federais. Durante o primeiro dia de depoimentos, os senadores concentraram perguntas em episódios recentes que evidenciaram a complexidade das articulações criminosas, como o esquema de lavagem de dinheiro revelado pela Operação Carbono Oculto e a operação no Complexo do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, que terminou com cento e vinte e um mortos no fim de outubro.

Nesta nova sessão, o foco está no elo entre sistema prisional, inteligência penal e comando das facções. A expectativa é que Glautter Morais detalhe o alcance das organizações dentro dos presídios, o nível de controle que exercem sobre territórios e as fragilidades persistentes na comunicação entre estados e União. Segundo integrantes da comissão, entender como as facções se articulam a partir de unidades prisionais é essencial para neutralizar o avanço territorial e financeiro desses grupos.

Instalada no início de novembro e presidida pelo senador Fabiano Contarato (PT-ES), a CPI dividiu seus trabalhos em nove eixos temáticos, incluindo lavagem de dinheiro, fronteiras, crimes cibernéticos, ocupação territorial e infiltração de facções em estruturas estatais. Contarato informou que, na primeira semana de dezembro, enviará convites formais a governadores para prestarem esclarecimentos. Entre os nomes previstos estão Cláudio Castro, Tarcísio de Freitas e Jerônimo Rodrigues. A comissão também deve ouvir os ministros Ricardo Lewandowski, da Justiça, e José Múcio, da Defesa.

A CPI terá cento e vinte dias para concluir as investigações. Um parecer preliminar deve ser apresentado em janeiro com recomendações legislativas e propostas de melhoria na integração das forças de segurança, além de diretrizes para enfrentar a expansão das facções.

Ao iniciar sua fala, Glautter afirmou que as principais facções criminosas brasileiras surgiram dentro dos presídios e se fortaleceram a partir das fragilidades do sistema carcerário. “A inteligência penal foi forjada justamente nesse cenário. Ela existe para produzir conhecimento e subsidiar juízes, gestores e órgãos de persecução penal”, afirmou.

O diretor também abordou o orçamento do Sistema Penitenciário Federal. Segundo ele, em dois mil e vinte e cinco, o setor contará com apenas cerca de dois milhões de reais para investimentos e quinhentos e trinta milhões de reais para despesas obrigatórias, valores que considera muito inferiores às necessidades reais. “Em 2025, o Sistema Penitenciário Federal terá apenas cerca de dois milhões de reais para investimento, o que é muito inferior ao necessário”, disse.

Contarato e Vieira criticaram a ausência de dados nacionais sobre a presença de faccionados nos presídios. Para Contarato, a falta de integração entre estados revela um problema profundo. “Para mim só ficou claro que cada presídio atua de um jeito, cada estado adota uma língua”, afirmou, destacando a necessidade urgente de padronização e compartilhamento de informações.

Foto: Andressa Anholete/Agência Senado


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