Pesquisa realizada pelo instituto Datafolha indica que a corrupção não aparece entre as principais preocupações da população brasileira neste momento, mesmo após a divulgação recente de investigações relacionadas ao Banco Master e a descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social. O levantamento foi realizado na última semana e entrevistou 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em diversas regiões do país.
De acordo com os dados divulgados, a saúde aparece como o principal problema do país para 21% dos entrevistados. Em seguida surge a segurança pública, mencionada por 19% das pessoas consultadas. A economia aparece na terceira posição, citada por 11% dos entrevistados.
A corrupção aparece numericamente atrás desses temas, sendo apontada por 9% dos participantes da pesquisa como o principal problema nacional. O percentual coloca o tema empatado com a educação, que também foi mencionada por 9% dos entrevistados.
A pesquisa possui margem de erro máxima de dois pontos percentuais para mais ou para menos e nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o código BR-03715/2026.
Os dados mostram que, apesar da repercussão recente de investigações envolvendo fraudes financeiras e supostos desvios de recursos públicos, não houve até agora alteração significativa na percepção da população sobre a corrupção como principal problema do país.
Entre os episódios que ganharam destaque nas últimas semanas estão as investigações relacionadas ao Banco Master, que envolvem suspeitas de fraude estimada em aproximadamente R$ 12 bilhões. Também tiveram grande repercussão denúncias sobre descontos indevidos aplicados a beneficiários do INSS, caso que envolve suspeita de desvios de cerca de R$ 6,3 bilhões.
Apesar da visibilidade desses episódios, o levantamento indica que a preocupação com corrupção permanece relativamente estável ao longo dos últimos anos.
Em setembro de 2023, por exemplo, corrupção, roubalheira ou desonestidade foram citadas por 6% dos entrevistados como principal problema do Brasil. Desde então, o índice oscilou dentro da margem de erro, variando entre 6% e os atuais 9% registrados na pesquisa mais recente.
Segundo a diretora geral do Datafolha, Luciana Chong, a saúde costuma aparecer com frequência como principal preocupação nas pesquisas realizadas pelo instituto.
Ela observa que, mais recentemente, a segurança pública também passou a ocupar posição de destaque entre os temas citados pela população.
A análise histórica das pesquisas mostra que a percepção sobre corrupção já teve peso muito maior no debate público brasileiro.
Durante o primeiro governo da ex presidente Dilma Rousseff, por exemplo, o tema aparecia com percentuais que variavam entre 3% e 14% entre os principais problemas apontados pelos entrevistados.
Naquele período, a saúde liderava com folga as preocupações nacionais, registrando índices que variavam de 31% a 48%.
No segundo mandato de Dilma, entretanto, o cenário mudou significativamente. Em meio às investigações da Operação Lava Jato, a corrupção passou a ocupar o primeiro lugar entre os problemas do país, alcançando percentuais de 34% e 37% nas pesquisas de opinião.
Durante o governo do ex presidente Michel Temer, os índices relacionados à corrupção começaram a recuar gradualmente. Em meados de 2016 o tema ainda era mencionado por cerca de 32% dos entrevistados, mas caiu para aproximadamente 20% ao final de 2018.
No governo de Jair Bolsonaro, a preocupação com corrupção passou a oscilar em patamares mais baixos, permanecendo em apenas um dígito na maior parte do período. Os índices variaram de 3% na menor marca registrada até 9% no pico observado durante o mandato.
Os dados também mostram diferenças na percepção do problema de acordo com o perfil dos entrevistados.
Entre pessoas com renda de até dois salários mínimos, apenas 6% apontaram a corrupção como principal problema do país.
Entre eleitores que declaram intenção de voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o percentual é ainda menor, chegando a 4%.
Já entre eleitores que afirmam apoiar o senador Flávio Bolsonaro, o índice de preocupação com corrupção chega a 14%, acima da média geral registrada na pesquisa.
Especialistas apontam que a forma da pergunta utilizada pelo levantamento pode influenciar os resultados.
O cientista político Antônio Lavareda, presidente do conselho científico do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas, afirma que perguntas espontâneas tendem a refletir aquilo que está mais presente na memória imediata do entrevistado.
Segundo ele, nesse tipo de questionamento os entrevistados precisam escolher apenas uma resposta, o que pode levar temas mais próximos da realidade cotidiana, como saúde e segurança, a serem mencionados com maior frequência.
Lavareda acrescenta que parte da população pode interpretar o caso envolvendo o Banco Master mais como um escândalo financeiro semelhante a fraudes empresariais do que como um episódio diretamente ligado à corrupção política.
O professor Marco Antônio Teixeira, da Fundação Getulio Vargas, afirma que a ausência de um grupo político claramente associado aos escândalos recentes também pode influenciar a percepção pública.
Segundo ele, a repercussão política desses casos pode se ampliar ao longo dos próximos meses, especialmente com a aproximação das eleições.
Teixeira afirma que, em períodos eleitorais, a exposição de denúncias e investigações costuma ganhar maior destaque no debate público e pode influenciar a avaliação do governo e dos candidatos.
A extensão das investigações envolvendo o Banco Master ainda não está completamente esclarecida. Há avaliações de que as apurações podem atingir diferentes grupos políticos, tanto ligados à direita quanto à esquerda.
No caso das investigações relacionadas ao INSS, parte das análises aponta que os desdobramentos podem gerar desgaste político ao governo federal.
O ministro André Mendonça, relator do processo no Supremo Tribunal Federal, determinou a quebra de sigilos bancário, fiscal e telemático de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, para investigar uma possível ligação com o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, chamado de Careca do INSS.
No campo da oposição, também existe preocupação com possíveis repercussões políticas de investigações passadas. Entre aliados do senador Flávio Bolsonaro, por exemplo, o caso conhecido como rachadinha ainda é apontado como tema sensível.
Embora as investigações tenham sido arquivadas em 2021, o episódio continua sendo mencionado por adversários políticos e permanece presente no debate público.
O cientista político Andrei Roman, diretor da empresa AtlasIntel, afirma que ainda é cedo para determinar qual candidato poderá ser mais afetado pelos casos recentes.
Segundo ele, o impacto político dependerá da evolução das investigações e das informações que venham a ser divulgadas nos próximos meses.
Roman avalia, no entanto, que a corrupção tende a permanecer entre os principais temas da disputa eleitoral. Para ele, a quantidade de notícias relacionadas aos casos Master e INSS pode influenciar significativamente o cenário político e as estratégias adotadas pelos candidatos ao longo da campanha eleitoral.
Foto: Coordenação de Comunicação da Policia Federal/RJ

