A adoção da tarifa zero no transporte público pode representar muito mais do que uma política de mobilidade urbana. Um estudo elaborado por pesquisadores ligados à Universidade de Brasília aponta que a gratuidade universal no transporte coletivo tem potencial para ampliar o acesso da população a serviços essenciais, especialmente na área da saúde, além de contribuir para a redução de desigualdades sociais e raciais presentes nas grandes cidades brasileiras.
A pesquisa destaca que o custo das passagens, aliado à baixa qualidade do transporte público em diversas regiões metropolitanas, cria obstáculos que afetam diretamente a vida de milhões de brasileiros. Entre os principais problemas identificados estão atrasos constantes, longos períodos de deslocamento, superlotação, insegurança e imprevisibilidade dos horários, fatores que acabam dificultando o acesso a consultas médicas, exames, tratamentos contínuos e serviços preventivos.
A auxiliar de serviços gerais Núbia Sales Veras, moradora da Cidade Ocidental, no Entorno do Distrito Federal, conhece bem essa realidade. Todos os dias ela percorre uma longa distância para chegar ao trabalho em Brasília. Segundo seu relato, as dificuldades relacionadas ao transporte já provocaram perdas de consultas médicas importantes para o tratamento da fibromialgia, doença crônica que exige acompanhamento constante.
Além dos atrasos, o valor das passagens também pesa no orçamento familiar. O custo diário do deslocamento compromete recursos que poderiam ser destinados a outras necessidades, como educação, lazer, cultura e qualificação profissional. A situação demonstra como a mobilidade urbana influencia diretamente diferentes aspectos da vida cotidiana.
O estudo ressalta que os impactos negativos do transporte precário vão além das dificuldades de locomoção. Longos períodos de deslocamento podem aumentar o estresse, provocar desgaste emocional e contribuir para o agravamento de problemas relacionados à saúde mental, como ansiedade e depressão.
Os pesquisadores observam ainda que esses efeitos atingem de forma mais intensa a população negra, que está mais presente entre os grupos de menor renda e residentes em áreas periféricas. Como consequência, barreiras econômicas e territoriais acabam restringindo o acesso a serviços públicos fundamentais.
A aposentada Helena Simão, moradora de Samambaia, também relatou dificuldades. Apesar de possuir gratuidade por causa da idade, ela afirma que a demora dos ônibus já provocou perdas de consultas médicas importantes para o acompanhamento de sua saúde.
Segundo os autores do levantamento, a implementação da tarifa zero universal poderia reduzir significativamente essas barreiras, garantindo maior acesso aos equipamentos públicos e fortalecendo a continuidade dos tratamentos médicos. A proposta é apresentada como uma política estruturante, capaz de promover inclusão social e ampliar oportunidades para milhões de brasileiros.
Além dos benefícios sociais, estudos anteriores indicam que a gratuidade no transporte coletivo poderia estimular a economia ao aumentar a circulação de pessoas, facilitar o acesso ao emprego e ampliar o consumo de bens e serviços. Para os pesquisadores, a tarifa zero tem potencial para transformar a relação da população com o transporte público, de forma semelhante ao papel desempenhado pelo Sistema Único de Saúde na garantia do acesso universal à saúde.
A conclusão do estudo é que a mobilidade urbana deve ser compreendida como um direito fundamental. Nesse contexto, eliminar a cobrança das passagens pode representar um passo importante para reduzir desigualdades históricas, fortalecer o acesso à saúde e promover maior integração social nas cidades brasileiras.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

