O senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal, tem adotado uma estratégia de comunicação diferente nas redes sociais e em discursos públicos ao se apresentar como pré candidato à Presidência da República. Em busca de ampliar o alcance de sua candidatura e conquistar eleitores independentes, o parlamentar tem alternado críticas ao governo federal com conteúdo mais leves, incluindo memes, comentários sobre temas sociais e manifestações relacionadas a pautas tradicionalmente associadas a setores da esquerda.
A mudança de tom ficou evidente no domingo, 8 de março, quando o senador publicou um vídeo em referência ao Dia Internacional da Mulher. Na gravação, ele defendeu a ampliação do número de vagas em creches públicas e criticou a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No vídeo, Flávio afirmou que muitas mulheres enfrentam dificuldades para conciliar trabalho e cuidados com os filhos por falta de estrutura adequada de atendimento infantil.
Segundo ele, políticas públicas voltadas para a ampliação das creches poderiam contribuir para garantir maior autonomia às mulheres. O senador afirmou que milhares de brasileiras desejam estudar ou trabalhar, mas não encontram locais seguros para deixar os filhos durante a jornada diária.
Dias antes, durante uma manifestação de apoiadores do bolsonarismo realizada na Avenida Paulista, em São Paulo, Flávio Bolsonaro também abordou temas ligados ao público feminino. Em seu discurso, mencionou o aumento de casos de feminicídio no país e declarou que a defesa das mulheres deve ser tratada como prioridade nas políticas públicas de segurança.
Nas redes sociais, outra situação chamou atenção para a mudança na comunicação do senador. A música intitulada Meu amigo Flávio, criada pelo comediante Murilo Couto, viralizou na internet após ser usada em tom irônico durante uma apresentação de stand up. A canção relatava o momento em que o humorista foi seguido pelo senador no Instagram.
Após a repercussão, a expressão passou a circular como hashtag em publicações na rede social X e acabou sendo adotada pelo próprio parlamentar em tom humorístico. Em uma das mensagens, ele compartilhou uma fotografia usando óculos futuristas e escreveu que “Meu amigo Flávio vai modernizar o Brasil”. Em outra postagem, afirmou que o Brasil poderia ser resgatado do que chamou de problemas causados pelo Partido dos Trabalhadores.
Em outro episódio, o senador publicou um vídeo em defesa do jogador brasileiro Vinícius Júnior, que havia sido alvo de ataques racistas durante uma partida de futebol na Europa. Na publicação, ele afirmou que o racismo não deve ser tolerado e que episódios desse tipo precisam ser combatidos de forma firme.
A posição gerou críticas entre alguns apoiadores do bolsonarismo, que consideraram o posicionamento um afastamento do discurso tradicional da base política ligada ao ex presidente Jair Bolsonaro. Alguns seguidores afirmaram que a postura poderia prejudicar o desempenho eleitoral do senador em estados onde o eleitorado conservador é mais forte.
Nos comentários, outros usuários também relembraram declarações polêmicas feitas por Jair Bolsonaro no passado envolvendo questões raciais. Em 2021, por exemplo, o ex presidente foi condenado pela Justiça ao pagamento de indenização após comparar o cabelo crespo de um apoiador negro a um criatório de baratas. Anos antes, durante a campanha presidencial de 2018, Flávio havia defendido o pai após críticas relacionadas a declarações sobre comunidades quilombolas.
Atualmente pré candidato ao Planalto, Flávio Bolsonaro tem procurado se diferenciar em alguns aspectos da imagem política construída por seu pai, que recebeu críticas durante a pandemia de Covid 19 por declarações consideradas negacionistas por adversários e especialistas.
O senador afirmou, por exemplo, que tomou duas doses da vacina contra o coronavírus. Em outra ocasião, manifestou apoio público à pesquisadora Tatiana Sampaio, responsável pelo desenvolvimento da polilaminina, substância utilizada em estudos para tratamento de lesões na medula espinhal. Ele criticou cortes no financiamento científico que resultaram na perda da patente da tecnologia.
Após o período de carnaval, Flávio também comentou os desfiles das escolas de samba realizados nos sambódromos da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, e do Anhembi, em São Paulo. Em publicação nas redes sociais, afirmou que o carnaval representa uma das maiores manifestações culturais do país e destacou o trabalho de milhares de profissionais envolvidos na organização da festa.
Apesar do elogio à celebração popular, o senador criticou a escola de samba Acadêmicos de Niterói por ter apresentado uma homenagem ao presidente Lula durante o desfile. Segundo ele, a apresentação poderia caracterizar propaganda política antecipada financiada com recursos públicos. Após o evento, o parlamentar apresentou uma ação no Tribunal Superior Eleitoral contra o Partido dos Trabalhadores.
Em tom irônico, Flávio também utilizou linguagem neutra em uma publicação nas redes sociais ao pedir apoio eleitoral. No texto, afirmou contar com votos de “todas, todos, todes, todys e todXs”. A mensagem gerou reações diversas entre seguidores e críticos.
Antes disso, o deputado federal Eduardo Bolsonaro compartilhou nas redes sociais uma imagem produzida com uso de inteligência artificial que mostrava Flávio recebendo um beijo na bochecha de um apoiador homossexual. A postagem questionava se o senador já havia feito declarações homofóbicas.
A publicação também reacendeu lembranças de declarações antigas de Jair Bolsonaro sobre o tema. Em entrevistas anteriores, o ex presidente afirmou que preferiria ter um filho morto a ter um filho homossexual e fez comentários considerados ofensivos por organizações de defesa dos direitos humanos.
Além da estratégia de comunicação nas redes, Flávio Bolsonaro tem atuado diretamente nas articulações políticas do Partido Liberal para as eleições de 2026. O senador participou recentemente do anúncio de candidaturas no Rio de Janeiro.
No estado, o secretário das Cidades Douglas Ruas foi confirmado como pré candidato ao governo estadual. O ex prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa foi indicado para compor a chapa como candidato a vice governador.
Também foram definidos os nomes do governador Cláudio Castro e do prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, como candidatos ao Senado nas eleições do mesmo ano.
O senador também participou de negociações para a formação de uma chapa ao Senado em Santa Catarina após divergências internas provocadas pela possibilidade de candidatura do vereador Carlos Bolsonaro pelo estado.
Nos próximos dias, Flávio deverá participar do lançamento da pré candidatura do deputado federal Luciano Zucco ao governo do Rio Grande do Sul. A expectativa é que a chapa tenha um candidato a vice indicado pelo Partido Progressistas, enquanto as vagas ao Senado sejam ocupadas pelos deputados Sanderson e Marcel Van Hattem.
Foto: Andressa Anholete/Agência Senado

