O primeiro confronto direto entre Lula e Bolsonaro apresentou um novo modelo de embate —os dois candidatos falaram sem intervenção de jornalistas no primeiro e no terceiro blocos e se movimentaram no palco.

Na avaliação petista, Lula teve os melhores momentos quando conseguiu fazer questionamentos propositivos para Bolsonaro. Para os integrantes da campanha, ao não responder diretamente, o presidente explicitou um “vazio” em relação a feitos e projetos.

O fato de Bolsonaro ter ficado quase seis minutos falando sem interrupções foi um ponto destacado pela campanha de Bolsonaro. Para a equipe, o candidato ditava os temas e Lula ficava na defensiva —o que levou seu tempo a desaparecer.

Por outro lado, petistas argumentam que Bolsonaro não soube aproveitar o tempo livre. O presidente focou em pautas de costume e trouxe temas como a relação de Lula com o governo da Nicarágua.

Para articuladores da campanha petista, esses são temas que dialogam A campanha tenta vender como assunto superado, mas não parece que a prática confirma com o discurso. A primeira-dama Michelle Bolsonaro e a senadora eleita Damares Alves (Republicanos-DF),

Pintou um clima’. Foi o próprio Bolsonaro que tocou no assunto que viralizou no fim de semana. Em entrevista a um podcast na última sexta-feira (14), o presidente se referiu a um encontro com venezuelanas dizendo que “pintou um clima” ao ver adolescentes “arrumadas para ganhar a vida”, insinuando prostituição infantil.

Nos bastidores o debate , foi marcado, por convidado surpresa, separação de torcidas e ausência de aperto de mão, ao menos no início do evento, entre o presidente Jair Bolsonaro (PL) e ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A presença do ex-juiz e senador eleito Sergio Moro (União-PR) na plateia de Bolsonaro causou alvoroço entre os petistas. Nos bastidores, foi uma surpresa até entre convidados do presidente.

O grupo não esperava a presença do ex-ministro da Justiça que havia rompido com o presidente e voltou a se aproximar às vésperas do primeiro turno.

“É um escárnio, a demonstração que ele não tem um pingo de autoestima. Prestou serviço a Bolsonaro como ministro e presta de novo”, provocou o advogado Marco Aurélio de Carvalho, do Prerrogativas, integrante da comitiva petista.

Ao final do debate, Moro apareceu de “papagaio de pirata“, atrás do presidente, enquanto o presidente concedia entrevista. Bolsonaro alegou que estava cansado e passou a palavra para seu ex-ministro.

Depois da discussão no primeiro debate entre os deputados eleitos André Janones (Avante-MG) e Ricardo Salles (PL-SP), grades, seguranças e até vasos com plantas foram colocados para separar os convidados de cada um dos candidatos. Mas a verdade é que o espaço não foi muito prestigiado. Havia mais jornalistas do que convidados dos candidatos.

A deputada eleita Marina Silva (Rede-SP) lamentou a grade que separa convidados. Ela afirmou que a distância imposta entre os dois grupos é uma metáfora para o que Bolsonaro representa no país. “Infelizmente o Bolsonaro impõe um cercadinho do Palácio da Alvorada, adoram essa história de cercado, é um país que ele acha que pode colocar num cercadinho“, disse ela. “É a metáfora concreta de uma visão autoritária antidemocrática de desrespeito à sociedade, aos jornalistas. Hoje temos a democracia sitiada”, acrescentou Marina.

Sem aperto de mão. Bolsonaro chegou com uma comitiva de oito carros ao estúdio e, ao entrar, não cumprimentou Lula que já estava no palco nesse momento. Já no terceiro bloco, Bolsonaro disse: “Fica aqui, Lula. Fica aqui”, tocando no ombro do petista. “Estou à disposição”, respondeu o ex-presidente. Não há registro de contato físico entre os dois no mínimo desde 2018, quando Bolsonaro concorreu à presidência. Nos bastidores dos debates neste ano, nunca apertaram as mãos.

O espaço no lounge reservado aos convidados de Bolsonaro estava bastante vazio. Havia quatro pessoas e sobravam seis fileiras desocupadas. Entre os presentes, o advogado da família Frederick Wassef levantou para fazer vídeo, foi ao fundo do lounge, saiu para dar entrevistas e conversar com outras pessoas.

Após insultar a jornalista Vera Magalhães em debate no primeiro turno, Bolsonaro recebeu uma indireta de Lula neste domingo no seu reencontro com a apresentadora. Em provocação ao presidente, o petista disse: “Vou me aproximar da câmera, mas não vou te agredir, Vera”, disse Lula. Já Bolsonaro, ao responder a jornalista, afirmou: “Satisfação revê-la” — em agosto, ele a atacou: “Acho que você dorme pensando em mim. Você tem alguma paixão em mim”.

Outro convidado, o vereador do Rio de Janeiro e filho do presidente, Carlos Bolsonaro parecia agitado no primeiro bloco. Ele levantou de onde estava sentado, se agachou ao lado do ministro das Comunicações Fábio Faria, que estava ao lado de Sérgio Moro, e comentou algo. Já mais para o final do primeiro bloco, ele olhou para o pai e disse “fala com a câmera”.

A equipe de Lula tentou, sem sucesso, alertá-lo para a administração do seu tempo de fala. Petistas pediram que ele reduzisse suas respostas para que sobrasse mais tempo para o confronto final. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, ficava mostrando o relógio para Lula. Bolsonaro acabou com quase seis minutos à sua disposição.

A resposta de Lula a Bolsonaro sobre fake news, provocando Bolsonaro, trouxe as primeiras reações dos convidados —mesmo que tímidas. “Você sabe quem é especialista em fake news”, disse Lula, trazendo breve aplauso do lado petista e um “vagabundo” do lado bolsonarista. Diferentemente no primeiro turno, o lounge de convidados tem poucos convidados dos dois lados, com presença maior de jornalistas e seguranças.

O deputado federal eleito Guilherme Boulos (PSOL-SP) comemorou resposta de Lula quando ele respondeu sobre crime organizado, afirmando que Bolsonaro tem relações com a milícia que matou a vereadora Marielle Franco (PSOL). Do lounge reservado aos convidados, Boulos soltou “” em voz alta, em tom de comemoração.

Após o primeiro bloco, Marina comentou a atuação de Bolsonaro na transposição do rio São Francisco. “Ele entra mesmo como engenheiro de obra pronta. O processo talvez mais complexo fosse o licenciamento ambiental [feito no governo Lula]”.

Em diversos momentos do debate, Bolsonaro tossiu. Aconteceu nas suas respostas e enquanto Lula falava. O presidente está com problemas na voz desde a metade da semana. Na quarta-feira (12), durante a visita a Basílica Nacional de Aparecida, ele não deu coletiva e se limitou a uma rápida entrevista com menos de dois minutos à TV Aparecida em que ficou claro que estava afônico. Bolsonaro está com uma agenda de campanha bastante intensa. Ontem, por exemplo, ele participou de atividades eleitorais em três estados: Piauí, Maranhão e Ceará.


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