Nas semanas que antecedem a cúpula do Brics, que começa nesta terça-feira na cidade russa de Kazan, o Talibã, que controla o Afeganistão desde 2021, intensificou suas movimentações diplomáticas na tentativa de obter reconhecimento internacional, especialmente junto à Rússia. Apesar de ainda não ser oficialmente reconhecido por nenhum Estado, incluindo Moscou, o Talibã tem buscado uma aproximação pragmática com o Kremlin. Essa relação é marcada por paradoxos, uma vez que a Rússia classifica o grupo como uma organização terrorista desde 2007, mas, ao mesmo tempo, mantém diálogos constantes e crescentes laços comerciais.
O primeiro aceno do Talibã ao Brics veio em setembro, quando o porta-voz adjunto do grupo, Hamdullah Fitrat, afirmou que o Afeganistão, como uma economia em desenvolvimento, deveria participar de reuniões econômicas internacionais como a do Brics. Um pedido formal foi enviado ao vice-premier russo, Yuri Ushakov, solicitando que o Afeganistão tivesse presença no fórum. No entanto, até o momento, Moscou sinalizou que tal convite só poderia ser feito com o aval de todos os membros do bloco. Não há confirmação de que o Talibã estará presente na cúpula de Kazan, e a presidência russa do Brics não incluiu o Afeganistão entre os países que pediram adesão ao grupo.
Especialistas apontam que o Talibã tem três principais objetivos com essa aproximação: obter reconhecimento formal da Rússia, evitar discussões sobre direitos humanos e estabelecer laços diplomáticos com uma potência mundial. O pesquisador Sahibzada Usman, da Universidade de Shandong, explica que o Talibã não está interessado em discutir seu histórico de violações de direitos, mas sim em formalizar relações sem tocar nesses temas delicados.
Embora o Talibã continue na lista de organizações terroristas da Rússia, o diálogo entre as duas partes vem se intensificando desde 2015, quando Zamir Kabulov, representante russo para o Afeganistão, admitiu a existência de canais de contato para combater o Estado Islâmico (EI), um inimigo comum. Nos últimos anos, esses laços foram reforçados por interesses estratégicos, sobretudo no combate ao EI-K, uma facção regional do Estado Islâmico que realizou ataques em solo russo, incluindo o atentado em Crocus City Hall, Moscou, em março deste ano.
O pragmatismo tem sido um fator determinante nessa relação. Embora a Rússia não compartilhe afinidades ideológicas com o Talibã, como faz com outros regimes aliados, as trocas comerciais entre os dois países cresceram significativamente. Em 2023, o comércio entre a Rússia e o Afeganistão atingiu US$ 1 bilhão, um salto considerável em comparação com os US$ 170 milhões registrados no ano anterior. Desde 2022, membros do Talibã têm sido convidados a participar do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, evento estratégico do Kremlin, embora com a ressalva de que as delegações não incluam indivíduos sob sanções.
A motivação para o fortalecimento dos laços entre Rússia e Talibã também está atrelada aos recursos minerais do Afeganistão. Em 2010, militares americanos estimaram que o país possui até US$ 1 trilhão em reservas minerais inexploradas. No entanto, a exploração desses recursos depende de uma segurança mínima e infraestrutura adequada, algo ainda distante. Além disso, há planos ambiciosos, embora ainda teóricos, de usar o Afeganistão como rota para um gasoduto que ligaria a Rússia à Índia, embora as dificuldades logísticas, como a travessia de cadeias de montanhas, representem um desafio considerável.
A China também intensificou o diálogo com o regime talibã e já considera incluir o Afeganistão em sua Iniciativa Cinturão e Rota, que é um dos pilares da diplomacia econômica de Pequim. Analistas apontam que a Rússia e a China estão movendo suas peças para integrar o Afeganistão em um bloco antiocidental, como parte de uma competição global pelo domínio em regiões estratégicas.
Recentemente, o governo russo indicou que poderia retirar o Talibã da lista de organizações terroristas, com o aval de Vladimir Putin. Em outubro, durante a reunião do “Formato Moscou”, fórum que trata da situação no Afeganistão, o chanceler talibã participou pela primeira vez, e a possível remoção do grupo da lista foi discutida. Segundo Zamir Kabulov, esse processo ainda exige “vários procedimentos legais” para se tornar realidade. No entanto, a Rússia deixou claro que o reconhecimento completo do Talibã só acontecerá se houver avanços em questões como a formação de um governo inclusivo e melhorias nos direitos humanos.
Enquanto isso, a aproximação pragmática entre o Talibã e a Rússia parece estar focada mais em interesses econômicos e de segurança do que em princípios de governança ou direitos humanos. O Talibã, apesar de manter a mesma linha radical de seu primeiro período de governo, busca legitimação internacional, ainda que ignore as normas da comunidade internacional.
Para o regime talibã, a aproximação com potências como Rússia e China oferece uma chance de escapar do isolamento diplomático e econômico em que se encontra desde que reassumiu o poder em 2021, após a retirada desastrosa das tropas americanas do Afeganistão. No entanto, o caminho para o reconhecimento completo ainda está repleto de obstáculos, sobretudo no que se refere à aceitação global das práticas do regime em questões como direitos humanos e governança.
O pedido do Talibã para participar da cúpula do Brics, embora possivelmente fadado ao fracasso, mostra a intenção do regime de ser visto como um ator legítimo no cenário internacional. Ao mesmo tempo, o apoio econômico e diplomático de potências como Rússia e China pode fortalecer sua posição, mesmo que isso não signifique uma mudança nos padrões de governança ou na garantia de direitos para a população afegã.
À medida que o Talibã continua a explorar oportunidades para ganhar legitimidade internacional, resta ver até que ponto potências como a Rússia estarão dispostas a apoiar um regime cujas práticas têm sido amplamente condenadas por organismos internacionais e defensores dos direitos humanos. Por enquanto, os laços entre o Talibã e o Kremlin, embora pragmáticos, permanecem frágeis e cheios de paradoxos.

