A disputa pela vaga aberta no Tribunal de Contas da União passou a mobilizar intensamente os bastidores da Câmara dos Deputados e tem provocado preocupações entre aliados do presidente da Casa, Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba. Lideranças próximas ao parlamentar avaliam que o desafio não se limita apenas a garantir a eleição do deputado Odair Cunha, do Partido dos Trabalhadores de Minas Gerais, para o cargo de ministro do tribunal. O objetivo também é evitar que a eleição provoque um racha político dentro do bloco que atualmente sustenta Motta na presidência da Câmara.

A vaga no Tribunal de Contas da União foi aberta no fim de fevereiro após a aposentadoria do ministro Aroldo Cedraz. Desde então, diferentes grupos parlamentares passaram a se movimentar em busca de apoio para seus candidatos, transformando a disputa em um teste importante para a capacidade de articulação política do presidente da Câmara.

O acordo que favorece a candidatura de Odair Cunha foi costurado ainda em dois mil e vinte e quatro, quando o Partido dos Trabalhadores decidiu apoiar Hugo Motta na eleição para a presidência da Câmara. Naquele momento, ficou estabelecido que, quando surgisse uma vaga no Tribunal de Contas da União destinada à Câmara, Motta apoiaria o nome indicado pelo PT.

A aliança construída naquela ocasião reuniu diversas siglas, incluindo o próprio PT, além de partidos como Republicanos, MDB, PP e outras legendas menores. Contudo, duas forças relevantes do chamado Centrão não participaram do entendimento inicial. O Partido Social Democrático e o União Brasil decidiram apoiar Hugo Motta apenas posteriormente, quando suas próprias candidaturas à presidência da Câmara foram retiradas da disputa.

Esse histórico explica parte da tensão atual. Tanto o PSD quanto o União Brasil afirmam que não participaram do acordo que prevê o apoio a Odair Cunha e, por isso, se sentem livres para lançar ou apoiar candidatos próprios para a vaga no Tribunal de Contas da União.

Mesmo diante dessa resistência, aliados de Hugo Motta têm buscado intensificar negociações para evitar que essas legendas se afastem do grupo político que sustenta o atual comando da Câmara. O próprio presidente da Casa e o deputado Odair Cunha iniciaram conversas com lideranças partidárias para tentar consolidar apoios.

Nos últimos dias, Hugo Motta conversou com o líder do PSD na Câmara, deputado Antonio Brito, da Bahia. Ao mesmo tempo, Odair Cunha procurou dialogar com o deputado Elmar Nascimento, do União Brasil da Bahia, que também se apresenta como candidato ao cargo no Tribunal de Contas da União.

Apesar dessas conversas, nenhuma das duas legendas sinalizou publicamente apoio ao candidato do Partido dos Trabalhadores. A disputa permanece aberta e com diferentes candidaturas sendo apresentadas dentro da Câmara.

O próprio Hugo Motta reconhece que o cenário ainda é incerto. Em declarações recentes, o presidente da Câmara afirmou que está conversando com os diferentes candidatos e partidos para entender qual deles reúne mais apoio entre os deputados.

Segundo ele, disputar uma vaga no Tribunal de Contas da União exige mais do que simplesmente registrar candidatura. Para ter viabilidade, é necessário que o parlamentar tenha o respaldo de uma bancada ou de um partido com capacidade de mobilizar votos no plenário da Câmara.

Motta também pondera que a existência de várias candidaturas não significa necessariamente que o bloco que o elegeu esteja fragmentado. Ele argumenta que disputas internas são comuns em eleições para cargos no Tribunal de Contas da União e que historicamente essas votações costumam ter mais de um concorrente.

Dentro do União Brasil, o cenário é considerado mais aberto do que no PSD. A legenda possui o deputado Elmar Nascimento como candidato declarado, e o líder da bancada, Pedro Lucas, tem afirmado que o partido apoia seu nome para o cargo.

Mesmo assim, aliados de Hugo Motta avaliam que ainda existe margem para negociação com integrantes da sigla. O partido chegou a marcar uma reunião para discutir oficialmente sua posição na disputa, mas o encontro foi posteriormente desmarcado.

Entre parlamentares, o adiamento foi interpretado como um sinal de que o tema ainda está em negociação. Alguns deputados acreditam que Hugo Motta tem tentado influenciar o processo por meio de diálogo com a direção do partido e com suas principais lideranças.

No caso do PSD, a situação parece mais consolidada. A sigla decidiu apoiar o deputado Hugo Leal, do Rio de Janeiro, que também entrou na disputa pela vaga no Tribunal de Contas da União. Parlamentares do partido chegaram inclusive a distribuir material de campanha interno defendendo sua candidatura.

