Eventos climáticos extremos como temporais intensos, enxurradas, secas prolongadas e longos períodos de estiagem já fazem parte da realidade de diferentes regiões do planeta. Esses fenômenos estão diretamente associados às mudanças climáticas e têm provocado impactos significativos sobre cidades, infraestrutura, produção agrícola e qualidade de vida da população. Ao mesmo tempo em que os efeitos ambientais se intensificam, cresce também a busca por soluções tecnológicas capazes de mitigar esses impactos e ajudar na adaptação das sociedades.
Esse movimento tem impulsionado o desenvolvimento das chamadas tecnologias climáticas, também conhecidas como tecnologias verdes ou ambientalmente adequadas. O setor utiliza inovação científica e tecnológica para acelerar respostas aos desafios ambientais, reduzir emissões de gases de efeito estufa e fortalecer a resiliência de sistemas urbanos, industriais e agrícolas diante das mudanças do clima.
Segundo especialistas, essas tecnologias combinam dois dos segmentos econômicos que devem registrar maior crescimento global até 2030: o setor de tecnologia e a economia verde. A integração dessas áreas cria um ambiente favorável para o surgimento de novos negócios e investimentos voltados à sustentabilidade.
De acordo com Yago Freire, consultor de projetos do instituto de pesquisa Laclima, as tecnologias climáticas têm como principal característica a utilização de soluções inovadoras para proteger o meio ambiente e promover o uso mais eficiente dos recursos naturais.
Segundo ele, essas ferramentas ajudam a reduzir a poluição, ampliar a sustentabilidade no uso de energia e água e aumentar a capacidade de adaptação das cidades e das atividades produtivas às transformações ambientais.
Relatórios recentes do Fórum Econômico Mundial indicam que a expansão desse setor poderá gerar oportunidades de negócios estimadas em cerca de US$ 10,1 trilhões em todo o planeta até o final desta década. Uma parcela significativa desse valor deverá vir da redução de custos obtida por meio de investimentos em eficiência energética, uso racional da água e reaproveitamento de matérias-primas.
Nesse contexto, organismos internacionais têm criado mecanismos para estimular o acesso às tecnologias climáticas, especialmente em países em desenvolvimento. Um exemplo é o Programa de Implementação de Tecnologia, conhecido pela sigla TIP, uma das decisões adotadas durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas realizada em novembro de 2025 na cidade de Belém, no Pará.
O programa foi criado com o objetivo de ampliar a difusão de soluções tecnológicas capazes de enfrentar os efeitos das mudanças climáticas, além de fortalecer os sistemas nacionais de inovação e criar ambientes regulatórios mais favoráveis ao desenvolvimento dessas iniciativas.
Para especialistas, o momento atual representa uma transição importante. Muitas tecnologias já foram desenvolvidas e testadas e agora entram em uma nova etapa voltada à implementação em larga escala.
A expectativa é que, ao ampliar o acesso às soluções já existentes, países, estados e municípios possam acelerar estratégias de adaptação climática e fortalecer sua infraestrutura diante de eventos extremos.
Apesar do potencial, os investimentos globais em tecnologia climática ainda estão concentrados em determinadas regiões. Dados da plataforma de inteligência de mercado Net Zero Insights indicam que, em 2024, a América Latina recebeu cerca de US$ 743,3 milhões em investimentos nesse setor, valor que representa menos de 1% dos US$ 92 bilhões aplicados globalmente.
Mesmo com essa participação reduzida no fluxo financeiro internacional, o Brasil apresenta sinais de crescimento nesse segmento. No mesmo período, o país mobilizou aproximadamente R$ 2 bilhões em iniciativas relacionadas a tecnologias climáticas e gerou mais de 5 mil empregos diretos e indiretos ligados a startups especializadas nesse tipo de inovação.
Essas empresas são conhecidas como climatechs, termo utilizado para designar startups que desenvolvem soluções tecnológicas voltadas à mitigação das mudanças climáticas e à adaptação a novos cenários ambientais.
Na avaliação da diretora executiva do Fórum Brasileiro de Climatechs, Ana Himmelstein, o Brasil possui características que favorecem o desenvolvimento desse tipo de tecnologia tanto para atender à demanda interna quanto para produzir soluções com potencial de aplicação global.
Segundo ela, o país reúne uma combinação de fatores favoráveis, como grande biodiversidade, centros de pesquisa reconhecidos internacionalmente e universidades que ocupam posições relevantes em rankings acadêmicos.
Além disso, o ambiente empreendedor brasileiro também tem demonstrado maturidade crescente na criação de startups voltadas a soluções ambientais e tecnológicas.
Mesmo com essas vantagens, especialistas apontam que ainda existem obstáculos que limitam o crescimento do setor. O relatório Destravando o Potencial do Brasil para a Tecnologia Climática, divulgado pelo fórum em 2025, indica que o principal desafio está na articulação entre governos, setor privado e instituições de pesquisa.
De acordo com o estudo, o país possui condições favoráveis para ampliar sua presença nesse mercado, mas ainda enfrenta lacunas relacionadas à coordenação de políticas públicas, financiamento e integração entre os diferentes atores do ecossistema de inovação.
Outro fator apontado é a necessidade de ampliar a participação do capital privado internacional nos investimentos destinados às climatechs brasileiras.
Para Ana Himmelstein, o crescimento da economia brasileira em setores como o agronegócio já demonstra que existe investimento interno em soluções voltadas à adaptação climática.
Segundo ela, parte desse investimento ocorre de forma indireta, já que muitas empresas agrícolas têm adotado tecnologias voltadas à eficiência energética, monitoramento climático e uso sustentável de recursos naturais.
A dirigente do Fórum Brasileiro de Climatechs destaca que, ao observar mais de perto o setor produtivo, é possível perceber o avanço de tecnologias desenvolvidas por startups especializadas.
Outro esforço realizado pelo fórum envolve a construção de modelos de financiamento capazes de ampliar o fluxo de investimentos no setor. A iniciativa é desenvolvida em parceria com o Ministério das Pequenas e Médias Empresas e com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
Segundo Zé Gustavo Favaro, dirigente da entidade, a proposta é aproximar investidores das soluções tecnológicas que estão sendo desenvolvidas no país e ampliar o acesso das startups a recursos financeiros.
Para facilitar a compreensão do mercado, o fórum passou a classificar as climatechs brasileiras em 8 áreas principais de atuação. Entre elas estão energia e biocombustíveis, indústria, agricultura e sistemas alimentares, florestas e uso do solo, água e saneamento, gestão de resíduos, finanças climáticas e logística e mobilidade.
Essa divisão permite acompanhar com maior precisão os desafios regulatórios e as oportunidades de inovação em cada segmento.
Segundo Favaro, o avanço das tecnologias climáticas está diretamente ligado a uma transformação mais ampla na forma como a sociedade organiza sua economia e seu consumo.
Ele afirma que as mudanças climáticas deverão provocar transformações profundas nos padrões de produção, nos mercados e no comportamento da população ao longo das próximas décadas.
Na avaliação do especialista, o desenvolvimento de soluções tecnológicas voltadas ao clima representa não apenas uma necessidade ambiental, mas também uma grande oportunidade econômica para países capazes de investir em inovação e sustentabilidade.
Foto: Ralf Vetterle/Pixabay

