Informações de Contato

Belo Horizonte - MG

Atendimento

Foi entre afagos e interrogações que o ex-ministro Ciro Gomes teve o nome confirmado pelo PDT nacional como candidato da sigla às eleições presidenciais deste ano. Primeira legenda a realizar a convenção partidária, o PTD se reuniu nesta quarta-feira (20), em Brasília (DF), em meio a um clima de empolgação por parte de militantes mais aguerridos da legenda, mas também diante de uma série de dúvidas que ainda pairam sobre a chapa que será puxada pelo político cearense.

Diante da movimentação que tirou da rotina a sede nacional do partido, a reportagem esteve no local para ouvir filiados de idades e perfis variados e mostrar o que a base da sigla discute e projeta a respeito da chapa de Ciro.

Um dos grupos de militantes é o dos jovens que decidiram se engajar no partido nos últimos anos, no rastro do que Gaby Santos, 23, identificou como uma “necessidade de se organizar politicamente”. Atualmente pré-candidata a deputada distrital, a militante, que é cientista política, conta que se filiou ao partido em 2019 movida por esse sentimento, impulsionado pelo resultado do pleito que elegeu Jair Bolsonaro (PL) presidente.

“Há uma grande necessidade de renovação na política”, observa. Questionada se a candidatura de Ciro tem chance de naufragar em meio aos apelos para que o PDT se una ao PT na chapa de Lula, ela descarta a possibilidade e se diz convicta na sobrevivência da chapa pedetista.

“Desistir não é uma opção pra gente. A gente sabe que, mesmo o PDT estando isolado nos acordos, a gente tem que fazer essa candidatura ir para frente”, opina. A militante vê a participação de Ciro no pleito deste ano como uma “tentativa de disrupção” em meio à polarização que estimula a vantagem de Lula (PT) e Bolsonaro sobre o político cearense. “A nossa tarefa é justamente romper com isso.”

Apesar das dificuldades nas pesquisas atuais, Ciro empolga militantes que apoiam historicamente a candidatura e tem entre o segmento alguns dos seus eleitores mais fieis.

É o caso do maranhense João Lobato, que desde 1985 é filiado à legenda e vê com entusiasmo a jornada do político cearense. Ele se alinha com Ciro inclusive em episódios que renderam críticas ao ex-ministro, como ocorreu no segundo turno de 2018, ocasião em que o político viajou para a França em vez de participar da campanha do segundo turno.

“Ele foi pra Paris e eu acabei indo pro lago Paranoá nadar. Também não votei porque não queria. Hoje eu não sei o que faria. Teria que ver”, diz, com ar reticente. O militante se segura firme na ideia de depositar esperança em Ciro na primeira fase da disputa.

“Lula está chegando pra tentar pegar o mandato do Bolsonaro. Tinha que ser ele, mas eu acredito muito no Ciro, tanto é que meu [voto no] primeiro turno é dele”, afirma, ao mencionar que aposta no pedetista como “grande nome da esquerda para os próximos quatro ou oito anos”. “Ele não vai desistir”, projeta.

Lobato reconhece, no entanto, alguns empecilhos que podem amargar o caminho até lá. “Eu acho que o Ciro precisa trabalhar a tolerância dele, por exemplo. Ele perde muito numa entrevista por causa disso e isso não é bom. De desequilibrado já basta o que temos hoje na Presidência da República”, brinca.

Com cerca de dez anos de partido, a militante Jovita, 62, atual candidata a deputada distrital pelo PDT, pertence a outra geração dentro da sigla, mas cultiva a mesma animação com a chapa do ex-ministro. Ela exalta o perfil e a jornada de Ciro.

“Ele tem um verdadeiro programa nacional de desenvolvimento, por isso não consigo entender por que ele não sobe nas pesquisas. Eu sei que ele é esquentado, ele tem esse jeito, mas isso não é motivo porque temos um presidente da República que também é”, lamenta, ao pontuar que aposta no pedetista no primeiro turno.

Já para a funcionária pública Regina Olímpia Figueira de Bessa, que atua na sigla desde a fundação, os levantamentos de opinião têm pouca relevância no jogo. “Eu nem acredito em pesquisas, inclusive. Acho que essa polarização é de interesse da grande imprensa, dos empresários, dos mais ricos, por isso eu não me apego a isso e acho que nossa chapa vai em frente.”

Incógnita

Para uma parcela dos militantes, no entanto, a percepção do cenário ainda é de maior cautela. Sobre a dificuldade da candidatura de Ciro decolar, a militante histórica Maria Amélia Reis, que atua no partido há décadas e trabalhou diretamente com Leonel Brizola, a maior referência do PDT, destaca a firmeza com que apoia o nome de Ciro.

Ela diz que vê coerência histórica na sigla e que por isso escolheu marchar ao lado do político cearense, mas reconhece as interrogações que ainda podem perturbar o horizonte adiante.

Questionada se acredita na chance de o pedetista em algum momento abrir mão da candidatura, ela diz ter dificuldades de fixar uma projeção: “Eu não sei. E por que eu não sei? Porque acho que, na política, onde eu atuo há 40 anos, a gente não pode cravar certas coisas. O que eu sinto é que ele sabe o que está fazendo.”

Enquanto o posicionamento do partido até o final da primeira fase da disputa seguirá como incógnita, há os que temem uma eventual reeleição de Bolsonaro e por isso já apontam para a possibilidade de dirigirem os próprios votos a Lula no primeiro turno.

Um militante que pediu para não ser identificado afirmou ao Brasil de Fato que o país “vive um caos” e que, diante disso, cogita não votar em Ciro caso o candidato não decole até as vésperas do primeiro turno.

“É claro que eu votaria no Lula. Não porque eu o ache a melhor opção, mas porque seria o menos pior diante desse cenário. Seria uma questão de se pensar com a razão. Não podemos brincar com o psicopata que hoje está no poder”, dispara, ao confessar que percebe a mesma disponibilidade em outros militantes do PDT.


Paola Tito

editor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.