A eleição para escolher o novo ministro do tribunal ainda não tem data definida. Parte dos deputados defende que a votação seja realizada já na próxima semana, que será o único período de sessões presenciais da Câmara durante o mês de março. Contudo, a decisão final depende do presidente da Casa.

Hugo Motta indicou que ainda não há acordo suficiente para marcar a eleição imediatamente. Segundo ele, é necessário compreender melhor o cenário político antes de definir o momento mais adequado para realizar a votação.

O presidente da Câmara também afirmou que não existe obrigação regimental que determine a realização imediata da eleição, mesmo com a vaga aberta no tribunal. Ele argumenta que o funcionamento do Tribunal de Contas da União não fica comprometido porque existem ministros substitutos que podem atuar temporariamente.

Nos bastidores, parlamentares admitem que a disputa pela vaga no tribunal passou a ser observada como um teste da capacidade de articulação política de Hugo Motta no comando da Câmara. A votação deverá indicar se o presidente da Casa consegue manter coesa a base que o elegeu.

Apesar das dificuldades, aliados do presidente da Câmara afirmam que Odair Cunha ainda tem chances reais de vitória. Segundo esses interlocutores, o deputado mineiro tem buscado construir pontes com diferentes bancadas e evitar um clima de confronto dentro da Casa.

Para esses aliados, uma das prioridades de Hugo Motta neste início de mandato tem sido justamente reduzir o nível de conflitos internos na Câmara. Eles avaliam que, nos primeiros meses deste ano, o presidente da Casa conseguiu conduzir a pauta legislativa com menos tensão do que em períodos anteriores.

No fim do ano passado, entretanto, Motta enfrentou episódios que desgastaram sua relação com parte dos parlamentares. Entre eles esteve o chamado motim bolsonarista que ocupou a Mesa Diretora da Câmara, além de disputas envolvendo processos de cassação de deputados.

Naquele período, Motta também recebeu críticas públicas de seu antecessor no comando da Câmara, o deputado Arthur Lira, do Progressistas de Alagoas. A relação entre os dois se tornou um dos temas de discussão dentro da Casa.

Alguns parlamentares ligados ao Centrão avaliam que o presidente da Câmara cometeu erros na condução das negociações sobre a vaga no Tribunal de Contas da União. Para esse grupo, Motta teria tratado a disputa simultaneamente como um acordo político e como uma campanha eleitoral.

Esses deputados argumentam que, se houvesse de fato um acordo consolidado em torno do nome de Odair Cunha, não seria necessário que o candidato e o próprio presidente da Câmara estivessem pedindo votos individualmente aos colegas.

Outro ponto criticado por esse grupo é o envolvimento direto de Hugo Motta na disputa. Na avaliação desses parlamentares, o presidente da Casa poderia ter optado por apoiar um nome de consenso ou simplesmente marcar a eleição e permitir que o candidato com mais votos fosse escolhido.

Apesar dessas críticas, outros líderes parlamentares afirmam que não é possível relacionar diretamente a disputa pelo Tribunal de Contas da União com a sucessão na presidência da Câmara. Segundo eles, a próxima eleição para o comando da Casa dependerá principalmente da composição política resultante das eleições gerais de 2026.

Outro fator que também poderá influenciar esse cenário é o resultado da eleição presidencial. Dependendo de quem assumir o Palácio do Planalto, o equilíbrio de forças dentro da Câmara poderá se alterar significativamente.

Além das candidaturas de Odair Cunha, Elmar Nascimento e Hugo Leal, outros deputados também passaram a demonstrar interesse na vaga aberta no Tribunal de Contas da União. Entre os nomes mencionados estão Danilo Forte, do União Brasil do Ceará, Hélio Lopes, do Partido Liberal do Rio de Janeiro, e Adriana Ventura, do Novo de São Paulo.

Existe ainda a possibilidade de um acordo envolvendo o Partido Liberal. Apesar de estar no campo político oposto ao Partido dos Trabalhadores, integrantes da legenda discutem a hipótese de apoiar Odair Cunha na votação.

Em troca desse apoio, o PT poderia apoiar futuramente o deputado Altineu Côrtes, do Partido Liberal do Rio de Janeiro, caso uma nova vaga no tribunal seja aberta nos próximos anos.

Essa possibilidade passou a ser discutida porque o ministro Augusto Nardes deverá se aposentar no próximo ano, o que abriria uma nova indicação da Câmara dos Deputados para o Tribunal de Contas da União.

Enquanto as negociações continuam, Hugo Motta mantém conversas com diferentes bancadas para tentar construir uma solução que preserve a unidade política do grupo que sustenta sua presidência na Câmara.

Para muitos parlamentares, mais do que escolher o novo ministro do Tribunal de Contas da União, a votação servirá como um indicador importante do equilíbrio de forças dentro da Câmara e da capacidade de articulação do atual presidente da Casa.

Foto: Pedro França/Agência Senado


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