Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiram com críticas contundentes à sinalização do governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, sobre a intenção de firmar acordos para adquirir minerais estratégicos brasileiros, como lítio, nióbio e elementos de terras raras. A declaração, feita pelo encarregado de negócios da embaixada americana no Brasil, Gabriel Escobar, causou desconforto no governo e acendeu alertas sobre soberania e interesses geopolíticos.
Durante evento em Minas Gerais, Lula adotou um tom enfático ao abordar o tema. “Nós temos 12% da água doce do mundo para proteger. Nós temos 215 milhões de pessoas para proteger. Nós temos todo o nosso petróleo para proteger. Nós temos todo o nosso ouro para proteger. Nós temos todos os minerais ricos que vocês querem para proteger. E aqui ninguém põe a mão. Este país é do povo brasileiro”, afirmou o presidente.
A manifestação do presidente reverberou entre parlamentares governistas, que acusaram o ex-presidente americano de cobiçar as riquezas naturais do Brasil. O vice-líder do governo no Congresso, deputado Bohn Gass (PT-RS), escreveu nas redes sociais que os interesses de Trump englobam “pix, petróleo, ganhos em bilhões com os tarifaços, impedir a desdolarização da economia”. Segundo ele, “Trump sabe que só o bolsonarismo teria a desfaçatez de renegar a soberania para lhe entregar tudo o que ele quer”.
Nos bastidores, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, tem atuado como interlocutor de Trump. O parlamentar tem defendido medidas como o tarifaço contra produtos brasileiros, articulado sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e pressionado por anistia a envolvidos na tentativa de golpe de Estado. A aproximação entre setores do bolsonarismo e a gestão Trump tem gerado inquietação entre autoridades brasileiras.
O ex-senador Roberto Requião (PDT-PR) também criticou a iniciativa americana. “Trump quer as terras raras do Brasil, o petróleo, a água e o governo da República submetido aos seus desejos”, declarou.
Em resposta ao avanço dos interesses estrangeiros, o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) afirmou que pretende apresentar um projeto de lei que estabeleça o monopólio da União sobre a exploração de terras raras. “É para levantar esse debate contra essa ingerência externa que está de olho nas nossas riquezas. É mais um elemento que eu acho importante para chamar a atenção nesse momento que, muitas vezes, está debaixo dos panos. É um interesse, uma cobiça sobre esses minerais, que são fundamentais para a ciência e tecnologia no mundo”, disse o parlamentar.
A sinalização americana foi formalizada em reunião entre Gabriel Escobar e representantes do setor de mineração na última quarta-feira. A proposta foi levada ao vice-presidente Geraldo Alckmin, responsável pelas negociações com os Estados Unidos na tentativa de mitigar os impactos do tarifaço anunciado por Trump, que prevê alíquotas de até 50% sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto.
Fontes do governo brasileiro ressaltaram que a exploração e comercialização de minerais estratégicos ocorre por meio de concessões da União e processos públicos, sem discriminação entre países. No entanto, ponderam que, em um cenário de tensões diplomáticas e tarifárias, qualquer acordo com os Estados Unidos dependeria de contrapartidas e não poderia ser tratado de forma unilateral.
Foto: Andrew Harnik

